Sobre ser forte e se sentir sozinho

Quando a gente cuida de todo mundo, quem é que cuida da gente?
Quando é a nós que as pessoas recorrem e de nós que se espera que a solução apareça, quem soluciona as nossas questões e a quem podemos recorrer?
Quando nosso trabalho é ser a referência e nortear as pessoas nos momentos em que elas estão perdidas, quem é a referência que nos mostra o caminho e nos ajuda a nos reencontrarmos?
Tem hora que as pessoas ao redor parecem se esquecer de que, assim como elas precisam de alguém, nós também precisamos. Às vezes com menos frequência, menos urgência, mas com igual importância. A falta de suporte, de reconhecimento, esgota e pode exaustiva e nem mesmo o mais motivado dos sujeitos consegue suportar a solidão das lutas diárias.
Em alguns momentos parece que nos tornamos invisíveis enquanto pessoas e o que é visto são somente nossos resultados sem conhecimento de todo o resto. O que é visto é somente a persona e não interesse na pessoa em si.
Espera-se que sejamos, que façamos, que superemos, que consigamos dar conta de tudo, mas não vem ao caso o que sentimos, o que pensamos e como reagimos, aos olhos dos demais isso não é interessante. Freud nunca esteve tão certo… “somos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro”.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG
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O mentiroso

Me desculpe se sou a portadora de más notícias, se após ler esta crônica escrita as pressas sua visão de mundo ficará menos sonhadora e mais pessimista, mas preciso contar-lhe uma verdade: Michael Jackson mentiu para você.
Você se lembra de uma certa vez que ele te disse:
“Você não está sozinho, eu estou aqui com você. Mesmo que você esteja longe, eu vim para ficar. Você não está sozinho, eu estou aqui com você. Mesmo estando separados, você está sempre no meu coração. Você não está sozinho.”
Pois então: Liar, liar, pants on fire!

“Você não está sozinho, eu estou aqui com você”
Sim. Você e eu e todos os demais estamos sim sozinhos. Os outros que estão aqui para ficar, estão somente até o ponto e vírgula que separa o que nós precisamos e o que eles estão dispostos a dar. Tudo isso junto ao sentimento irrefutável de que se qualquer pessoa fez algo por você, ela cobrará mais tarde, mesmo que seja numa frase solta apenas para “reforçar” que não está esperando nada em troca.

“Mesmo que você esteja longe, eu vim para ficar.”
Não. Elas não estão para ficar. Acredito até que a permanência realmente seja o desejo delas e que, em algum momento, elas realmente tiveram fé de que isso aconteceria. Mas, não se engane, as pessoas sempre vão partir.

“Você não está sozinho, eu estou aqui com você.”
Volte ao segundo parágrafo.

“Mesmo estando separados, você está sempre no meu coração.”
Qual o tamanho da conveniência de quem te ama “separado” mas dentro do coração? Nosso mundo atual criou a melhor forma de amar. Aquela que se limita ao “estou longe mas estou aqui, se precisar de mim, me chame”. Sabe, eu não preciso que me levem nos corações. Seria bem melhor se esse lugar no coração fosse expresso em atitudes e que a distância da separação não fosse encarada como algo definitivo consertado por um espaço fictício dentro de um orgão que bombeia sangue.

“Você não está sozinho.”
Sim. Você está, meu caro.
Por isso ame, se importe, se doe, seja caridoso, faça o bem, lute por alguém… Mas sem jamais se esquecer de que o nosso rei do pop nos pregou uma peça e vem cantando repetidamente uma mentira grotesca em nossos ouvidos carentes e sedentos por um porto seguro.

Ao contrário do que costumamos dizer, essa é uma mentira que não tem perna curta. Mas eu te empresto a minha tesoura para que hoje, após ler minhas palavras azedas, você corte esse mal pela raiz.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Soledade

