Suspiro

Para ler ouvindo a música “Holding back the fire – Bittencourt Project” – video no final do post

Tem coisas que marcam a gente de um jeito que impressiona…
ÀS vezes é um cheiro, uma cor, uma música, um dia frio ou nublado… Pode ser tudo e nada, qualquer coisa.
Algumas coisas funcionam como um portal na vida da gente e assim que chegamos perto deles, entramos num caminho que nos leva direto pra muito longe ou até mesmo pra perto, não importa. O que importa é que esse portal nos transporta pra onde mora uma lembrança.
Uma lembrança viva ou guardada mas que se recupera assim que temos contato com esse estímulo.
Vez ou outra eu me pego vagando fora de mim quando me deparo com essas saudades que a gente desconhece. Em alguns momentos, nem mesmo se pode nomear como saudade, pois existem sentimentos e sensações que a gente não sabe definir.
Repentinamente a gente se preenche de um vazio, uma falta sem identificação, advinda de uma necessidade sem justificativa, sem necessariamente ser uma queixa do presente ou uma insatisfação sentida plenamente.
Se angústia é aquele sentimento que não pode ser nomeado, talvez então seja isso.
Apenas a percepção da sensação de estarmos perdidos dentro da própria vida, num mundo tão grande e num tempo tão extenso em que não conseguimos enxergar a finitude do que já vivemos e, ao mesmo tempo, sentimos latente a certeza de que sermos findos é a única e total certeza.

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Muriaé/MG
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Relembrando: Calmaria

Compartilho hoje uma poesia publicada há mais de um ano e que você pode ler na íntegra e curtir aqui.

Calmaria
Imagem da internet

Abraço,

Raquel Núbia

 

DIA #06 – 30 DAY CELEBRATION

6

Minha memória mais antiga é uma mistura de vários momentos de um dos melhores períodos que vivi: minha primeira infância. Naquela época meu irmão também era criança (ainda que 6 anos mais velho) e nossos primos todos tinham nossas idades, uma turma toda da idade dele e uma turma toda da minha idade.
Nas férias de Janeiro sempre viajávamos para casa de uma tia que morava em Aracruz no Espírito Santo, região litorânea, íamos com outros primos e tios e era sempre uma época boa demais… A casa era modesta mas acomodava todo mundo de maneira confortável e aquele tumulto de gente o tempo todo soava um clima de festa constante.
De manhã cedo, partíamos para a Praia de Coqueiral que, pelo que eu me lembro, não era muito longe. No caminho passávamos em frente a uma grande plantação de eucalipto que era da fábrica de papel onde meu tio trabalhava e aquele cheiro de mato se espalhava pela estrada.
O dia se desenrolava lento, com os homens jogando peteca, as mulheres tomando sol e as crianças brincando de fazer castelinhos e bolinhos na areia. Para entrar na água só na companhia do pai ou da mãe e o ciclo era infinito. Brinca na areia, se suja toda, entra na água, limpa e começa tudo outra vez.
Na hora que a fome batia o lanche era certo: guaraná e pão com mortadela 🙂 Tudo já preparado e trazido de casa, armazenado no porta malas de algum carro.
Certa vez meu irmão saiu da água chorando e dizendo que havia sido queimado por uma água viva… Na hora eu não acreditei porque ele passou o dia me fazendo medo toda vez que eu entrava na água dizendo que eu ia encostar nesse bichinho e que ele ia me machucar. Coisas de irmão mais velho… Mas não é que o bicho queimou foi ele?
Chegávamos em casa vermelhos e queimados, pois a energia para brincar na água e no sol não acabava nunca e a festa continuava geralmente com um churrasco em casa mesmo. Eu usava um maiô laranja com babados atrás… minha mãe o guarda até hoje!
E o que eu guardo são essas lembranças tão inocentes e tão boas… Se os problemas já existiam naquela época, eu não sei, mas a visão que tenho era de felicidade apenas e é essa visão que quero continuar levando comigo.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ

 

Déjà Vu

Tem dia que parece que nasce com cara de passado.
Com cheiro de ontem
e com passarinho cantarolando música repetida…

Tem dia que nasce com cara de lembrança.
Com cores de outra hora
e com parágrafos e pontos de história vivida.

