Relembrando: Sobre a realidade das nossas fantasias

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Sobre a realidade das nossas fantasias

Quando a gente tem uma vida muito intensa dentro da gente, dentro da nossa mente, que é sempre tão inquieta, fica difícil estabelecer uma relação saudável com a realidade.
A vida dentro da cabeça da gente pode ser tão mais atraente e incrível. E a vida dentro da cabeça da gente também pode ser tão assustadora e torturante!
Quando essas duas realidades se colidem o choque é inevitável.
Afinal, de tudo o que a mente cria e guarda, nem sempre é possível que se coloque pra viver. Mas tudo o que a mente cria e guarda impacta na forma como vivemos.
A vida interna é tão absoluta, contundente e barulhenta que a calma e a quietude externa não correspondem ao que deveriam. Passam a sensação de torpor ou de desimportância sendo que, na verdade, há um esforço tão grande para controlar o que acontece por dentro, que nem sempre sobra energia para colocar para fora. Ou então, se está tão ocupado vivendo os pensamentos e aventuras imaginárias, que a vida real deixa de ser interessante quase que pode completo e se torna apenas uma grande repetição do mesmo.
Se isso acontece, precisamos ficar alertas pois, uma vez que em nossas mentes arteiras sempre encontraremos soluções até mesmo para os devaneios mais surreais, o real do cotidiano tende a ser deixado em segundo plano, criando o ambiente perfeito para que possamos nos manter isolados e cercados apenas nos nossos pensamentos.
Mas em meio a uma realidade sempre caótica e apenas vez ou outra atraente, como seguir firme quando se há um universo inteiro dentro da gente, esperando para ser vivido?”

Raquel  Núbia

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Relembrando: Respire, apesar de tudo

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Respire, apesar de tudo

Em alguns momentos tudo o que nos resta a fazer é respirar.
Mesmo que seja uma respiração pesada, desesperançosa e exausta.
Respirar para manter vivo o que muitas pessoas e acontecimentos querem matar dentro de nós.
Ainda que com a ajuda de aparelhos, ainda que de forma contida, ainda que todo o corpo permaneça inerte a todos os outros estímulos e que, por um momento, possamos nos sentir apenas uma armadura sendo pilotada.
Ainda assim.
É preciso encher os pulmões e esperar que na próxima inspiração a realidade seja mais gentil ou que pelo menos a nossa forma de encarar o que a vida nos mostra seja mais carinhosa.
Enquanto isso, respire.
Respire, apesar de tudo.

Raquel Núbia

Sobre o que deixamos pelo caminho

Acho que é inevitável, sempre que estamos passando por alguma mudança, algum momento decisivo ou fazendo grandes reflexões, fica impossível não olhar pra trás e se lembrar das coisas importantes que nos guiaram até onde estamos.
Algumas coisas parece que vivemos ontem, mas quando refletimos, vemos que já se passaram tantos anos e nós nem havíamos percebido. Como o tempo passa! Entretanto algumas coisas são marcantes de mais pra ficar no passado e, de um maneira ou de outra, as trazemos conosco pra onde quer que vamos. Sejam boas ou ruins.
As boas atuam como um lembrete de que, no fim, tudo vai ficar bem. E as ruins atuam como um estímulo que não nos deixam esquecer que algumas pessoas duvidam de nós, usam nosso nome em suas fantasias, nos abandonam, nos usam como peças em seus jogos particulares, nos atacam por não conseguirem lidar com suas próprias derrotas e fraquezas mas mesmo assim, cá estamos nós, não é mesmo?
Com alguns cortes e cicatrizes emocionais.
Guardando aquelas frases e coisas que ouvimos e vivemos há tanto tempo e que estão cravadas, pulsando por uma oportunidade de resposta que nunca virá, pois o momento de revidar já passou.
A gente segue vivendo coletando pelo caminho as experiências que vivemos. Guardando essas conchas de memórias numa sacola que às vezes fica muito cheia e precisa ser esvaziada, então escolhemos algumas conchas pra deixar pra trás, mas o tempo em que elas ficaram na nossa sacola é suficiente pra deixar marcas.
Então não nos esquecemos, apenas aprendemos a forma certa de nos lembrar.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG

