Diminuto

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Lassidão

Eu queria voar bem alto
e ir pra onde o sol se esconde.
Voar além das nuvens
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria correr pra longe
e ir depois daquele horizonte.
Seguir até o fim da estrada
Onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria mergulhar fundo
e ser água que vem da fonte.
Submergir no silêncio do mar
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria queimar o fogo
e ver a chama arder, aos montes.
Ser a brasa que se apaga
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria transcender o mundo
Ser luz da vida, que o outro aponte.
Mas, sigo num mundo de faz de conta
onde, quem sabe, eu me encontre…

Raquel Núbia

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Foto sem filtro: Raquel Núbia – Búzios/RJ

 

Tempo

E quantas vezes mais
ainda vou me sentir calar
quando, por dentro,
um silêncio não demora a me sufocar?

Quantas vezes ainda
vou ficar querendo ir,
sentindo o corpo paralisado,
me sentindo parar de sentir?

Quanto tempo falta
pra poder ir onde e quando quiser?
Pro coração bater aliviado
e não se entristecer com coisa qualquer?

E quanto tempo mais
haverá essa intensa briga,
entre coração e pensamento,
onde a mente teimosa e dura
se sobrepõe ao sentimento?

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Foto: Raquel Núbia

Raquel Núbia

Desencanto

Hoje, de repente, me bateu aquela saudade de escrever…
Mas não escrever abrindo uma tela em branco e escolhendo teclas e sim escrever com uma velha caneta, num caderno, numa folha, num rascunho, num espaço qualquer. Tecendo as letras uma a uma numa grafia atrapalhada, dispensando no papel tudo o que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Tempo atrás escrevi sobre a importância de conseguir escrever sem rascunhar, mas hoje me pego refletindo o que esse momento do rascunho significa.
O momento vivido no silêncio interrompido somente pelo toque da caneta no papel era aquele só meu, de mais ninguém, e só depois, às vezes bem depois mesmo, é que eu decidia se esse momento seria de mais alguém.
Complicado transformar sonhos em realidade… E hoje me sinto estranhamente lidando com a sensação de que devo satisfação pela ausência ou presença das minhas produções… Uma cobrança que vem justamente daquele conteúdo que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Talvez, ao se tornar realidade, os sonhos percam seu conteúdo de fantasia, e passem a ser só mais alguma coisa do dia. Talvez por isso me venha a saudade de escrever, escrever de verdade, com a minha verdade.

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(Raquel Núbia – Foto: Leandro Oliveira / Petrópolis – RJ)

Raquel Núbia

Paráfrase

Falar para que? Por que acreditas que a palavra é a melhor resposta? A palavra é a resposta para quem não se contém no silêncio, aquele silêncio dos apaixonados em que palavras são dispensáveis.
Falar para que? Por que acreditas que palavras são necessárias para fazer sua parte?
Discordo da palavra ser resposta, exceto para quem tem medo do silêncio e se escondeu num emaranhado gritado, enlouquecido, falado…
O silêncio é resposta. E pode ser duro, ser doce…
Eu não preciso de palavras, pois não preciso me defender. Algumas palavras condenam na balbúrdia que se mostra no grito!
Cautela para reagir, para lutar por si, cautela para saber exatamente a hora certa de se mostrar e não se embicar onde não te cabe.
Os fortes e repletos de vida não exigem a imposição de uma presença. O silêncio abriga quem não precisa se mostrar.
Busque a paz até o fim e assim, não precisará de palavras que revelam muito mais do que sua identidade.

Paráfrase

Raquel Núbia

(Recebi certa vez o link para um texto que falava sobre a necessidade de falar, dizendo que quem não se expressava pela fala estava se escondendo. Por ter uma ideia totalmente contrária, utilizei a mesma forma textual para dar minha opinião, por isso, Paráfrase).

Taciturno

Quantas vezes mal compreendida por me guardar dentro do silêncio?
Mas as palavras me cansam e quase nunca me apresentam saída.
Preso no silêncio, me abraçam os pensamentos que dançam a minha volta, sem piedade.
Tamanha atividade cansa da cabeça aos pés e torno o silêncio um refúgio ainda maior.
Aqueles que não entendem a preferência pelo calar, continuam exigindo alguma reação.
Mas qual reação se pode esperar, se não já nada que se posso exprimir?

Taciturno
Às vezes por escolha, outras por falta de opção…
Por que não é tão claro o que o meu coração vê?
Há vida no silêncio.

Raquel Núbia

Inesperado

E quando o silêncio fala mais alto do que as palavras?
Às vezes é somente ele que pode traduzir o que sentimos e às vezes é o nosso maior aliado.
E quando as palavras simplesmente fogem e até nossos pensamentos nos traem?
Às vezes nos surpreendemos com nossa capacidade de ignorar alguém ou algo e simplesmente seguir em frente.
E quando percebemos que nosso espelho perfeito se quebrou em mil pedaços e nunca mais será tão belo?

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Talvez seja uma oportunidade de olhar para nós mesmos sem precisar da segurança do outro.
E quando as palavras que escutamos soam vazias?
Talvez seja porque abrimos nossos ouvidos para o que realmente importa.
E quando não sentimos nada quando deveríamos sentir tudo?
Com certeza é porque demos um passo a frente e deixamos o que passou no passado sem carregar restos e deixar rastros.

Raquel Núbia

Casa vazia

Olha essa casa assim vazia…
O corredor não leva pra nenhum lugar.
São paredes, portas e janelas.
É um abrigo que ainda não é lar.

Quando a noite cai ou chega o amanhecer,
a madrugada e a manhã vem num silêncio assustador.
E o vazio que preenche cada canto
me abraça calmamente com amor.

Se há risada, companhia, há alegria.
por alguns instantes cada canto é ocupado.
O relógio badala e grita que a hora passa.
É o brulho da felicidade é silenciado.

Em tanto espaço vivo num amontoado
e esse pouco é o que eu preciso e sempre quis.
Mas entra dia, vira noite e passa o tempo…
mais distante me parece o tal final feliz.

E nesse abrigo que ainda não é lar,
que é parede, porta e janela,
com corredor que não leva a nenhum lugar,
eu me convenço que a ausência do sorriso também pode ser bela.

Mas, olha essa casa assim vazia…

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Raquel Núbia