A maioria das pessoas diz que a vida é feita de ciclos. Eu mesma já escrevi algumas vezes falando isso, afirmando que quando algo termina, outra coisa começa, que quando alguém se vai, alguém ou alguma coisa, chega. E nessa linha a gente vai dando adeus e boas vindas pra tudo o que a vida nos apresenta.
O ponto comum, pra mim, é a solidão.
Solidão em todos os significados que a palavra guarda.
Não importa o que aconteça, quantas pessoas temos por perto, se é voluntário ou não, em algum momento o que resta é a solidão. Que dure dias ou horas.
Não importa quantos ciclos se encerram, nem de que forma estes ciclos terminam. A constante é estar ou se sentir só.
Nessa solidão é possível se reencontrar, encontrar pensamentos, vontades e saudades que já nem se lembrava que existiam, boas ou ruins.
No fim de tudo, estamos mesmo sós.
Somos apenas nós por nós mesmos.
Estar só é como ver a luz se apagar de repente. Nos primeiros minutos é preciso um ajuste dos olhos pra conseguir enxergar o que está a volta. Essa cegueira momentânea pode causar certo medo, mas com o tempo conseguimos discernir, mesmo sem muita clareza, o que nos cerca.
As pessoas sempre nos deixam, mesmo que seja por pouco tempo, ninguém está disposto a ser claridade na estrada do outro o tempo todo.
É necessário se habituar a isso.
Aprender a andar no escuro seguindo a intuição para que a falta da luz não abale mais.
Aprender a iluminar o próprio caminho.

 

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Foto: Raquel Núbia

Raquel Núbia

Lacuna

Há dias, como esse,
em que as horas vão vazias.
E uma hora, vale dias,
Num tempo arrastado,
Sem propósito ou por que.

A mente inquieta,
Se enche de possibilidade,
Que roubam a felicidade,
Que os dias comuns
Conseguem esconder.

Na demora do ponteiro,
Vão chegando uma a uma,
Sem fazer força alguma,
Todas as peripécias
Que a cabeça apronta.

A solidão que não ajuda,
Que na ausência traz, em suma,
E sem culpa nenhuma
O que suprime diariamente
Sem nenhuma afronta.

Sobram ideias e vontades,
Só fazem desorganizar
O que já está fora do lugar,
E que não tenta, nem de longe
Ser bonito.

O céu laranja traz a noite,
com ponteiros pra mostrar,
o relógio só faz marcar,
horas e dias arrastados
e infinitos…

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Raquel Núbiaa

Solidão de rotina

Solidão.
Grande solidão.
Alguém andando sozinho na rua debaixo de chuva, se molhando inteiro, vendo todos os outros com seus guarda-chuvas e capotes sem receber uma gota sequer.
Alguém em meio a mais 50 mil “alguéns”, que está calado enquanto todos os outros falam e gritam.
Alguém assentado no banco do ponto de ônibus, escutando deliberadamente a conversa de outras pessoas ao seu lado e pensando sobre como são capazes de se enganar, ou tentar fazer isso.
Alguém que sorri de volta e se comporta. Apenas se comporta, esperando que um outro alguém, qualquer um dos 50 mil, leia no seu rosto que por dentro tem algo doendo, mas os 50 mil “alguéns” estão ocupados demais tentando a prática das pessoas do ponto de ônibus.
Grande solidão.
De alguém que teme falar sobre isso e engole tudo, mesmo sabendo o que isso lhe provocará.
Alguém que de vez enquanto acredita na exceção da pessoa que pergunta o que foi e inocentemente responde.
Alguém que responde somente para sentir a dor do descaso ou da superficialidade das respostas, e das soluções. A dor que aumenta a dor que já existe e reforça ainda mais a sua solidão.
Só alguém que se assenta no sofá de madrugada e sente o peito doendo de um jeito que faz o coração se levantar e exclamar “pelo amor de Deus!”.
Só solidão.
Ninguém por este alguém.
Este alguém que já nem sabe mais se realmente é.
Nem sabe mais o que é.
Alguém assentado no canto, escrevendo uma coisa qualquer.
Que não tem nem mais esperança de que outro alguém lerá, ou por um milagre de qualquer lugar fará com que o que está no papel seja subitamente captado por todos os outros.
Só solidão.
Só alguém.
Só.

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Raquel Núbia
09/10/2007

Paradoxo

Ao mesmo tempo que faz frio,
me queimo com o calor…
Tenho certeza de tudo.
E fico à deriva nas dúvidas.

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No mesmo olhar encontro afago,
encontro desejo e querer…
Faço-me segura num instante
e logo após penso em desistir.

Alcanço o auge da alegria
do sentimento de bem-estar,
mas volto correndo pro escuro,
do emaranhado de sentimentos
que criei pra me esconder.

Onde tudo é sempre belo
onde o belo é sempre horrível,
digno do nada,
do coisa alguma.

