Altos e baixos

Às vezes é difícil falar sobre nossas dificuldades, sobre os momentos em que nosso ânimo rebaixa e que a gente se cansa. Quando pensamos em escrever, expor ou compartilhar, pensamos também na reação do outro, de quem vai ouvir/ler nosso relato.
O que vão pensar?
Será que vão se regozijar?
Estranho pensar assim, mas sabemos que existem pessoas que ficam no aguardo, mesmo que todos nós tenhamos altos e baixos, apenas observando.
Ou… Isso é só uma cisma da nossa própria cabeça que, cansada, começa a se perder em devaneios e abrir espaço para aqueles pensamentos que precisam ser controlados, pois são poderosos, tanto os bons quanto os ruins.
A gente pode ficar cansado, pode se sentir desgastado, vez ou outra a gente se abate e tudo bem. É até preciso que tenhamos esse momento para absorver o que nos aflige, penas no que sentimos para podermos elaborar, ressignificar e encontrar alternativas e saídas, formas de voltarmos ao nosso estado normal.
E tem hora que o que a gente precisa é só de um tempo mesmo, um tempo para nos afastarmos, darmos um passo pra trás para respirarmos, tomarmos um fôlego para conseguirmos ter um novo impulso para, aí sim, conseguirmos dar um salto maior e melhor.

IMG_20171201_155528850_HDR
Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG
Anúncios

Sobre os dias frios

Eu moro em uma cidade do interior de Minas Gerais e o clima aqui na maior parte do ano é de muito sol e muito, muito, muito calor. A geografia fez com que as montanhas nos cerquem, fazendo parecer que estamos no centro de um vale, o que torna as correntes de vento escassas e isso faz com que a temperatura sempre seja mais alta do que realmente os termômetros apontam.
Costumo brincar que temos 10 meses de sol queimando e 2 meses de frio. Sim, apenas “duas estações”…
Nos últimos anos, pelo menos, o inverno por aqui, apesar de passar num piscar de olhos, tem sido cada vez mais intenso, com muitas noites e manhãs muito frias e aquela chuvinha fininha que derruba a temperatura.
Quando eu era mais nova, amava o verão. Não passava um fim de semana sem piscina, um feriado sem praia. Verão pra mim, significava muita diversão, amigos, bons momentos… Mas de uns anos pra cá isso mudou muito e eu desenvolvi um caso de amor intenso pelo frio.
E o engraçado é que, quando paro pra pensar, percebo que a maioria das memórias que me trazem alguma nostalgia e, às vezes, até angústia, são aquelas congeladas nas manhãs e madrugadas geladas.
Quando me pego suspirando por algum lugar, um refúgio ou um cenário pra viver todas as aventuras e contos de fadas que invento entre uma obrigação e outra, sempre me vem à cabeça as cores desbotadas e nubladas que somente o clima invernal podem ter.
Talvez pela minha personalidade geralmente mais deprimida do que a média, ultimamente tenho me sentido cada vez mais compelida a contemplar esse lugar imaginário de águas frias e céu cinza, que tem se tornado muito mais atraente do que qualquer água salgada de céu azul.
Talvez também, isso seja porque todos esses lugares me transparecem a calma de um café quente e de uma cama macia. De uma janela embaçada com vista para a varanda molhada que emoldura o verde escuro triste das árvores. Tudo muito diferente do correr do relógio que dita as regras dos meus dias.
É verdade, tenho que admitir, que viver dias consecutivos sem a presença do sol e do calor, me leva para um lugar em que me grita o desejo de me recolher, de me encolher e ser apenas para mim. Mas, esse lugar me é tão comum que sinto falta – “always find my place among the ashes*”…
E para os dias em que a realidade grita cores vibrantes e o mormaço vem com seu abraço assim que piso em qualquer ambiente externo, o que resta é coletar inspirações e expirações em forma de suspiro, desejando a próxima oportunidade de estar cercada por esse mundo que guardo dentro de mim.

Raquel Núbia
*Trecho da música Litium/Evanescence

Montagem
Imagens da internet retiradas do site favim.com

Dos sentimentos que voltam

Eu não sei.
Tem momentos em que a gente parece que entra num túnel do tempo e volta lá para aqueles dias frios e estranhos que já viveu. Para as horas incertas que passavam de maneira tão inesperada.
Eu não sei.
Tem momentos em que parece que a gente sente falta da falta de sossego e caça com as próprias mãos um motivo para não descansar, para “desaquietar” o coração.
Quando as noites ficam frias e os fins de tarde são banhados pela chuva, parece tão fácil voltar a tantas outras noites gélidas em que a música embalava o caminho e tantas pessoas se misturavam, dificultando o sentir verdadeiro e colocando em cheque os sentimentos mais certeiros.
Eu não sei.
Hoje sinto que preciso recorrer a metáforas e analogias, pois a vontade de falar pra fora apareceu, mas nem sempre querer é poder e, por mais que o desejo seja despejar tantas coisas guardadas, não me permite o coração.

