Sobre ser forte e se sentir sozinho

Quando a gente cuida de todo mundo, quem é que cuida da gente?
Quando é a nós que as pessoas recorrem e de nós que se espera que a solução apareça, quem soluciona as nossas questões e a quem podemos recorrer?
Quando nosso trabalho é ser a referência e nortear as pessoas nos momentos em que elas estão perdidas, quem é a referência que nos mostra o caminho e nos ajuda a nos reencontrarmos?
Tem hora que as pessoas ao redor parecem se esquecer de que, assim como elas precisam de alguém, nós também precisamos. Às vezes com menos frequência, menos urgência, mas com igual importância. A falta de suporte, de reconhecimento, esgota e pode exaustiva e nem mesmo o mais motivado dos sujeitos consegue suportar a solidão das lutas diárias.
Em alguns momentos parece que nos tornamos invisíveis enquanto pessoas e o que é visto são somente nossos resultados sem conhecimento de todo o resto. O que é visto é somente a persona e não interesse na pessoa em si.
Espera-se que sejamos, que façamos, que superemos, que consigamos dar conta de tudo, mas não vem ao caso o que sentimos, o que pensamos e como reagimos, aos olhos dos demais isso não é interessante. Freud nunca esteve tão certo… “somos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro”.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Da janela

Tenho visto a vida
Passar pela janela.
Tenho visto a manhã clarear
E tudo o que vem com ela.

Da janela eu vejo gente,
Vejo carros e vida a passar.
Cada um com seu destino,
Na pressa de seu caminhar.

Minhas horas, que hoje eu conto,
Passam de forma diferente.
É da janela que os ponteiros somam,
Ao passar de tanta gente.

Da janela eu vejo a tarde,
Que vira noite, impiedosa.
E depois são madrugadas
Que são sempre melindrosas.

Da janela eu observo,
Pois o que me cabe é solidão.
De acompanhada estar só
E ver bater fora de mim, meu coração.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Relembrando: Lassidão

lassidão

Lassidão

Eu queria voar bem alto
e ir pra onde o sol se esconde.
Voar além das nuvens
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria correr pra longe
e ir depois daquele horizonte.
Seguir até o fim da estrada
Onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria mergulhar fundo
e ser água que vem da fonte.
Submergir no silêncio do mar
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria queimar o fogo
e ver a chama arder, aos montes.
Ser a brasa que se apaga
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria transcender o mundo
Ser luz da vida, que o outro aponte.
Mas, sigo num mundo de faz de conta
onde, quem sabe, eu me encontre…”

Raquel Núbia

Sobre os dias frios

Eu moro em uma cidade do interior de Minas Gerais e o clima aqui na maior parte do ano é de muito sol e muito, muito, muito calor. A geografia fez com que as montanhas nos cerquem, fazendo parecer que estamos no centro de um vale, o que torna as correntes de vento escassas e isso faz com que a temperatura sempre seja mais alta do que realmente os termômetros apontam.
Costumo brincar que temos 10 meses de sol queimando e 2 meses de frio. Sim, apenas “duas estações”…
Nos últimos anos, pelo menos, o inverno por aqui, apesar de passar num piscar de olhos, tem sido cada vez mais intenso, com muitas noites e manhãs muito frias e aquela chuvinha fininha que derruba a temperatura.
Quando eu era mais nova, amava o verão. Não passava um fim de semana sem piscina, um feriado sem praia. Verão pra mim, significava muita diversão, amigos, bons momentos… Mas de uns anos pra cá isso mudou muito e eu desenvolvi um caso de amor intenso pelo frio.
E o engraçado é que, quando paro pra pensar, percebo que a maioria das memórias que me trazem alguma nostalgia e, às vezes, até angústia, são aquelas congeladas nas manhãs e madrugadas geladas.
Quando me pego suspirando por algum lugar, um refúgio ou um cenário pra viver todas as aventuras e contos de fadas que invento entre uma obrigação e outra, sempre me vem à cabeça as cores desbotadas e nubladas que somente o clima invernal podem ter.
Talvez pela minha personalidade geralmente mais deprimida do que a média, ultimamente tenho me sentido cada vez mais compelida a contemplar esse lugar imaginário de águas frias e céu cinza, que tem se tornado muito mais atraente do que qualquer água salgada de céu azul.
Talvez também, isso seja porque todos esses lugares me transparecem a calma de um café quente e de uma cama macia. De uma janela embaçada com vista para a varanda molhada que emoldura o verde escuro triste das árvores. Tudo muito diferente do correr do relógio que dita as regras dos meus dias.
É verdade, tenho que admitir, que viver dias consecutivos sem a presença do sol e do calor, me leva para um lugar em que me grita o desejo de me recolher, de me encolher e ser apenas para mim. Mas, esse lugar me é tão comum que sinto falta – “always find my place among the ashes*”…
E para os dias em que a realidade grita cores vibrantes e o mormaço vem com seu abraço assim que piso em qualquer ambiente externo, o que resta é coletar inspirações e expirações em forma de suspiro, desejando a próxima oportunidade de estar cercada por esse mundo que guardo dentro de mim.

