Sobre os dias frios

Eu moro em uma cidade do interior de Minas Gerais e o clima aqui na maior parte do ano é de muito sol e muito, muito, muito calor. A geografia fez com que as montanhas nos cerquem, fazendo parecer que estamos no centro de um vale, o que torna as correntes de vento escassas e isso faz com que a temperatura sempre seja mais alta do que realmente os termômetros apontam.
Costumo brincar que temos 10 meses de sol queimando e 2 meses de frio. Sim, apenas “duas estações”…
Nos últimos anos, pelo menos, o inverno por aqui, apesar de passar num piscar de olhos, tem sido cada vez mais intenso, com muitas noites e manhãs muito frias e aquela chuvinha fininha que derruba a temperatura.
Quando eu era mais nova, amava o verão. Não passava um fim de semana sem piscina, um feriado sem praia. Verão pra mim, significava muita diversão, amigos, bons momentos… Mas de uns anos pra cá isso mudou muito e eu desenvolvi um caso de amor intenso pelo frio.
E o engraçado é que, quando paro pra pensar, percebo que a maioria das memórias que me trazem alguma nostalgia e, às vezes, até angústia, são aquelas congeladas nas manhãs e madrugadas geladas.
Quando me pego suspirando por algum lugar, um refúgio ou um cenário pra viver todas as aventuras e contos de fadas que invento entre uma obrigação e outra, sempre me vem à cabeça as cores desbotadas e nubladas que somente o clima invernal podem ter.
Talvez pela minha personalidade geralmente mais deprimida do que a média, ultimamente tenho me sentido cada vez mais compelida a contemplar esse lugar imaginário de águas frias e céu cinza, que tem se tornado muito mais atraente do que qualquer água salgada de céu azul.
Talvez também, isso seja porque todos esses lugares me transparecem a calma de um café quente e de uma cama macia. De uma janela embaçada com vista para a varanda molhada que emoldura o verde escuro triste das árvores. Tudo muito diferente do correr do relógio que dita as regras dos meus dias.
É verdade, tenho que admitir, que viver dias consecutivos sem a presença do sol e do calor, me leva para um lugar em que me grita o desejo de me recolher, de me encolher e ser apenas para mim. Mas, esse lugar me é tão comum que sinto falta – “always find my place among the ashes*”…
E para os dias em que a realidade grita cores vibrantes e o mormaço vem com seu abraço assim que piso em qualquer ambiente externo, o que resta é coletar inspirações e expirações em forma de suspiro, desejando a próxima oportunidade de estar cercada por esse mundo que guardo dentro de mim.

Raquel Núbia
*Trecho da música Litium/Evanescence

Montagem
Imagens da internet retiradas do site favim.com
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Dos sentimentos que voltam

Eu não sei.
Tem momentos em que a gente parece que entra num túnel do tempo e volta lá para aqueles dias frios e estranhos que já viveu. Para as horas incertas que passavam de maneira tão inesperada.
Eu não sei.
Tem momentos em que parece que a gente sente falta da falta de sossego e caça com as próprias mãos um motivo para não descansar, para “desaquietar” o coração.
Quando as noites ficam frias e os fins de tarde são banhados pela chuva, parece tão fácil voltar a tantas outras noites gélidas em que a música embalava o caminho e tantas pessoas se misturavam, dificultando o sentir verdadeiro e colocando em cheque os sentimentos mais certeiros.
Eu não sei.
Hoje sinto que preciso recorrer a metáforas e analogias, pois a vontade de falar pra fora apareceu, mas nem sempre querer é poder e, por mais que o desejo seja despejar tantas coisas guardadas, não me permite o coração.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

 

Relembrando: Palavras da noite

Para ler o original, clique aqui.

Palavras da noite
Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Terminado mais um dia me sinto incapaz de banir os pensamentos que chegam a essa hora da noite… Novo dia nos aguarda amanhã trazendo um pouco mais do mesmo e um pouco menos do que queremos.
Cada dia livre reflete um pouco da prisão que nos contém o correr do tempo e todas as exigências que ele faz… Ao mesmo tempo que olho a volta buscando tantos caminhos, peço ao universo que não me condene pelo crime da ingratidão de não me satisfazer jamais…
Seguimos… Pedindo que os dias corram rápidos mas que, ao mesmo tempo, o tempo passe devagar. Deus, lá de cima, deve estar confuso… Talvez, não mais que eu.
O céu agora escuro em poucas horas vai clarear. Se ao menos também clareasse minhas ideias! Aliás, talvez seja essa a origem do desconforto… Ideias claras demais para um cotidiano tão nublado.

Raquel Núbia

Palavras da noite

Terminado mais um dia me sinto incapaz de banir os pensamentos que chegam a essa hora da noite… Novo dia nos aguarda amanhã trazendo um pouco mais do mesmo e um pouco menos do que queremos.
Cada dia livre reflete um pouco da prisão que nos contém o correr do tempo e todas as exigências que ele faz… Ao mesmo tempo que olho a volta buscando tantos caminhos, peço ao universo que não me condene pelo crime da ingratidão de não me satisfazer jamais…
Seguimos… Pedindo que os dias corram rápidos mas que, ao mesmo tempo, o tempo passe devagar. Deus, lá de cima, deve estar confuso… Talvez, não mais que eu.
O céu agora escuro em poucas horas vai clarear. Se ao menos também clareasse minhas ideias! Aliás, talvez seja essa a origem do desconforto… Ideias claras demais para um cotidiano tão nublado.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

 

A noite

A noite

O que guarda a noite
Que a manhã não pode dissipar?
Quantos medos esconde,
Que se perdem ao clarear?

O que guarda a noite
Que não se revela durante o dia?
Quanto choro esconde
Em forma de alegria?

O que guarda a noite
Quando não se vê esperança?
Quanta tristeza leva
Até que chegue a bonança?

O que guarda a noite
Quando a garganta prende o nó?
Qual a angústia daquele
Que, acompanhado, está só?

O que guarda a madrugada
Pelos badalos do sino embalada?
Não desata esse coração
Que já não pulsa uma mesma passada?

E o alvorecer, o que trará?
Talvez um fim para a tempestade…
Que o sol brilhe em sua grandeza,
Antes que seja tarde.

Raquel Núbia

Casa vazia

Olha essa casa assim vazia…
O corredor não leva pra nenhum lugar.
São paredes, portas e janelas.
É um abrigo que ainda não é lar.

Quando a noite cai ou chega o amanhecer,
a madrugada e a manhã vem num silêncio assustador.
E o vazio que preenche cada canto
me abraça calmamente com amor.

Se há risada, companhia, há alegria.
por alguns instantes cada canto é ocupado.
O relógio badala e grita que a hora passa.
É o brulho da felicidade é silenciado.

Em tanto espaço vivo num amontoado
e esse pouco é o que eu preciso e sempre quis.
Mas entra dia, vira noite e passa o tempo…
mais distante me parece o tal final feliz.

E nesse abrigo que ainda não é lar,
que é parede, porta e janela,
com corredor que não leva a nenhum lugar,
eu me convenço que a ausência do sorriso também pode ser bela.

Mas, olha essa casa assim vazia…

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Raquel Núbia

 

Noites de domingo

Ninguém gosta de noites de domingo…
Pergunte a quem quer que seja todos responderão o mesmo.
Sendo o início de uma nova semana, não era para pensarmos em recomeço? Em novas oportunidades de fazer o que ainda não fizemos e, quem sabe, concertar o que fizemos de errado?
Mas não é assim.
Porque junto com a noite aparecem também as angústias das obrigações do dia a dia, dos afazeres que por vezes procrastinamos por motivos vários… junto com a noite vem a sensação de estarmos reiniciando um ciclo que parece não acabar nunca, onde corremos, corremos mas não saímos do lugar… onde não chegamos a lugar algum.
Talvez, as noites de domingo apenas deixem aflorar o que repreendemos durante todos os dias e noites do restante da semana, simplesmente por estarmos ocupados demais com tudo o que nos é exigido, com tudo o que exigimos de nós mesmos.
A correria da semana, muitas vezes nos impede de pensar claramente, e até mesmo de reavaliar o que temos feito dos nossos dias e qual a importância das nossas “realizações”, acredito até que culpar a correria é um dos artifícios que usamos para não olharmos para nós mesmos afinal, quem gosta de enfrentar a realidade daqueles pensamentos que aparecem sorrateiramente nas noites de domingo?
Fazer essa leitura de quem somos não é uma obrigação, se olharmos a nossa volta, veremos que muitas pessoas vivem seus dias em paz, gozando de um ignorância que os protege desses questionamentos e por consequência, da necessidade de se repensar. Não é difícil reconhecer essas pessoas, geralmente são elas que se ocupam dos detalhes mais fúteis e triviais de nossas rotinas, são aquelas que quando cruzam nosso caminho não tem muito que acrescentar, e por vezes deslocam suas angústias, direcionando suas frustrações nos outros…
Já as pessoas que não gostam das noites de domingo, não são tão fáceis de identificar… Por serem diferentes, e por isso conscientes do que não satisfaz em suas vidas, sabem que esses medos e essas angústias não são bem aceitas na sociedade em que vivemos. Dessa maneira se escondem sob uma de suas máscaras sociais mostrando ao mundo somente o que ele quer ver e deixam para “encarar” a outra face de si mesmo, em uma outra noite de domingo.

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Raquel Núbia