Tem dia que nasce com vento soprando o céu frio.
Com jeito de câmera lenta
e com sons que despertam de dentro da cabeça.

Tem dia que parece reviver de outro tempo.
Com reprises da vida
e com memórias despertas até que adormeça.

Tem dia que nasce turrão e antigo.
Com o rosto conhecido
e com o elo forte que mostra passado e presente unidos.

Tem dia que começa com jeito de monotonia.
Com a mão estendida
e com os braços abertos para melancolia.

Tem dia.

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Foto: Raquel Núbia – São Paulo/SP

Relembrando: Nota

Quando tudo o que me restava foram as palavras para lidar com o que não sabia, o que me salvava da minha mente cheia, era a folha vazia… Engraçado como reler esse conteúdo hoje me faz pensar que, quando outras pessoas leem, interpretam de tantas formas diferentes o que era um sentimento tão simples. Hoje, relembrando, fico feliz por ter seguido em frente.

Nota

Ela é doce.
É delicada.
De pele alva, imaculada.

É inocente.
É tão quieta.
Não faz alarde, é discreta.

Ela é santa.
É raridade.
Uma criança, pouca idade.

É tela branca.
É distraída.
Boa com todas, sempre querida.

Ela ê prêmio.
E desconcerta.
Sempre mansa, sempre incerta.

É acuada.
É dominável.
Uma doçura, sempre amável.

Quanta estima,
E qualidades…
É singular o que Deus lhe deu.

É uma boneca,
Incomparável.
Ela é perfeita…

E não sou eu.”

Raquel Núbia

Nota
Imagem retirada da internet

Reminiscência

Então,
acho que a vida é mesmo assim.
Numa hora você sorri,
e na outra é tristeza sem fim.

Talvez,
seja disso que a vida se trata.
Se esquecer o que virou passado,
pra lembrar bem na hora errada.

Pois é,
a memória é mesmo danada.
Brinca de polícia-ladrão,
quando mostra lembrança guardada.

Assim,
o que resta é deixar esquecer.
Esperar que o que foi lembrado,
volte a desaparecer.

Então,
acho que a vida é mesmo assim.
Numa hora você fica triste
e na outra: alegria sem fim.

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Foto: Raquel Núbia – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Vento da tarde

Esse vento da tarde
Que lembranças me traz…
Frescor do anoitecer
De um dia que se desfaz.

Esse vento da tarde
Que aperta meu peito…
Memória que dorme
De um tempo perfeito.

Esse vento da tarde
Que só mente pra mim…
Me diz que é passado
O que nunca tem fim.

Esse vento da tarde
Que traz o fim do dia…
Me guarda a angústia
Mais do que deveria.

Esse vento da tarde
De um dia que se desfaz…
Frescor do anoitecer
Que lembranças me traz.

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Imagem: favim.com

 

Raquel Núbia

Sou eu

SOU EU2

Sou eu quem domina seu riso,
o seu pensamento.
Sou eu quem invade o seu sonho,
o seu sofrimento.
Sou eu quem na sua memória
fá faz morada.
Sou eu quem te grita a realidade,
mesmo calada.

Sou eu quem você busca
por sentir sua exclusão.
Sou eu o caminho que trilha
por não ter atenção.
Sou eu a quem recorre
para se afirmar.
Sou eu quem você encontra
quando quer se espelhar.

Sou eu quem você culpa
por todo o seu fracasso.
Sou eu quem te deixa pra trás
quando aperta o passo.
Sou eu que te levanto
e que te faço cair.
Sou eu que te dou a migalha
que te faz sorrir.

Sou eu que a cada minuto
seco suas gotas de esperança.
Sou eu que te faz gritar
toda sua “confiança”.
Sou eu quem te faz pensar
que ainda é alguém.
Sou eu quem te responde
quando não te responde, você sabe bem.

Sou eu quem a vida te deu
embrulhada pra presente.
Sou eu a bebida indigesta
que deixa o seu peito quente.
Sou eu indigesta surpresa
que você precisa engolir.
Sou eu que os seus medos de criança
não permitem deixar ir.

E ao chegar a madrugada da noite escura,
você irá se perder e te fará exausta a procura.
Seu sono irá fugir e a insegurança te emaranhar,
Minha voz vívida em sua cabeça irá sussurrar:

“sou eu”

Raquel Núbia