Raquel Núbia
*Trecho da música Litium/Evanescence

Montagem
Imagens da internet retiradas do site favim.com

Lassidão

Eu queria voar bem alto
e ir pra onde o sol se esconde.
Voar além das nuvens
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria correr pra longe
e ir depois daquele horizonte.
Seguir até o fim da estrada
Onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria mergulhar fundo
e ser água que vem da fonte.
Submergir no silêncio do mar
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria queimar o fogo
e ver a chama arder, aos montes.
Ser a brasa que se apaga
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria transcender o mundo
Ser luz da vida, que o outro aponte.
Mas, sigo num mundo de faz de conta
onde, quem sabe, eu me encontre…

Raquel Núbia

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Foto sem filtro: Raquel Núbia – Búzios/RJ

 

Estimação

Temos medos maiores do que nós mesmos;
E nem sempre sabemos o que fazer com eles.
Guardamos fantasmas embaixo do travesseiro e vez ou outra eles saem de lá e vem para o mundo dar uma volta conosco. Nos acompanham, por vezes o dia todo, por vezes só parte do dia. Os cultivamos, alimentamos, os fortalecemos.
Quando eles se vão, vamos atrás e os trazemos de volta.
Por que nem sempre conseguimos deixá-los ir?
Você consegue saber o motivo de manter os seus fantasmas por perto?
Pois há uma guerra interna na minha cabeça, me fazendo refletir sobre os motivos de trazer os meus fantasmas amarrados aos meus pés.

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Foto: Raquel Núbia – Lagoa FCV, Muriaé/MG

