Relembrando: Palavras da noite

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Palavras da noite
Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Terminado mais um dia me sinto incapaz de banir os pensamentos que chegam a essa hora da noite… Novo dia nos aguarda amanhã trazendo um pouco mais do mesmo e um pouco menos do que queremos.
Cada dia livre reflete um pouco da prisão que nos contém o correr do tempo e todas as exigências que ele faz… Ao mesmo tempo que olho a volta buscando tantos caminhos, peço ao universo que não me condene pelo crime da ingratidão de não me satisfazer jamais…
Seguimos… Pedindo que os dias corram rápidos mas que, ao mesmo tempo, o tempo passe devagar. Deus, lá de cima, deve estar confuso… Talvez, não mais que eu.
O céu agora escuro em poucas horas vai clarear. Se ao menos também clareasse minhas ideias! Aliás, talvez seja essa a origem do desconforto… Ideias claras demais para um cotidiano tão nublado.

Raquel Núbia

Para um amigo

Quando alguém que conhecemos morre, não se acaba somente o corpo.
Quando alguém que conhecemos morre, leva consigo um pedaço da gente, um pedaço da nossa história, das nossas memórias, um pedaço do caminho que nos fez chegar onde estamos.
Quando alguém que conhecemos morre, parte de nós também morre junto. Conversas, momentos, brincadeiras, sonhos que compartilhamos somente com aquela pessoa, tudo se vai também.
É como se uma parte importante da nossa vida fosse recortada… Recortada mas não apagada.
A gente fica triste pela saudade que sente, mas se entristece também por pensar quanta vida ainda existia naquela pessoa que se foi… Quantas coisas ainda pra fazer, quantos planos pra colocar em prática, quanto amor…
A gente chora por saber que não vai mais se esbarrar ou esbarrar sem querer nas notícias que sempre chegam das realizações que aconteciam… Carreira, projetos malucos, aventuras, o nascimento do filho…
Que loucura imaginar que alguém que mudou tanta coisa no passado de tanta gente, não vai mais existir no nosso futuro.
Mesmo que a companhia não seja constante nos dias de hoje, a companhia vivida nos dias de ontem não será esquecida.
Não será substituída.
Na vida a gente nasce e morre várias vezes, talvez com a morte de alguém querido, seja hora de morrermos juntos para nascer novamente.

Raquel Núbia

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Na foto: Pedro Gabriel Borba Dorigo (a foto não é minha e eu não sei que a tirou para dar os créditos).

Dias de hoje

Parada na porta do meu prédio esperando minha carona quando um rapaz se aproxima. Coloco o telefone na bolsa e dou dois passos pra trás, pois o portão está aberto. Ele continua andando na minha direção e diz: ” A senhora me arruma um pouquinho de arroz e feijão? Não precisa se assustar não que eu não sou ladrão.” Triste.
Se a gente para pra pensar, sente o peito diminuir e inicia um questionamento que parece que não tem fim sobre tudo o que nos cerca. Sobre o por que das coisas estarem como estão, sobre o por que de tudo ter chegado onde chegou e, principalmente o que nós, tão pequenos indivíduos poderíamos ou ainda podemos fazer pra reverter, se é que há alguma coisa a ser feita.
A gente sente medo e nem sabe mais do que.
A gente se compadece mas nem sabe mais por quem.
A gente vive e nem sabe mais por que…

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Remanescer

Vitória pra mim é conseguir fazer as unhas depois de três semanas “sem coragem”. É conseguir terminar uma manhã inteira sem pedir um milagre pra Deus, e ainda ser capaz de ligar o som e ouvir alguns acordes pra embalar as horas.
Vitória pra mim é enfeitar os dedos com anéis depois de tanto olhar direto e passar batido pelos penduricalhos. É passar as mãos pelos cabelos e sentir que a missão descomunal de lava-los por dois dias seguidos, foi cumprida e hoje os fios caem leves.
Vitória pra mim é vestir uma calça lavada, com todos os reparos feitos e uma blusa que não me aperta nos braços depois de tanto adiar colocar as coisas em ordem. É chorar de tanto rir ao lembrar do susto que veio após um sonho ruim.
Vitória pra mim é conseguir encher a folha de papel com a letra redonda e pequena, característica da calma e não com palavras deitadas que prostram sobre as linhas para alcançar o pensamento. É seguir com a respiração leve e o coração batendo no compasso.
Vitória pra mim é estar de porta aberta e sorrir ainda que haja dúvida e incerteza logo acima.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Desencanto

