A força das palavras

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Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ
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Sobre a liberdade de não se importar

“A gente sabe que superou quando lembra e não sente mais dor”.
Já li e ouvi isso algumas vezes… Tenho certeza de que vocês, leitores, também já devem conhecer essas palavras e hoje elas vieram soprar nos meus ouvidos.
Eu faria uma pequena modificação:
“A gente sabe que superou quando lembra e não sente mais”.
Sim, porque às vezes o que sentimos antes da superação não é dor. Pode ser muito mais e muito menos do que isso. Pode ser pena, raiva, decepção, remorso, ódio, saudade… E, ao meu ver, quando não sentimos mais nada, aí sim está a conclusão.
Isso se aplica a qualquer coisa e não somente a relacionamentos amorosos. Acho curioso como algumas pessoas tendem a reduzir tudo ao amor romântico em detrimento de tantas outras formas de relação, profundas ou não.
Minhas superações mais significantes nos últimos tempos em nada tem a ver com romance, mas sim com amizades e projeções de terceiros sobre mim.
Quantas vezes já cuspi palavras na folha de papel por não poder cuspir em quem me despertava tanta ira! E hoje, depois do tempo passado, me sinto confortável e em paz por não me deixar provocar mais esse tipo de reação.
Isso não significa que retomei laços, fiz as pazes ou esqueci o que me fizeram. De forma alguma.
Isso significa que hoje não me importo mais. Significa que as ações dessas pessoas no passado e no presente não me dizem mais nenhum respeito e não me despertam nem mais curiosidade.
Então você pode se questionar “mas porque ainda fala sobre isso?” e eu respondo: Porque sou livre. E essa liberdade vem justamente de não me sentir dominar por nenhuma dessas experiências que citei acima. Sendo livre, eu domino e escolho como reagir. Livre, verbalizo o que quiser sem ser influenciada por isso. Essa liberdade me trouxe a irrelevância dos fatos e meu tamanho frente a eles.
Sendo assim, não há porque evitar, esconder, silenciar, pois guardo meu silêncio para o que ainda tem espaço dentro de mim e que me requer reflexão e elaboração.
Sim… Ainda existem itens não superados e tudo bem!
O que aprendi com as vivências passadas já me auxilia muito nos dias de hoje.
Eu não visto mais a carapuça que fizeram pra mim e não caio mais nas armadilhas daqueles que conheceram minhas fraquezas para tentarem ser mais fortes do que eu.
Sinto muito em dizer, vocês fracassaram.
E hoje não preciso mais afundar a caneta nas linhas brancas do caderno para liberar a poluição de sentimentos que me fizeram experimentar.
Não.
Hoje são palavras pensadas, palavras calmas… Daquela calma que somente a falta do sentimento pode nos dar.

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Muriaé/MG

DIA #09 – 30 DAY CELEBRATION

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Para responder ao tema do dia de hoje deixo aqui o link para a poesia Ciclotimia e compartilho abaixo mais alguns versos. Ao findar a leitura de ambas, será possível saber qual o momento mais difícil que já experienciei na minha vida.
Mas seguimos! Fortalecidos.

Depressus

Se carrega a tristeza nos olhos,
como pode ninguém perceber?
Toda dor que te cala e queima,
em um fogo que o faz perecer…

Se a falta de vida castiga,
e corrompe qualquer sentimento,
Como pode ninguém resvalar,
No que mostras a cada momento?

Se a anedonia da vida,
lhe retira a gana de viver,
Onde encontras sua volição,
Se em nada mais sentes prazer?

Se a morte de todos os desejos,
lhe rouba a paz do dia a dia,
Onde esperas achar atitude,
sem em nada mais tem alegria?

Na letargia dos dias que nascem,
se prostra cada vez que ouve o peito bater.
E ao pulsar o sangue outrora vivaz,
morres cada vez mais,
e a cada dia mais quer morrer.

Na sonolência daqueles que o cercam,
se despede de toda e qualquer temperança.
E ao sentir que nada vai lhe curar,
morres cada vez mais
e a cada dia mais morre a esperança.

Na cavidade profunda descansa.
E se cansa da profundidade.
E vive quando se quer morrer,
esperando que morra de verdade.

Raquel Núbia

Editada no Nokia Glam Me
Foto: Raquel Núbia

 

DIA #08 – 30 DAY CELEBRATION

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Muito se fala em ansiedade, em depressão, em transtornos mentais no geral. Fala-se em como tem se tornado cada vez mais comum que as pessoas apresentem esse tipo de doença e como a sociedade romantiza e banaliza o sofrimento ao mesmo tempo que nega a existência efetiva e limitante deste.
Pois bem:
Sofrer de ansiedade é sim paralisante.
Sofrer de depressão é sim devastador.
E, justamente por isso, meu maior motivo de orgulho no momento é a superação desses dois males frente a necessidade de dar um passo no desconhecido rumo a algo que eu desejava.
O que para alguns é algo simples, para um ansioso/deprimido é um trabalho hercúleo que exige muita força interior. Não quero citar especificamente qual foi esse meu trabalho, mas quero apontá-lo como um divisor de águas na minha jornada.
Um momento em que me deparei com vários estímulos que sempre foram gatilhos para respostas desconfortáveis (para dizer no mínimo) e que, dessa vez, eu venci sem nenhum problema. Que sensação mais revigorante provar para si mesmo que “você consegue”, “você é capaz” e desfrutar, nem que seja somente naquele momento, do fruto do seu esforço, gozando de uma matirudade e de um autocontrole que você mesmo achou que não tinha.
Nesse contexto ressalto ainda a importância do apoio familiar ou de pessoas queridas. Saber que acreditam em você, no seu potencial, que crêem que você tem tudo o que precisa dentro de si é um estímulo para que nós mesmos também possamos acreditar e foi assim que aconteceu comigo.
Deixo aqui então esses dois lembretes:
– Não despreze, minimize ou menospreze o sofrimento do outro. Parta do princípio de que ele realmente sofre e então
– O que você puder fazer para apoia-lo, faça.
Não sei se quando me deparar com a situação novamente as coisas acontecerão da mesma forma que aconteceram. Mas, tudo bem. Esse futuro ainda não me pertence e, certamente, quando me deparar com ele, saberei o que fazer.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – São Paulo/SP

 

Remanescer

Vitória pra mim é conseguir fazer as unhas depois de três semanas “sem coragem”. É conseguir terminar uma manhã inteira sem pedir um milagre pra Deus, e ainda ser capaz de ligar o som e ouvir alguns acordes pra embalar as horas.
Vitória pra mim é enfeitar os dedos com anéis depois de tanto olhar direto e passar batido pelos penduricalhos. É passar as mãos pelos cabelos e sentir que a missão descomunal de lava-los por dois dias seguidos, foi cumprida e hoje os fios caem leves.
Vitória pra mim é vestir uma calça lavada, com todos os reparos feitos e uma blusa que não me aperta nos braços depois de tanto adiar colocar as coisas em ordem. É chorar de tanto rir ao lembrar do susto que veio após um sonho ruim.
Vitória pra mim é conseguir encher a folha de papel com a letra redonda e pequena, característica da calma e não com palavras deitadas que prostram sobre as linhas para alcançar o pensamento. É seguir com a respiração leve e o coração batendo no compasso.
Vitória pra mim é estar de porta aberta e sorrir ainda que haja dúvida e incerteza logo acima.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia