Dos males da alma

Quantas pessoas cabem na sua solidão? Quantas pessoas preenchem o seu vazio? Quantas pessoas escutam o seu silêncio?
Talvez a pior parte de ser consumido pela tristeza não seja a tristeza em si, mas a falta. A falta de vontade, a falta de interesse, a falta da confiança e a falta da esperança.
A falta da vontade de se preencher daquilo que costumava te tornar completo. A falta de interesse em se dedicar aquilo que te estimulava. A falta de confiança nas pessoas que te cercam e que são sempre, via de regra, incapazes de compreender o que se passa, nem sempre por não quererem, mas por vezes por não terem o olhar voltado para o outro. A falta de esperança de que, no final, as coisas melhoram, se recuperam, se fortalecem, afinal o que é a esperança e qual seu lugar frente a uma vida inteira?
O que consome não é a tristeza é a dúvida do que ela nos diz, de onde vem, do seu porque. O que consome é saber que o ciclo continua e continuará e que nada de novo cairá no seu caminho.
São gritos mudos que quando fomos capazes de vocalizar chegam em ouvidos surdos então de que adianta gritar?

Raquel Núbia

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Foto: @eubrunolopez

Conselhos

Não te entregue aqueles que te estendem a mão.
Não tomes por certo quem te sorri.
Pois um sorriso pode esconder mil segredos
e a mão estendida pode ser a que te fará cair.

Não te abras feito um livro que é bom.
Não confie naquele que adentra teu lar.
Sua história pode virar conto em outras línguas
e a confiança, combustível para lhe queimar.

Não te alegres quando for lembrado.
Não se deixe levar pelo carinho alheio.
A lembrança é semente que germina o terreno
e o carinho é disfarce para o real anseio.

Não te faças no direito da liberdade.
Não coloque teu peite no que expressar.
A fala que teces pode ser um veneno
e o teu sentimento o que vai te depredar.

Não te entregues, não te abras.
Não te alegres, não te faças.

A verdade do outro acaba,
vai até onde os seus olhos podem ver.
Se confias no outro o que é seu,
o arrependimento é o prêmio que vais ter.

Raquel Núbia

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Foto: @juhneri

 

Indagações

Eu sonhei demais?
Será que fiz das nuvens, minha casa
E das estrelas, companhia?
Do céu, minha morada
De onde, sonhar era o que eu fazia?
Será que mirei no sol,
Mirei na lua ao anoitecer?
E construí meu conto de fadas
Sob a areia que só faz ceder?
Será que meu alimento, que era esperança, não valeu de nada?
Será que eu fechei meus olhos ou que me deixei ser despedaçada?
Será que eu sonhei demais?
Será que o que desejei e acreditei não existe no mundo?
E que o que a minha história é rasa e não encontra o que é profundo?
Será que eu desenhei o meu destino em cores, versos e canto,
mas que a vida que me foi dada foi rascunhava em preto e branco?
Será que fui eu quem errou ao alinhar as expectativas?
Ao achar que o caminho seria repleto de flores vivas?
Será que a culpada fui eu por levar a certeza de que eu merecia… quando não verdade sou eu a causa do luto no dia a dia?
Será que é isso mesmo e que a vida é um projeto de médio resultado e que não adianta querer, no final de tudo, o pote dourado?
Ou será que fui eu quem pensei que não seria nada demais e que hoje recolho os frutos amargos, por sonhar demais?