Hoje, de repente, me bateu aquela saudade de escrever…
Mas não escrever abrindo uma tela em branco e escolhendo teclas e sim escrever com uma velha caneta, num caderno, numa folha, num rascunho, num espaço qualquer. Tecendo as letras uma a uma numa grafia atrapalhada, dispensando no papel tudo o que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Tempo atrás escrevi sobre a importância de conseguir escrever sem rascunhar, mas hoje me pego refletindo o que esse momento do rascunho significa.
O momento vivido no silêncio interrompido somente pelo toque da caneta no papel era aquele só meu, de mais ninguém, e só depois, às vezes bem depois mesmo, é que eu decidia se esse momento seria de mais alguém.
Complicado transformar sonhos em realidade… E hoje me sinto estranhamente lidando com a sensação de que devo satisfação pela ausência ou presença das minhas produções… Uma cobrança que vem justamente daquele conteúdo que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Talvez, ao se tornar realidade, os sonhos percam seu conteúdo de fantasia, e passem a ser só mais alguma coisa do dia. Talvez por isso me venha a saudade de escrever, escrever de verdade, com a minha verdade.

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(Raquel Núbia – Foto: Leandro Oliveira / Petrópolis – RJ)

Raquel Núbia

Estimação

Temos medos maiores do que nós mesmos;
E nem sempre sabemos o que fazer com eles.
Guardamos fantasmas embaixo do travesseiro e vez ou outra eles saem de lá e vem para o mundo dar uma volta conosco. Nos acompanham, por vezes o dia todo, por vezes só parte do dia. Os cultivamos, alimentamos, os fortalecemos.
Quando eles se vão, vamos atrás e os trazemos de volta.
Por que nem sempre conseguimos deixá-los ir?
Você consegue saber o motivo de manter os seus fantasmas por perto?
Pois há uma guerra interna na minha cabeça, me fazendo refletir sobre os motivos de trazer os meus fantasmas amarrados aos meus pés.

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Foto: Raquel Núbia – Lagoa FCV, Muriaé/MG

Raquel Núbia

Dezembro

Me desculpem os pessimistas e realistas mas, tenho que confessar que minha vida sempre foi boa. Sempre. Apesar dos pesares, tropeços, dificuldades. Algumas graves, até… Mas a vida foi boa, pois até nesses momentos de perigo eu pude melhorar, nem que fosse pra piorar depois, mas melhorava.
Veja só como essa vida é…
Ano passado, nessa época, a minha vida era outra. Sem exageros, sem utopia, sem apelação nem auto piedade. Vejamos: Dezembro de 2015 foi tempo de:
Elaborar o término do que achei que nunca acabaria. Sim, foi preciso desfazer as ambições da perfeição, sofrer pelas cobranças internas e me submeter ao julgamento alheio, e que julgamento…
Foi tempo de enfrentar a realidade de que algumas pessoas não serão um constante em nossa vida e que, certas vezes elas nos deixarão por não saberem colocar as nossas necessidades acima ou iguais às delas. Mas tudo bem, se elas nos deixam, nós também as deixamos.
Foi tempo de desempenhar papéis diversos, mais diversos do que o habitual. De ser vista de um milhão de formas: corajosa, louca, culpada, mimada, má. E foi até necessário me “deixar” assumir alguns papéis, pois algumas pessoas precisavam me colocar em certas posições para tentar seguir em frente. Precisavam de alguém para culpar e a pessoa escolhida fui eu, e por um tempo, tudo bem, até que deixou de ser.
Foi tempo de encarar também o fato de que boatos, investidas de maldade, ataques de conteúdo pessoais mais dolorosos podem sim vir de quem já dividiu sua casa, sua mesa, suas refeições, seus brindes à vida… e podem vir às escondidas em mensagens às escuras, enquanto às claras o que se propaga é a amizade, o amor próprio. Isso mostra o quanto as coisas podem ser injustas e, geralmente elas são. O que conforta é saber que os poucos que ficam ao nosso redor, o fazem por escolha por que nos amam, acima de tudo, quando não temos nada a oferecer.
Foi tempo de me desesperar e achar que quase nada daria certo, que eu não aprenderia e nem reaprenderia tudo o que ia precisar para seguir caminhando, para fazer dar certo e, dessa vez, sozinha. Mas eu consegui. Consegui o que cabia só a mim e consegui o que cabia a uma solidão nem tão solitária. E nessa hora eu aprendi que são poucas, são raras as pessoas que se dispõem a carregar o peso das nossas decisões mesmo sem ter obrigação nenhuma de fazer isso. E eu tenho a sorte de ter duas dessas raridades ao meu lado. O tempo todo.
Foi tempo de me reorganizar. De enfrentar o amanhecer duvidoso, fins de tarde de melancolia, noites longas e o tão temido retorno ao fim do dia para uma casa vazia, literal e figurativamente. E isso pesou. Doeu. Mas em meio à desesperança, a dúvidas e até mesmo a certa dose de desespero, eu aprendi manhã após manhã, tarde após tarde, noites após noites infinitas, que o mundo não acaba por não termos companhia o tempo todo. E que a companhia dosada só aumenta a importância e o querer bem. Pois refletem o carinho e cuidado de pessoas que não podem nos dar tudo, mas que nos dão tudo o que tem.
Dezembro de 2015 me apresentava um cenário tão desorganizado, que batia de frente com a pessoa metódica e detalhista que sou. Me desafiou de pé, imponente, me olhando de cima e me colocando tão pequena… mas o tempo, tão precioso, passou e passou ligeiro. Agora esse dezembro de 2016 que já corre a passos apressados chegou para testemunhar… E agora, quando me olha, já olha olho no olho e, para esse dezembro de 2016, é tempo de:
Enfrentar que o “pra sempre” é questão etérea, imensurável e pode sim acontecer. O meu “pra sempre” acontece hoje.
Enfrentar que aqueles que partiram, hoje são só lembranças empoeiradas num coração que não sente mais falta.
Enfrentar que todos podem me colocar nos papéis que quiserem, mas quem define o papel que eu ocupo na minha vida, sou eu.
Enfrentar que, se os golpes vieram dos próximos a mim, é porque consigo deixar que as pessoas se aproximem e sigo assim. Hoje um pouco mais atenta e muito mais grata aos que compreendem o tamanho da prova do meu amor por me deixar mostrar tão grande e tão pequena.
Enfrentar que todo desespero e desafios viraram aprendizados e que, tenho certeza, se esses obstáculos aparecerem: eu dou conta.
Enfrentar que, mesmo que exista amor, amizade, diversão, companhia e casa cheia, em algum momento seremos só nós, conosco. E nesse momento de mim comigo, eu tenho poder de decidir se sou sozinha ou livre.
Então, dezembro de 2015, obrigada.
E pra você, dezembro de 2016, boa sorte com o que planeja pra mim.
E pra você que leu tudo até aqui, me responda se essa minha vida é ou não é boa por demais?