Raquel Núbia

IMG_20171114_204334326
Foto: Raquel Núbia

 

Proelium

Viver. Verbo intransitivo: ter vida, estar com vida.
Viver. Transitivo direto e intransitivo: aproveitar (a vida) no que ela tem de melhor”.
É muito errado querer viver?
Pois sinto que, na maioria do tempo, apenas existimos e às vezes, somente existir não é o bastante.
Talvez existam níveis de “viver” em que algumas poucas pessoas vivem o tempo todo, outro grupo viva de vez em quando e uma outra parte apenas exista sem direito a vida.
Talvez apenas existimos por tanto tempo que, quando nos é dada a oportunidade de viver, simplesmente não conseguimos descobrir como fazer para aproveitá-la ao máximo e, nessa busca por desfrutar desses raros momentos de vida, a pressa é tanta que o tempo escorre entre os ponteiros do relógio.
Quem escolhe quem vive e quem existe?
A quem devemos recorrer para trocar de grupo?
O peso dessa herança é tão descomunal para aqueles que percebem o abismo que há entre viver e existir que, frente a impossibilidade de viver plenamente, nem sempre há desejo de se manter existindo.
Talvez viver não seja um privilégio de todos, mas sim um prêmio dado a poucos. Um prêmio que não está ligado à merecimento, mérito ou recompensa, mas apenas a uma divisão aleatória da qual se encarrega o universo.

Raquel Núbia

IMG_20171218_191522503_HDR
Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Barra de São João/RJ

 

 

 

DIA #11 – 30 DAY CELEBRATION

17

A felicidade é rara… Mas às vezes se esconde na simplicidade das coisas e por isso temos certa dificuldade para encontrá-la. Tenho a agradecer, pois os momentos felizes são muitos para recordar e espero que ainda sejam muitos para viver.
Geralmente as pessoas dizem que nos lembramos mais dos momentos difíceis e que esquecemos os momentos bons, que as atribulações nos marcam mais e que, mesmo que possamos vivenciar um longo período de bonança, ele é esquecido frente a primeira dificuldade.
Com a oportunidade de criar a lista para responder ao item de hoje, proponho que você faça o mesmo. Dedique algum tempo para se lembrar dos momentos que te fizeram sorrir ou chorar de emoção. Anote-os. Guarde-os com você como um lembrete de que a vida pode ser dura, mas também pode ser doce.

– Graduação da faculdade
Depois de 5 anos, que conquista! Muito mais do que encerrar minha primeira formação acadêmica, foi o momento de encerrar uma fase inteira da minha vida. Com um final um tanto quanto atribulado, esse período me trouxe muitos aprendizados e a noite do dia 21 de dezembro de 2010 foi uma, se não a mais feliz da minha vida. E tudo vai muito além do diploma.

– Aprovação na seleção para docência
Tamanha satisfação em conquistar algo pelo esforço e mérito próprio. A aprovação para lecionar aos alunos do curso de Psicologia do mesmo Centro Universitário onde me graduei veio em uma hora em que eu precisava me provar, precisava provar a mim mesmo que meu valor era independente do vínculo com outra pessoa. E assim foi. Uma experiência maravilhosa. Um dos telefonemas mais esperados…

– Show do Angra
Outubro de 2008. Felicidade sem tamanho ao assistir de perto minha banda favorita tocar. A relação de fã é realmente algo difícil de traduzir, mas quem admira alguém pela sua arte sabe bem como é.

– Meu primeiro apartamento
Após finalizar a visita ao apartamento junto da minha mãe e do meu namorado e verificar que aquele espaço me serviria, seria meu e abrigaria a mim e à minha independência que gritava pela primeira vez em anos, a sensação não poderia ser outra a não ser felicidade genuína. Novamente a representação material de algo muito mais profundo, que ninguém poderia tirar de mim.

– O amor fraterno
Minha relação com meu irmão mais velho me proporciona infinitas oportunidades de me sentir feliz e muito além, de me sentir protegida, acolhida e amparada. Dos mais simples gestos até os maiores. Da timidez de uma mensagem a uma preocupação expressa em uma ligação. Muitas memórias e a certeza de um amor fiel.

– Meu primeiro carro
Algo parecido com a sensação do primeiro apartamento… Leia-se o mesmo motivo.

– Meu primeiro emprego
Aqui foi algo parecido com minha aprovação na seleção para docência… Leia-se também o mesmo motivo.

– Presente no aniversário de 08 anos
Essa felicidade foi do tipo mais inocente que se pode sentir. Eu queria muito todos os móveis da casinha da Barbie, que era minha boneca favorita na infância, e quando fiz 08 anos ganhei todos eles da minha mãe! Tenho tudo guardado até hoje ❤

– Picolé depois da aula
Outro tipo de felicidade genuína era sair da escola quando estava na segunda série e encontrar minha mãe. A escola ficava muito próxima ao ponto de ônibus e nesse ponto tinha uma senhor com um carrinho de picolé. Todo dia, religiosamente era uma picolé pra minha mãe e um picolé pra mim, de limão geralmente e isso bastava para me fazer feliz.