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Sobre autores e personagens

Talvez, só talvez a vida seja isso mesmo… Um emaranhado de desejos e vontades e sonhos que apenas existem pra nos mostrar que há um limite.
Talvez a vida seja isso mesmo… Um eterno comparar de realidades em que nós nos perdemos imaginando “como seria se” e agradecendo “por não ser pior”.
Em tudo o que vivemos existe esse limbo, da insatisfação pelo que não temos, pelo que sabemos que nunca vamos ter e a gratidão pelo que não precisamos viver, nos submeter, pelo que escapamos dessa vez.
Sim… insatisfação pelo que sabemos que nunca vamos ter, pois apesar do que nos dizem, do que nos contam as línguas otimistas, nem tudo seremos capazes, nem tudo alcançaremos, alguns sonhos existem apenas para serem sonhados, mesmo que mudemos seu nome para metas e objetivos, alguns destes existem somente para nossa íntima frustração.
E tudo bem…
Tudo bem?
Tudo bem na conformidade de sabermos e entendermos que cada um tem um papel. Parece que o destino (Deus, talvez?) já escreve nossa história desde sempre e, para alguns as páginas vem com mais céu azul, com mais natureza, mas risadas, mais oportunidades, menos preocupações, pelo menos com o que é básico na vida da maioria. Para alguns há tempo, não há relógio soprando o passar das horas com tanto rigor e nem o peso de decisões diárias que roubam pouco a pouco a alegria do dia.
Só para alguns, as páginas estão repletas de lado B, de opõçes, de caminhos infinitos… E para outros, a maioria, parece que o destino (Deus, talvez?) caiu na monotonia do escritor enfadonho e apenas repetiu as frases que ocupam as linhas, sem a criatividade ou a generosidade que teve com os protagonistas, fazendo a grande massa apenas espectadora, por vezes sonhadora por vezes esmagada pela realidade das páginas preenchidas com mais do mesmo e permeada pelo tal limbo citado acima.
Quando a menta questiona muito o coração fica confuso, o peito pesa e a mente voa… Voa nas possibilidades que o pensamento traz mas se aprisiona ao encarar a verdade absoluta de que talvez, talvez a vida seja isso mesmo…

Raquel Núbia

2020-06-03
Foto: @eubrunolopez – Muriaé/MG

Numa terra distante…

Você já parou pra pensar em como é fácil admirar alguém de longe?
Quando se mantém a pessoa em uma posição em que não é permitido se aproximar, desvendar as fraquezas, os medos, as intolerâncias. Quando o que se vê é somente uma versão editada, polida e idealizada, dessas que mostramos aos outros quando tentamos vender nosso melhor lado.
Difícil mesmo é admirar a pessoa quando se tem dela o que é real em sua essência, incluindo suas dores e dúvidas, seus momentos de intempéries em que o sorriso não é fácil e onde o que se apresenta é o lado grotesco, degenerado, que solicita, o lado que guardamos para aqueles que mais amamos, pois se nos amam, nos acolherão, mas será que essa tem sido a realidade?
A quem temos acolhido e quem tem nos envolvido quando o que temos é somente isso para ser?
O trânsito fora da normalidade, da beleza e da plenitude tão sonhada, tem implicado inevitavelmente na solidão que grita gritos mudos e que nos toca e estremece com todas as suas mãos.
Quando se tem o real, do dia a dia, com altos e baixos, qualidade e defeitos… Quando a balança dos prós e contras está equilibrada e não suspensa em uma realidade distorcida pela distância do que se almeja, aí sim é que reforçamos o vínculo em saber que se é amado mesmo quando não vemos motivos.
Ser perfeito e atraente de longe é simples.
Ser perfeito e atraente de perto é corda bamba.
Abraçar, respeitar e admirar o imperfeito e a falta de beleza que há nas pessoas, é ser empático, é ter caráter e coragem.
Isso, infelizmente, é tarefa para poucos.

Raquel Núbia

 

2020-05-25
Foto: @eubrunolopez – Engenheiro Coelho/SP

Sem razão ou por que

Será que as pessoas já pararam para pensar na quantidade de esforço que é necessário para manter o foco, a energia e o estado de espírito elevado? Quando paro pra pensar, mas pensar de verdade, numa análise quase absurda, em detalhes dos motivos pelos quais fazemos o que fazemos, a conclusão inevitável é de que nada faz sentido e nada importa.
O que tem valor hoje, no mundo que vivemos, só tem porque um dia alguém disse que tinha. O que é considerado importante, também segue o mesmo padrão de definição. Então quando paramos e nos perguntamos o porque das coisas, vemos que estamos como hasmters correndo em uma roda que gira e gira sem chegar a lugar nenhum.
O mundo tem sido um lugar estranho (independente da pandemia), um lugar em que as coisas, por vezes, parecem invertidas. Em que pessoas boas sofrem e pessoas de caráter duvidoso tem êxito… Por isso, no início eu disse que é necessário muito esforço para se manter positivo e persistente, porque todas as indicações e avisos nos dizem para fazer o contrário.
A gente usa muita energia pra manter o olhar voltado pro que é bom e isso nem sempre é fácil, ainda mais quando a gente perde um pouco o significado do que porque manter esse olhar…

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Sobre os dias que vivemos

Antes eu reclamava dos dias de chuva,
Pois eles não me permitiam sair.
A chuva que molhava a rua
Me tornava prisioneira quando insistia em cair.

Ainda assim eu via beleza nos dias cinzas e chuvosos que eu vivia,
Pois a nostalgia que me abrigava trazia inspiração na melancolia.

Inesperadamente a chuva resolveu aparecer e deixar seu cheiro.
Um mundo de gotas inundou o chão e o caminho inteiro.

Curiosamente não houve prisão.
Somente uma liberdade controlada.
Que me permite a vida lá fora, mas com hora marcada.

Ainda que houvesse céu azul e uma manhã ensolarada,
Ou mesmo que permaneçam as águas com o perfume de terra molhada.

A cor dos dias já não é capaz de pintar meu sentimento.
Pois o esforço é manter a força e energia a cada momento.

A chuva chora tantas vidas num sentimento absoluto.
Se fosse céu de brigadeiro ainda assim haveria luto.

Nem sol, nem chuva por si serão suficientes,
Pra curar um mundo, que muito além de um vírus, está doente.

Raquel Núbia

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Foto: @raque__nubia – Muriaé/MG

Aqueles que não são plural

Nós somos tão raros e  nem percebemos… Não damos conta de como guardamos um universo inteiro dentro da gente, de como somos feitos de sonhos, esperanças, emoções.
Nós não nos percebemos valiosos, pois a todo tempo existe algo ou alguém nos apontando o contrário. Alguém que por vezes também tem tanto valor e ainda assim se limita no prazer de provocar no outro o que ele mesmo sente de ruim, de pequeno. Instiga no outro o que lhe tira o próprio brilho e que lhe corrói por dentro por não saber o que fazer com tudo aquilo.
E quem cultiva em si o campo germinado do amor, costuma se entregar e compartilhar de suas sementes sem nem mesmo conseguir pensar que quem pede o alimento e a beleza tão prestes a brotar, não é capaz de sentir satisfeito ou contemplar a flor que nascerá de suas mãos.
Nós somos raros e cada vez mais escassos. Nós somos raros e cada vez mais amedrontados ainda que permaneçamos com o peito repleto do que que falta no mundo.
Nós somos o que sabemos ser e vivemos do que nosso coração está cheio. Somos insistentes por teimar em sermos bons quando ao redor o mundo está em ruínas…
Nós somos o que resta da chance de um novo começo. Nós somos literalmente a pedra que resiste e por isso incomoda os que vivem de apontar nos outros o que falta em si mesmo.
Nós somos almas boas. Nós somos amor. E por isso, somos raros.

Raquel Núbia

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Foto: @tamara.loures

 

Sobre o pôr do sol de cada dia

O fim de tarde sempre foi um momento desafiador pra mim, o findar do dia, a cor alaranjada que costuma riscar o céu, o cheiro de rua movimentada no fim da tarde, o transformar gradual da luz, quando cai a noite e nos avisa que mais um dia passou, acabou. Um dia que jamais teremos de volta, seja para o bem ou para o mal.
Quando o vento do outono ainda faz sua participação especial, soprando fresco, por vezes frio, emoldurando essa passagem vespertina, o sentir se torna ainda mais pesado. Talvez eu seja mesmo apegada às estações e me sinta incapaz de desvencilhar minhas memórias dos tons e cheiros que elas me trazem.
O início da noite, atualmente, tem sido apenas um lembrete de que o dia que está por vir se repetirá em sua totalidade, seja cercada pelas paredes de casa ou pela imensidão do trabalho, a certeza é de que pouco ou nada sairá dos eixos e essa repetição torna esse encerramento das horas ainda mais angustiante.
Parece que me sinto implodir em silêncio, pois o que me rodeia não me permite nem mesmo gritar, seja literal ou figurativamente. Me sento de costas para a varanda, fingindo não perceber que o céu já está trocando de cor e mentalizando que são apenas pensamentos que daqui a pouco se vão distraídos pelos afazeres que em minutos preencherão o que o relógio chama de noite.
Nesse recorte solitário, nostálgico e com gotas de tristeza, me deixo desvanecer, pois a força necessária para estar sempre bem, também parece ir embora quando o dia acaba.

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG