Dejavu

Hoje acordei com cara e gosto de ontem…
Sabe quando parece que o dia guarda um monte de coisa, mas na verdade essas coisas todas já aconteceram lá no passado? Uma viagem, um passeio, qualquer atividade… Não sei explicar direito, mas estou com essa sensação desde ontem a tardinha e hoje ela permaneceu.
Não sei se é o fato do sol estar entrando frio pela varanda da sala, com esse ventinho que lembra a gente que apesar do céu azul, o que domina é o tempo frio e tempo frio já sabe, né?
Dias claros me transportam, pequenos momentos me transportam… Conversas…
Realmente creio que não estou sabendo me fazer entender, mas precisava dizer, depois de meses sem escrever por aqui (e em qualquer outro lugar), hoje até essa vontade apareceu latente.
Enfim.
Acho que é comum esse tipo de sentimento. Não chega a ser uma nostalgia, é apenas como se o dia estivesse se repetindo, mas não está. É como se você acordasse em um dia do passado, com as mesmas características de outra época que você viveu, só que ao invés de fazer o que você fazia, você fará novas coisas, bem diferentes do que te trouxe a memória.
A vida passa. Muita coisa muda. As pessoas seguem seus caminhos de acordo com suas prioridades e não é preciso se comparar para saber se está bem ou satisfeito com o que se tem, pois cada um busca aquilo que acredita ser melhor para si e nem sempre esses interesses colidem entre as pessoas. Talvez por isso mudamos nossas companhias e quem queremos do nosso lado, pois buscamos aqueles que compartilham dos nossos desejos e nos ajudam a alcançá-los.
O dia pode ter acordado com sensação de passado, mas é o presente e o futuro que me guarda os maiores e melhores dias.

Raquel Núbia

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Foto. Raquel Núbia. Tiradentes/MG
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Sobre os dias frios

Eu moro em uma cidade do interior de Minas Gerais e o clima aqui na maior parte do ano é de muito sol e muito, muito, muito calor. A geografia fez com que as montanhas nos cerquem, fazendo parecer que estamos no centro de um vale, o que torna as correntes de vento escassas e isso faz com que a temperatura sempre seja mais alta do que realmente os termômetros apontam.
Costumo brincar que temos 10 meses de sol queimando e 2 meses de frio. Sim, apenas “duas estações”…
Nos últimos anos, pelo menos, o inverno por aqui, apesar de passar num piscar de olhos, tem sido cada vez mais intenso, com muitas noites e manhãs muito frias e aquela chuvinha fininha que derruba a temperatura.
Quando eu era mais nova, amava o verão. Não passava um fim de semana sem piscina, um feriado sem praia. Verão pra mim, significava muita diversão, amigos, bons momentos… Mas de uns anos pra cá isso mudou muito e eu desenvolvi um caso de amor intenso pelo frio.
E o engraçado é que, quando paro pra pensar, percebo que a maioria das memórias que me trazem alguma nostalgia e, às vezes, até angústia, são aquelas congeladas nas manhãs e madrugadas geladas.
Quando me pego suspirando por algum lugar, um refúgio ou um cenário pra viver todas as aventuras e contos de fadas que invento entre uma obrigação e outra, sempre me vem à cabeça as cores desbotadas e nubladas que somente o clima invernal podem ter.
Talvez pela minha personalidade geralmente mais deprimida do que a média, ultimamente tenho me sentido cada vez mais compelida a contemplar esse lugar imaginário de águas frias e céu cinza, que tem se tornado muito mais atraente do que qualquer água salgada de céu azul.
Talvez também, isso seja porque todos esses lugares me transparecem a calma de um café quente e de uma cama macia. De uma janela embaçada com vista para a varanda molhada que emoldura o verde escuro triste das árvores. Tudo muito diferente do correr do relógio que dita as regras dos meus dias.
É verdade, tenho que admitir, que viver dias consecutivos sem a presença do sol e do calor, me leva para um lugar em que me grita o desejo de me recolher, de me encolher e ser apenas para mim. Mas, esse lugar me é tão comum que sinto falta – “always find my place among the ashes*”…
E para os dias em que a realidade grita cores vibrantes e o mormaço vem com seu abraço assim que piso em qualquer ambiente externo, o que resta é coletar inspirações e expirações em forma de suspiro, desejando a próxima oportunidade de estar cercada por esse mundo que guardo dentro de mim.

Raquel Núbia
*Trecho da música Litium/Evanescence

Montagem
Imagens da internet retiradas do site favim.com

Relembrando: Razão

Razão
Imagem da internet

Quando de manhã o seu despertador sinaliza que é chegada a hora de colocar os pés no chão e encarar mais uma vez o dia recém-nascido, o que te faz seguir em frente? A razão que te move é a mesma razão que move os sonhos que você guarda?
A vida que você leva na prática é a vida que você leva na teoria?
Pode ser muito atrevimento essa onda de perguntas porque provavelmente as minhas respostas também não são compatíveis…
E qual a razão para que não sejam?
O que nos impede de viver de acordo com o que pensamos para nós?
Eu pergunto, porque me pergunto e, no tumulto, as respostas ficam camufladas. No tumulto às vezes não dá nem pra pensar…
Mas qual a razão de viver uma vida onde não se consegue nem pensar sobre os motivos que nos fazer seguir?
Se seguimos sem motivos, seguimos sem razão… E se nos negamos a razão, por que seguir?

Raquel Núbia

Poema dos 60 versos

Não fica assim, tão tristinha
acha que tenho lembranças suas
mas é você que tem lembranças minhas.

E não, você não é mais uma menina
e tão pouco, sou eu!
por que se esconde no presente
do que, no passado, aconteceu?

Cresce! Seja real!
Já não há normalidade
entre o que diz e o que faz,
entre suas mentiras e a verdade

Todo mundo tem seus demônios
Todo mundo guarda feridas…
O que você viveu não é nada demais!
É simples. É apenas a vida.

Você sabia que ela acontece?
e que as pessoas seguem os seus caminhos
e normalmente, deixam pra trás
quem os deixou seguir sozinhos?

Não seria essa a melhor opção?
e, se não for, que pelo menos seja genuína
e não se esconda por trás de sorrisos
e de uma aura que não combina.

Mas não se iluda, não engane a si mesmo
a sua imagem é memória solta que vai e vem, sempre a esmo.

Não se convença de que você
tem residência em outro pensamento,
você força sua presença
mas esvanece num só momento.

E o pensamento que lhe condiz
não é de quem você tanto mendiga
pois a quem, um dia, deu seu amor
tem asco e desdém, é náusea antiga.

Se estivesse perto certamente saberia…
e as gargalhadas e gozo ouviria.

Mas a presunção,
te prende num mundo que gira ao seu bel prazer,
enquanto o mundo de outros gira independente de você.

E sempre que alguém relata sua auto piedade,
a descrença é presente, pois não há sanidade.

Veja só quantos são os versos
e poderia continuar,
num poema que não tem fim,
que diz tudo o que quero falar.

Sei que minhas palavras ao vento são migalhas,
que te alimentam e recompensam a sua loucura.
Mas, sinceramente não me importo.
Se alimente delas e as tempere com sua amargura.

Pra quem tanto falava em consciência pesada,
congratulações pela postura fracassada!
Pois aos meus olhos e aos de quem você chama de amigos,
são os seus pensamentos seus piores inimigos.

Recolhe os pedaços do seu coração,
e tenta andar sem olhar pra trás,
pois a vida que vivem aqueles que odeia,
certamente não lhe trará paz.

Não existe essa história de vida perfeita!
basta saber o que fazer com as decepções
E pode jogar praga e pode agourar,
Jamais vai tocar nesses dois corações.

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – São João Del Rei/MG

Você não sabe

Ei!
Você não sabe rimar!
Você não sabe escrever,
não sabe se expressar!

Ei!
Você não sabe falar!
não sabe o que esconder,
não sabe o que mostrar!

Ei!
Você não é de verdade!
Você não sabe seguir,
não sabe o que liberdade!

Ei!
Você não sabe de nada!
Você não sabe do ontem,
e no passado é piada!

Ei!
Você não sabe…
E jamais saberá ao certo!
Não sabe que quem te entrega,
É quem você leva por perto!

Ei!
Você não sabe…

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

 

 

Gracejo

Não ria se te conto um segredo.
É um pedaço de mim se revelando.
Não brinque ao descobrir que tenho medo,
e não gargalhe do que estou te mostrando.

Quantas vezes brincando eu disse tudo?
E alguém sorriu e se desfez sem nem notar.
Que, pra cada uma brincadeira que eu fazia,
Outra verdade escapava sem vacilar.

E, se escuta, não deixe passar em vão.
Se atente em ler mais do que é falado.
Pois o que guardo, pelo sim e pelo não,
Fica aqui, selvagem mas trancafiado.

Quantas vezes sorrindo eu quis chorar?
E alguém passou e seguiu sem perceber.
Que, pra cada riso que eu, simples, sorria,
Outra verdade eu prendia sem dizer.

Não ria se te conto minha alma,
E um sentimento que me toma, aprisionando.
Não brinque ao perceber, cedo ou tarde
que os meus versos sou eu me entregando.