Raquel Núbia

Distraído

Quando foi que nos tornamos assim, tão especiais?
Quando foi que o mundo passou a girar ao nosso redor?
Quando foi que todas as pessoas que conhecemos começaram a agir em nosso favor ou contra nós?
Em algum intervalo de tempo, eu perdi esse momento e, de repente, quando voltei à “realidade” pude ver somente o caminhar das coisas, o reclamar, a busca incessante pela responsabilidade e culpa alheia. De 8 ou 80 o que ouço são pessoas adultas se denominando meninos e meninas, fazendo das paredes, espelhos que só refletem sua própria imagem e assim, tudo o que os cerca, tudo o que acontece está voltado para eles mesmos.
Não, eu não falo de selfies, bons ângulos, filtros, likes…
Eu falo de pessoas se eximindo de suas vidas, colocando no colo do outro as causas para suas mazelas e belezas… Se estou triste, a culpa é do outro que me magoou… Se me olharam, é porque sou demais e irresistível… Se me traíram, é porque outra pessoa roubou meu amor… Se revidei a alguma agressão é porque fui provocada ao máximo por outra pessoa.
Nunca me sinto triste por problemas meus… As pessoas nunca me olham por olhar… Se fui traída, não foi por falta de qualidade minha… Se revidei não é porque perdi o controle…
Há sempre um outro. O outro a quem se pode atribuir as razões para que não se precise olhar no espelho e enxergar além de tudo o que nos faz especiais. E nesse reflexo que vemos, acreditamos. Depois de um tempo nem se sabe mais separar o que é realidade do que é egocentrismo* e nos reforçamos com tanta vontade frente aos outros que nos perdemos.
É difícil… Mas precisamos nos lembrar que, apesar de sermos únicos em nossa essência, não somos os únicos no mundo. Nossos interesses não geram, necessariamente, interesse nos outros. O que os outros fazem, fazem porque querem e não por estarem ligados a algo do nosso cotidiano, a maioria das pessoas que nos causaram algum mal, nem sequer lembram que existimos então, faça-se um favor e repita para si mesmo num desses espelhos invisíveis: “Eu não sou assim, tão especial. O mundo não gira ao meu redor”.
Nem sempre você será digno de um espaço na memória… E se não for, não insista.
Pare de estruturar dias e momentos tão arduamente, siga distraída… É na distração que moram as pessoas e coisas realmente especiais… É na distração que amizades viram amores, que amores viram lembranças e que as lembranças um dia desaparecem.

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia
*O Egocentrismo é a característica que define as personalidades dos que consideram que tudo gira ao seu redor. Remete ao indivíduo que prioriza a si (seus desejos, pensamentos e necessidades) diante da realidade, tornando-se imersos em uma fantasia apropriada a esse padrão de aceitação e não enxergando a realidade da vida social e das necessidades de outros indivíduos em relação as suas.

Devaneio

Transforma a distância em quase nada,
Sinto a respiração atrás de mim.
Se esconde entre as minhas palavras
e se expõe quando não aceita o fim.

Sua miudeza a faz cega mas não a cala.
Que pequenez em cada razão e porque,
Quanto mais se reafirma, menor fica.
E deixa a mostra o que pensa esconder.

Em tantas voltas segue o mundo, vai girando.
Obcecada, crê que gira em torno de si.
Se revira e se consome a cada semelhança,
Tentando ser superior, anula-se.

Exclama e grita o hino ao amor próprio,
Mas no olhos desesperados e sorriso cheio de dentes,
mostra-se fraca, pequena, ínfima, perdida.
E ainda brada aos quatro ventos ser uma sobrevivente.

E sobre a vida que a mastiga e engole sem perdão,
ainda mais palavras pobres e rimas tenta criar.
Mas que outro jeito há para uma mente perturbada,
Por saber que quem deseja ter e ser, jamais será?

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Raquel Núbia

Ciclotimia

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Carrego um mundo em mim mesmo.
Um lugar onde nem sempre há equilíbrio.
Um cosmo entre alegria e dor.
Onde, no meio, há um limbo.

Sinto, não há normalidade.
Mas há vezes em que sou feliz.
Eu teria uma vida miserável
Se não escutasse da felicidade o que ela me diz.

Não sinto tristeza o tempo todo.
Se sentisse, enlouqueceria certamente.
Mas sinto esses momentos chegando,
E luta contra, quase sempre, inutilmente.

Percebo as reações diferentes.
Sinto minha percepção mudando.
Vem tudo como o mar em ressaca,
Com suas ondas de uma só vez me inundando.

Desalento que me faz cega, surda e muda.
Uma marionete controlada pelas cordas.
A pessoa que controla em parte sou eu,
Mas comigo essa pessoa nem sempre concorda.

É nessa hora que a mente fica traiçoeira,
E vez ou outra me prega uma peça.
Considera o que contém sua loucura,
A minha sanidade a ela não interessa.

Ciclo da alma em mal funcionamento,
Euforia e distimia, mente em guerra.
Meio termo é que se pede na balança
E o que resta a fazer é a espera.

Raquel Núbia