– Gravidez de uma amiga
Cresci numa família com muitos primos e primas, mas depois de adulta não tenho mais um contato tão próximo com eles. Isso fez com que eu não acompanhasse de perto a construção das famílias, filhos e etc. Quando em 2015 uma colega de trabalho e amiga me contou que estava grávida fiquei muito empolgada! Por ela, pelo esposo dela e por poder estar perto de alguém querido em um momento especial como esse.

Poderia descrever muitos outros momentos… Mas esse post já ficou muito grande.
vale ressaltar também que a ordem em que esses fatos aparecem não são necessariamente a ordem de importância que eles tem pra mim, pois isso seria impossível.

Abraço,
Raquel Núbia

IMG_20170108_144954
Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Petrópolis/RJ

 

Pra hoje

Então me desculpe se eu não sei ser assim, como você.
Aprendi faz um tempo que a felicidade se esconde entre uma tristeza e outra e que os sorrisos verdadeiros costumam aparecer entre lágrimas teimosas. No final das contas só a gente sabe o tamanho dos pesos e das conquistas e às vezes fica complicado enxergar a nós mesmos com os olhos dos outros e tentar entender o que esse outro vê quando, na realidade, nem a gente sabe direito o que é e o que sente.

Então, não preciso pedir desculpas por não ser assim, como você. Não preciso me desculpar por ser como sou, nem preciso que você me desculpe.
Não preciso sequer que me aceite.
São tantos os momentos num só dia em que nem eu mesmo sei me acolher…
Se te faz feliz, faça de mim o que precisar para seguir em frente e, caso não precise, apenas me deixe continuar meu caminho.

img_3312
Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Indizível

Velha e boa amiga angústia
Que insiste em não me deixar.
Tristeza companheira
Que gosta de me abraçar.

Esse é o caminho
Que eu não consigo aprender.
Essa vida que eu não quero,
É a única pra viver.

Vendo as pessoas e suas personas
Subindo cada degrau.
Me olhando lá de cima
Enquanto eu aqui me sinto tão mal.

Me importando com coisas e gente
Que não queria me importar.
Mas essa é minha essência,
Não posso simplesmente ignorar.

Eu já aprendi quem é bem me quer,
E quem não me quer de jeito nenhum.
Aprendi quem vale a pena
E quem não vale tostão algum.

Mas mesmo frente a tudo isso
Sinto impossível não questionar.
O que faz os outros se moverem
Mas me mantem no mesmo lugar?

Em alguns momentos
Tudo volta ao antigo normal.
Mas basta um olhar em volta
Pra realidade habitual.

O normal agora é passado
E de passado não se vive mais.
O que resta é o presente
Porque o passado ficou pra trás.

E pra trás também fica a memória,
Fica o sentimento e toda lembrança.
E pra frente é a resistência,
Caminhando lado a lado com a esperança.

Esperança, sentimento bobo,
Inútil, sem serventia.
Aliás, serve pra uma coisa,
Serve pro banho de água fria.

Aquele que aparece
Todas as vezes que os olhos brilham.
Por ouvir palavras que encobrem a verdade
Do que sentiam.

Indizível

Uma coisa é dita
Mas outra coisa se quer dizer.
A mão que afaga
É a mesma que quer bater.

O “bom dia” vem do mesmo lugar
Do sussurro contido.
O sorriso vem da mesma boca
Que fala escondido.

Olhos e ouvidos
Já não sabem como ver e ouvir.
E decifrar mentiras que vem
De onde não deveriam vir.

É infinito o poder
De paralisar.
Quando, na verdade,
O certo seria ensinar a andar.

Vejo com pesar que existem coisas
Que valem a pena a insistência.
Com tristeza, à conclusão
Chega à minha consciência.

O que uma vez foi forte
Hoje está quebrado.
Os pedaços se espalharam
por todo lado.

De tanto remendo
Ficou tudo cheio de marcas.
E agora é tarde,
Muito tarde para apaga-las.

Existem coisas que realmente
Não se recupera.
Por mais que seja o que
O coração espera.

O jeito agora é lamber as feridas
E seguir em frente.
Até porque pra ocupar o lugar,
Tá cheio de gente.

Fica a mágoa do que
Poderia ter sido.
Fica o suspense de tudo
O que foi vivido.

Fecha o ciclo, fecha os olhos
E segue o caminho.
O caminho segue, parado ou andando,
Com gente ou sozinho.

Raquel Núbia

Casa de ferreiro

Falar é fácil. Damos conselhos aos outros o tempo todo, até para aqueles que não nos pedem. Sempre temos uma opinião pronta, uma dica, uma palavra de incentivo. Nos momentos difíceis sabemos exatamente como agir até que tom de voz usar. Há sempre uma solução. O problema é quando a questão é com a gente… Aí tudo muda de figura e tudo o que nos dizem não faz sentido, mesmo que seja o que nós costumamos dizer aos outros. As orientações que sempre pareceram tão eficazes não tem efeito nenhum e parece que nada funciona. Ingrata mania que temos de consolar os outros com palavras vazias que só percebemos que são assim quando nós mesmos ouvimos.E se ouvir não funciona, o que mais nos resta a fazer?

casa de ferreiro

Raquel Núbia