Relembrando: Sobre os dias frios

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Sobre os dias frios

Eu moro em uma cidade do interior de Minas Gerais e o clima aqui na maior parte do ano é de muito sol e muito, muito, muito calor. A geografia fez com que as montanhas nos cerquem, fazendo parecer que estamos no centro de um vale, o que torna as correntes de vento escassas e isso faz com que a temperatura sempre seja mais alta do que realmente os termômetros apontam.
Costumo brincar que temos 10 meses de sol queimando e 2 meses de frio. Sim, apenas “duas estações”…
Nos últimos anos, pelo menos, o inverno por aqui, apesar de passar num piscar de olhos, tem sido cada vez mais intenso, com muitas noites e manhãs muito frias e aquela chuvinha fininha que derruba a temperatura.
Quando eu era mais nova, amava o verão. Não passava um fim de semana sem piscina, um feriado sem praia. Verão pra mim, significava muita diversão, amigos, bons momentos… Mas de uns anos pra cá isso mudou muito e eu desenvolvi um caso de amor intenso pelo frio.
E o engraçado é que, quando paro pra pensar, percebo que a maioria das memórias que me trazem alguma nostalgia e, às vezes, até angústia, são aquelas congeladas nas manhãs e madrugadas geladas.
Quando me pego suspirando por algum lugar, um refúgio ou um cenário pra viver todas as aventuras e contos de fadas que invento entre uma obrigação e outra, sempre me vem à cabeça as cores desbotadas e nubladas que somente o clima invernal podem ter.
Talvez pela minha personalidade geralmente mais deprimida do que a média, ultimamente tenho me sentido cada vez mais compelida a contemplar esse lugar imaginário de águas frias e céu cinza, que tem se tornado muito mais atraente do que qualquer água salgada de céu azul.
Talvez também, isso seja porque todos esses lugares me transparecem a calma de um café quente e de uma cama macia. De uma janela embaçada com vista para a varanda molhada que emoldura o verde escuro triste das árvores. Tudo muito diferente do correr do relógio que dita as regras dos meus dias.
É verdade, tenho que admitir, que viver dias consecutivos sem a presença do sol e do calor, me leva para um lugar em que me grita o desejo de me recolher, de me encolher e ser apenas para mim. Mas, esse lugar me é tão comum que sinto falta – “always find my place among the ashes*”…
E para os dias em que a realidade grita cores vibrantes e o mormaço vem com seu abraço assim que piso em qualquer ambiente externo, o que resta é coletar inspirações e expirações em forma de suspiro, desejando a próxima oportunidade de estar cercada por esse mundo que guardo dentro de mim.”

Raquel Núbia
*Trecho da música Litium/Evanescence

Relembrando: Eu sou mulher

eu sou mulher

Eu sou mulher

Eu sou mulher.
Eu posso ser gentil, doce e compreensiva.
Eu posso ser assertiva, irônica e perspicaz.
Eu posso ser forte emocional e fisicamente
Ou posso ser sensível e emotiva.
Eu posso ter todos os pudores.
Ou não ter pudor nenhum.
Eu posso ser uma grande competidora no mercado de trabalho,
Liderar grandes equipes,
Gerenciar processos importantes
Ou posso fazer tudo isso cuidando da minha casa:
Liderando minha família
E gerenciado todas as rotinas do meu lar.
Eu posso ser vaidosa,
E gastar todo o meu dinheiro com coisas consideradas superficiais.
Ou posso não ligar para aparência,
E me sentir completa apenas sendo quem eu sou,
Do jeito que sou.
Eu posso gostar de estudar,
E ser extremamente inteligente.
Ou posso preferir me dedicar a outras coisas.
Eu posso ser magra.
Eu posso ser gorda.
Eu posso ser bonita do jeito que você quer.
Ou me sentir bonita do jeito que eu sou.
Eu posso sonhar em me casar de véu e grinalda,
Ou posso sonhar em viajar o mundo!
Ou… Posso querer casar de véu e grinalda
E viajar o mundo!
Eu posso planejar ter filhos,
Um filho,
Dois filhos,
Vários filhos!
Ou posso planejar não ter nenhum.
Eu posso ser sorridente, delicada.
Eu posso ser séria e agressiva.
Eu posso ser calma…
E agitada!
Eu posso gostar de homens
Ou posso gostar de mulheres.
Eu posso ser vegetariana, vegana e só tomar sucos naturais
E posso tomar cerveja e só comer fast food.
Eu posso ter um linguajar requintado
Ou posso falar palavrões.
Eu posso usar saias e vestidos,
Eu posso usar calças e shorts.
Eu posso querer não ficar com ninguém
Eu posso querer ficar com quem eu quiser.
Eu posso gerar o amor
Mas também posso sentir raiva.
Eu posso ficar estressada
E nem sempre vai ser por causa de TPM!
Eu posso ser mãe,
Filha,
Esposa,
Irmã,
Sobrinha,
Prima,
Amiga.
Eu sou mulher
E posso ser o que eu quiser.”