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Sobre o que deixamos de falar

São muitas as frases atribuídas à Freud (médico neurologista, criador da Psicanálise), mas de todas elas, verdadeiras ou não, existe uma que ao meu ver é imbatível e inegável: “Cala-se a boca, falam as pontas dos dedos”.
Podemos sim fechar nossa boca, calar tudo o que sentimos, não responder a provocações, não revidar agressões… Podemos não responder a sentimentos, não corresponder à investidas alheias, tudo isso podemos.
Mas quando a demanda é grande, quando as coisas transbordam dentro de nós, de uma forma ou de outra, nos manifestamos. E nesse momento não são somente os dedos que falam… Falam também as unhas roídas, a mordida no canto da boca, a insônia, a falta de apetite, a dificuldade de concentração, a falta de vontade e o excesso de pensamentos. Tudo isso fala.
Quando se cala com o coração em paz, tudo se acalma.
Mas quando o silêncio vem da impossibilidade de ação, a calma é capa para páginas rabiscadas…
Observe.
Observe quem se cala a sua volta, mas observe acima de tudo você.
Saiba ler além das palavras.
Não se negue a oportunidade de ouvir o que seus dedos lhe dizem.

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Raquel Núbia

Reflexão

Sobram pensamentos mas faltam palavras.
Sobram imagens mas faltam cores.
Sobram as vozes mas falta o silêncio.
E quando o silêncio fala, o peito grita.
São tantos os fatos que são deixados pra um segundo momento.
Uma imagem ou outra que se coloca em espera. Num tempo tão corrido a reflexão pode ficar pra depois, fica represada entre paredes finas.
Cada momento de solidão.
Cada descoberta.
Cada lição.
Tanto em tão pouco tempo.
A mente brinca escondida quando as luzes do quarto se apagam. Traz com ela, como amiga, as interrogações que repousam ao final de cada frase não respondida.
Quantas possibilidades.
Quantas vontades.
Num espaço tão pequeno cabe um infinito. E o coração bate num compasso costumeiro daqueles que preferem não olhar pra cima, muito menos olhar pra trás.
Não há dúvidas e não há certezas.
Não há tristeza, nem lamentações.
O que existe é aquele sussurro que sopra dizendo que não se tem nada nas mãos. A vida dança a música que quer e troca a melodia sem avisar, sem esperar que chegue ao fim.

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Raquel Núbia