Ainda estou aqui,
não sei quando vou sair.
Nesse belo tão feio,
nessa dor tão gostosa,
nesse jogo pra dois,
onde não ganha nenhum.

Raquel Núbia

Reflexão

Sobram pensamentos mas faltam palavras.
Sobram imagens mas faltam cores.
Sobram as vozes mas falta o silêncio.
E quando o silêncio fala, o peito grita.
São tantos os fatos que são deixados pra um segundo momento.
Uma imagem ou outra que se coloca em espera. Num tempo tão corrido a reflexão pode ficar pra depois, fica represada entre paredes finas.
Cada momento de solidão.
Cada descoberta.
Cada lição.
Tanto em tão pouco tempo.
A mente brinca escondida quando as luzes do quarto se apagam. Traz com ela, como amiga, as interrogações que repousam ao final de cada frase não respondida.
Quantas possibilidades.
Quantas vontades.
Num espaço tão pequeno cabe um infinito. E o coração bate num compasso costumeiro daqueles que preferem não olhar pra cima, muito menos olhar pra trás.
Não há dúvidas e não há certezas.
Não há tristeza, nem lamentações.
O que existe é aquele sussurro que sopra dizendo que não se tem nada nas mãos. A vida dança a música que quer e troca a melodia sem avisar, sem esperar que chegue ao fim.

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Raquel Núbia

Oblivio

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Imagem: pinterest.com

Eu sei que você está aí.
Ainda que eu não possa te ver,
Sei que está a espreita.

Eu sei que me vigia.
Devorada pelo que não pode ter,
Engolida por sua suspeita.

Em mim se confunde a pena.
E, sem saber, você me faz sorrir.
Jogando palavras ao vento,
O que pensa em conseguir?

Se meus versos não te satisfazem,
Então, me satisfaça você.
Se recolha ao seu tamanho
E sinta o doce sabor azedo de perder.

Não compare os meus defeitos
Com sua falta de qualidade.
Quem lê versos não lê coração.
Um brinde à minha felicidade.

Desfaça os nós, solte o laço.
Não se apegue tanto ao que já perdeu.
Por causa sua hoje dou boas vindas,
Ao que antes era nosso e hoje é só meu.

Pegue suas canetas, cadernos e livros,
Construa um forte e procure pousada.
Pois, se quem planta vento colhe tempestade,
O seu furacão já vem pela estrada.

Por que me acusa de fingir
Se você não consegue ser?
Se sou eu que tenho olhos vazios,
Por que o sofrimento escolheu você?

Vai representar poemas…
Ser poeta de alma e coração.
Se minhas palavras é que são mentiras,
Por que sua companhia é a solidão?

Se perca na sua loucura,
Na insanidade que é sua morada.
E não me atribua a culpa,
Se do seu amor não sobrou mais nada.

Raquel Núbia
14/12/2015

O escudo e a escada

O escudo e a escada

Em uma classificação de um teste psicólogo que fiz, havia a seguinte frase: “Contatos pessoais mais profundos que numerosos”.
Concordei 100% não somente porque acredito na ferramenta, mas também porque essa frase define muita coisa pra mim…
Em uma sala com tantas pessoas, com tantos sorrisos, comentários, contatos, sinto que não me ocuparia os dedos de uma mão para contar quantos representam uma relação verdadeira… Se me importo?
Não sei o quanto…
Não podemos simplesmente tratar as pessoas de forma cordial, de uma maneira que realmente represente nossos sentimentos?
Me parece que há um exagero infindável de amizade, parceria e amor entre pessoas que utilizam toda a nobreza destes sentimentos como escada e escudo…
As pessoas se deixam usar porque também precisam desse impulso e dessa proteção…
Nesse meio, quem valoriza a qualidade das relações, muitas vezes em detrimento da quantidade, se sente cercado e por consequência, estagnado e desprotegido.
Se considerarmos que em algumas culturas a normalidade está ligada aos comportamentos que ocorrem com maior frequência, o normal então é criar laços que não existem para crescer e permanecer seguro em um ambiente que não é real e ao qual não se pertence?
Ficar são em uma sociedade assim é muito difícil, e ser o louco que se nega a esse esquema de relações vazias e prefere as doçuras e dores dos relacionamentos reais gera a infeliz consequência do isolamento e exclusão.
Mas pra mim, vale mais a pena estar “sozinha” em uma bolha de contatos profundos do que SOZINHA em um mundo de contatos numerosos.

Raquel Núbia