Raquel Núbia

Sobre as mudanças do clima

Amanheceu chovendo e eu achei que ia ficar assim o dia todo, mas o sol abriu, só continua chovendo aqui dentro.
Aqui eu continuo com aquela sensação de encolhimento, de reserva, de querer morar dentro de uma foto da janela que emoldura a vegetação molhada, com gotas de chuva no vidro.
Mas aqui fora o tempo é outro. Chove mas faz calor, a calma de uma agenda parcialmente vazia é enganada por uma mente cheia, mas essa mente cheia não é suficiente para mover o corpo à ação.
A gente recorre à lembranças de outrora quando sempre se sabia para onde correr e hoje tudo parece tão dividido, compartimentado.
Talvez as memórias sejam boas justamente porque são apenas lembranças e, pro que passou, a gente sempre inventa uma moldura bonita que justifique a nostalgia ou um filtro desbotado que justifique a aversão…

Raquel Núbia

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Imagem: Pinterest

Relembrando: Suspiro

suspiro

Suspiro

Tem coisas que marcam a gente de um jeito que impressiona…
Às vezes é um cheiro, uma cor, uma música, um dia frio ou nublado… Pode ser tudo e nada, qualquer coisa.
Algumas coisas funcionam como um portal na vida da gente e assim que chegamos perto deles, entramos num caminho que nos leva direto pra muito longe ou até mesmo pra perto, não importa. O que importa é que esse portal nos transporta pra onde mora uma lembrança.
Uma lembrança viva ou guardada mas que se recupera assim que temos contato com esse estímulo.
Vez ou outra eu me pego vagando fora de mim quando me deparo com essas saudades que a gente desconhece. Em alguns momentos, nem mesmo se pode nomear como saudade, pois existem sentimentos e sensações que a gente não sabe definir.
Repentinamente a gente se preenche de um vazio, uma falta sem identificação, advinda de uma necessidade sem justificativa, sem necessariamente ser uma queixa do presente ou uma insatisfação sentida plenamente.
Se angústia é aquele sentimento que não pode ser nomeado, talvez então seja isso.
Apenas a percepção da sensação de estarmos perdidos dentro da própria vida, num mundo tão grande e num tempo tão extenso em que não conseguimos enxergar a finitude do que já vivemos e, ao mesmo tempo, sentimos latente a certeza de que sermos findos é a única e total certeza.”

Raquel Núbia

Pensamento positivo

Em alguns momentos fica difícil manter o espírito elevado, o pensamento positivo e a energia pulsando. O cansaço físico invade a mente e as dores do corpo fazem companhia. Tantos dias seguidos e percebe-se que o que era fácil se tornou um pouco mais complicado, o que antes era comum e orgânico, hoje exige um esforço maior e às vezes nem o esforço permite a conclusão.
Tem sido necessário o costume aos novos limites do corpo, ainda que temporário, pois o impacto no cotidiano é grande, principalmente quando a lentidão dos movimentos não acompanha a pressa dos pensamentos.
O corpo, num desgaste acumulado, implica no estado e no fluxo de pensamentos. É algo biológico, as conexões ficam mais lentas… Esse impedimento imposto, demanda um reajuste que não é fácil. Quando a gente se condiciona a não esperar o outro e tomar a ação das coisas por nossas próprias mãos, qualquer forma de dependência é sofrida, acima de tudo quando precisamos pedir pelo auxílio e esperar que ele venha no tempo no outro e não no nosso.
O ato de pedir ajuda já é custoso. Será que as pessoas não conseguem ver?
A forma de contar o tempo muda e de repente esse tempo se torna uma contagem regressiva que traz um monte de outros pensamentos e desafios, mas também trazem a esperança de que no final a gente volte a ser mais como nós mesmos e, principalmente, que as dores desapareçam.
Saber que há um prazo facilita a lidar com elas, mas não as tornam menos piores. Acho que lidar com dor é assim, seja ela de que tipo for.
Cada um sabe da sua e cada um sabe o que lhe causa.
Ainda assim é preciso manter a clareza na mente e saber separar a gravidade do que se sente e o quanto a situação é permanente: Não é um momento ruim, são apenas dias difíceis e esses dias também são feitos para serem vividos.

Raquel Núbia

2019-02-12
Raquel Nubia. Foto: Leandro Oliveira

 

Sobre os cárceres do dia a dia

A verdade é que muita coisa que se passa na cabeça da gente não chega a sair dela, não verbalizamos ou contamos para alguém. Apenas pensamos, repensamos e pensamos mais uma vez… Vez ou outra esses pensamentos não compartilhados saem em forma de somatização, ansiedade, tristeza, essas coisas que vão sufocando a gente aos poucos.
Às vezes nos sentimos infantis por nos apegar envoltos em sentimentos tão velhos, como se não pudéssemos ser capazes de admitir que algo que já deveria estar enterrado e esquecido ainda nos aborrece. Na prática não faz a menor diferença em nossas vidas, mas penso que essas coisas acabam nos movimentando de uma forma ou de outra.
Por que nos importamos?
Não sei.
Mas quem somos nós afinal, para acharmos que temos tanto valor e que merecemos um lugar constante na memória de terceiros?
Cada um escolhe como compartilha o que sente e todos temos que lidar com as consequências… Vivemos esperando mudanças drásticas e grandiosas acontecerem quando, na verdade, a vida anda empurrada pelas pequenas coisas, pelos sentimentos bons, nem sempre absurdos, apenas estáveis e não fantasiosos.
A vida é tão simples e tudo o que a gente precisa é viver o dia a dia, mas algumas coisas nesse cotidiano nem sempre são justas e fáceis. Às vezes é preciso quebrar a cabeça e o cansaço transcende o corpo. Mas, no geral, a vida é mesmo simples, basta nos ocuparmos de nós mesmos, sem olhar tanto para fora, para o outro.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Tiradentes/MG

Alvorecer

A manhã, em suas primeiras horas, quando o céu ainda se colore com os primeiros raios de sol, com aquele vento fresco e com o silêncio que domina as ruas, antes de ser invadido por carros, motos, pessoas perambulando e tantos compromissos, guarda em sua quietude uma infinidade de momentos dentro de poucos instantes.
Observar toda a calma e sincronia do que nos cerca, nos minutos que temos antes de embarcar em mais uma aventura que é viver o dia a dia, pode nos permitir um breve momento de paz, onde podemos nos reconectar com o que deixamos pra trás na noite anterior ou, num relance, podemos nos reconectar com o que deixamos pra trás dentro de nós mesmos, há tanto tempo.
Há tanta beleza nesse breve momento, onde podemos ver o novo dia se iluminando em frente aos nossos olhos e, mesmo que tenhamos uma agenda cheia, muitas vezes com coisas que não gostaríamos de fazer e pessoas que gostaríamos de não encontrar, ainda assim, esse simples colorir amarelo alaranjado do céu nos promete tanto e coloca em nossas mãos a sagrada chance de recomeçar.
Nada é garantido. Nunca sabemos se teremos a nova oportunidade de presenciar esse renascimento. Então, por esse breve instante, ao olhar para as ruas vazias, o céu desbotado e sentir a brisa fresca do raiar do dia, somente por esse momento, serei feliz.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Cabo Frio/RJ