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Foto: Raquel Núbia

Raquel Núbia

Desencanto

Hoje, de repente, me bateu aquela saudade de escrever…
Mas não escrever abrindo uma tela em branco e escolhendo teclas e sim escrever com uma velha caneta, num caderno, numa folha, num rascunho, num espaço qualquer. Tecendo as letras uma a uma numa grafia atrapalhada, dispensando no papel tudo o que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Tempo atrás escrevi sobre a importância de conseguir escrever sem rascunhar, mas hoje me pego refletindo o que esse momento do rascunho significa.
O momento vivido no silêncio interrompido somente pelo toque da caneta no papel era aquele só meu, de mais ninguém, e só depois, às vezes bem depois mesmo, é que eu decidia se esse momento seria de mais alguém.
Complicado transformar sonhos em realidade… E hoje me sinto estranhamente lidando com a sensação de que devo satisfação pela ausência ou presença das minhas produções… Uma cobrança que vem justamente daquele conteúdo que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Talvez, ao se tornar realidade, os sonhos percam seu conteúdo de fantasia, e passem a ser só mais alguma coisa do dia. Talvez por isso me venha a saudade de escrever, escrever de verdade, com a minha verdade.

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(Raquel Núbia – Foto: Leandro Oliveira / Petrópolis – RJ)

Raquel Núbia

Aos amigos que não são

aos amigos que não são

Vamos fazer um combinado,
Algo assim como um trato,
Assinando um contrato,
Somente você e eu.

A partir de agora,
Desse minuto, dessa hora
Você se ajeita e vai embora
E leva tudo o que é seu.

E desse jeito,
Você segue com a sua vida,
E dê uma nova partida
Aos seus sonhos de onde parou.

Seja feliz!
Encontre um novo caminho,
Que do meu, cuido sozinho,
Pois, já sei pra onde vou.

Faz assim:
Chora o que tem pra chorar.
Odeie o que tem pra odiar,
Faz tudo de uma vez só.

E depois disso,
Assina a carta imaginária
Essa alforria libertária,
Que me libera desse nó.

E curioso,
Que esse nó nem é meu,
Foi um presente que me deu
Quem vive de expectativa.

E me montaram
Para seu próprio deleite
Num conto em que eu sou só enfeite
E não tenho voz ativa.

Sigo vivendo.
E minha vida é de verdade.
Consciência limpa e integridade
Vão comigo aonde eu for.

Faça o que eu fiz.
Eu não tenho melhor conselho
Do que você se olhar no espelho
Com um pouco mais de amor.

Raquel Núbia

Indizível

Velha e boa amiga angústia
Que insiste em não me deixar.
Tristeza companheira
Que gosta de me abraçar.

Esse é o caminho
Que eu não consigo aprender.
Essa vida que eu não quero,
É a única pra viver.

Vendo as pessoas e suas personas
Subindo cada degrau.
Me olhando lá de cima
Enquanto eu aqui me sinto tão mal.

Me importando com coisas e gente
Que não queria me importar.
Mas essa é minha essência,
Não posso simplesmente ignorar.

Eu já aprendi quem é bem me quer,
E quem não me quer de jeito nenhum.
Aprendi quem vale a pena
E quem não vale tostão algum.

Mas mesmo frente a tudo isso
Sinto impossível não questionar.
O que faz os outros se moverem
Mas me mantem no mesmo lugar?

Em alguns momentos
Tudo volta ao antigo normal.
Mas basta um olhar em volta
Pra realidade habitual.

O normal agora é passado
E de passado não se vive mais.
O que resta é o presente
Porque o passado ficou pra trás.

E pra trás também fica a memória,
Fica o sentimento e toda lembrança.
E pra frente é a resistência,
Caminhando lado a lado com a esperança.

Esperança, sentimento bobo,
Inútil, sem serventia.
Aliás, serve pra uma coisa,
Serve pro banho de água fria.

Aquele que aparece
Todas as vezes que os olhos brilham.
Por ouvir palavras que encobrem a verdade
Do que sentiam.

Indizível

Uma coisa é dita
Mas outra coisa se quer dizer.
A mão que afaga
É a mesma que quer bater.

O “bom dia” vem do mesmo lugar
Do sussurro contido.
O sorriso vem da mesma boca
Que fala escondido.

Olhos e ouvidos
Já não sabem como ver e ouvir.
E decifrar mentiras que vem
De onde não deveriam vir.

É infinito o poder
De paralisar.
Quando, na verdade,
O certo seria ensinar a andar.

Vejo com pesar que existem coisas
Que valem a pena a insistência.
Com tristeza, à conclusão
Chega à minha consciência.

O que uma vez foi forte
Hoje está quebrado.
Os pedaços se espalharam
por todo lado.

De tanto remendo
Ficou tudo cheio de marcas.
E agora é tarde,
Muito tarde para apaga-las.

Existem coisas que realmente
Não se recupera.
Por mais que seja o que
O coração espera.

O jeito agora é lamber as feridas
E seguir em frente.
Até porque pra ocupar o lugar,
Tá cheio de gente.

Fica a mágoa do que
Poderia ter sido.
Fica o suspense de tudo
O que foi vivido.

Fecha o ciclo, fecha os olhos
E segue o caminho.
O caminho segue, parado ou andando,
Com gente ou sozinho.

Raquel Núbia