Sobre os dias que vivemos

Antes eu reclamava dos dias de chuva,
Pois eles não me permitiam sair.
A chuva que molhava a rua
Me tornava prisioneira quando insistia em cair.

Ainda assim eu via beleza nos dias cinzas e chuvosos que eu vivia,
Pois a nostalgia que me abrigava trazia inspiração na melancolia.

Inesperadamente a chuva resolveu aparecer e deixar seu cheiro.
Um mundo de gotas inundou o chão e o caminho inteiro.

Curiosamente não houve prisão.
Somente uma liberdade controlada.
Que me permite a vida lá fora, mas com hora marcada.

Ainda que houvesse céu azul e uma manhã ensolarada,
Ou mesmo que permaneçam as águas com o perfume de terra molhada.

A cor dos dias já não é capaz de pintar meu sentimento.
Pois o esforço é manter a força e energia a cada momento.

A chuva chora tantas vidas num sentimento absoluto.
Se fosse céu de brigadeiro ainda assim haveria luto.

Nem sol, nem chuva por si serão suficientes,
Pra curar um mundo, que muito além de um vírus, está doente.

Raquel Núbia

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Foto: @raque__nubia – Muriaé/MG

Sobre o pôr do sol de cada dia

O fim de tarde sempre foi um momento desafiador pra mim, o findar do dia, a cor alaranjada que costuma riscar o céu, o cheiro de rua movimentada no fim da tarde, o transformar gradual da luz, quando cai a noite e nos avisa que mais um dia passou, acabou. Um dia que jamais teremos de volta, seja para o bem ou para o mal.
Quando o vento do outono ainda faz sua participação especial, soprando fresco, por vezes frio, emoldurando essa passagem vespertina, o sentir se torna ainda mais pesado. Talvez eu seja mesmo apegada às estações e me sinta incapaz de desvencilhar minhas memórias dos tons e cheiros que elas me trazem.
O início da noite, atualmente, tem sido apenas um lembrete de que o dia que está por vir se repetirá em sua totalidade, seja cercada pelas paredes de casa ou pela imensidão do trabalho, a certeza é de que pouco ou nada sairá dos eixos e essa repetição torna esse encerramento das horas ainda mais angustiante.
Parece que me sinto implodir em silêncio, pois o que me rodeia não me permite nem mesmo gritar, seja literal ou figurativamente. Me sento de costas para a varanda, fingindo não perceber que o céu já está trocando de cor e mentalizando que são apenas pensamentos que daqui a pouco se vão distraídos pelos afazeres que em minutos preencherão o que o relógio chama de noite.
Nesse recorte solitário, nostálgico e com gotas de tristeza, me deixo desvanecer, pois a força necessária para estar sempre bem, também parece ir embora quando o dia acaba.

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Relembrando: Déjà Vu

Dos meu sentimentos, o mais conhecido…

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Déjà Vu

Tem dia que parece que nasce com cara de passado.
Com cheiro de ontem
e com passarinho cantarolando música repetida…

Tem dia que nasce com cara de lembrança.
Com cores de outra hora
e com parágrafos e pontos de história vivida.

Tem dia que nasce com vento soprando o céu frio.
Com jeito de câmera lenta
e com sons que despertam de dentro da cabeça.

Tem dia que parece reviver de outro tempo.
Com reprises da vida
e com memórias despertas até que adormeça.

Tem dia que nasce turrão e antigo.
Com o rosto conhecido
e com o elo forte que mostra passado e presente unidos.

Tem dia que começa com jeito de monotonia.
Com a mão estendida
e com os braços abertos para melancolia.

Tem dia.”

Raquel Núbia

Avelhantado

De tempo em tempo eu me reconheço como uma alma velha presa num corpo ainda a envelhecer. Às vezes experimento um cansaço das coisas, fatos e pessoas que somente almas velhas poderiam sentir… Ao mesmo tempo cultivo sentimentos velhos, empoeirados, que ficam guardados lá no fundo de uma gaveta tão velha quanto que de vez em quando o inconsciente deixa abrir, trazendo à consciência aquele cheiro de naftalina que conserva o que senti há tanto tempo e que insisto em manter guardado, mesmo sabendo que mantendo-os chegará o momento em que eles serão lembrados, ainda que não por vontade própria.
Tais sentimentos velhos são acordados por cheiros, pelo clima, por palavras, pelos meses que se repetem ano a ano e devolvem as lembranças do passado.
Tem dia que a gente acorda com gosto de ontem, do mês passado, dos anos anteriores, do que vivemos e nos marcou, do que ficou inacabado, do que não foi dito, do que foi pensado e repensado, do que nos disseram e do que nos fizeram silenciar.
Sentimentos velhos não me acrescentam em nada… Acredito que não acrescentam nada a ninguém, mas nem sempre disponho da energia de uma alma jovem para lembrar de esquecer.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Sobre ser folha ao vento

Tem dia que a gente acorda num lugar querendo estar em outro. Sente falta do sol, do tempo, do vento frio e das outras ruas por onde já caminhamos. Das esquinas diferentes, dos bom dias dos estranhos que nunca mais vimos… É uma saudade de algo que nem se tem certeza de que se viveu. Eu gosto de ter raízes, mas também preciso me sentir como a folha solta que o vento leva… 

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Petrópolis/ RJ

Déjà Vu

Tem dia que parece que nasce com cara de passado.
Com cheiro de ontem
e com passarinho cantarolando música repetida…

Tem dia que nasce com cara de lembrança.
Com cores de outra hora
e com parágrafos e pontos de história vivida.

Tem dia que nasce com vento soprando o céu frio.
Com jeito de câmera lenta
e com sons que despertam de dentro da cabeça.

Tem dia que parece reviver de outro tempo.
Com reprises da vida
e com memórias despertas até que adormeça.

Tem dia que nasce turrão e antigo.
Com o rosto conhecido
e com o elo forte que mostra passado e presente unidos.

Tem dia que começa com jeito de monotonia.
Com a mão estendida
e com os braços abertos para melancolia.

Tem dia.

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Foto: Raquel Núbia – São Paulo/SP

Atimia

Tem hora que parece que volto no tempo e me voltam interesses de tanto tempo atrás. Eu começo a querer fazer coisas e ter sentimentos velhos, fico saudosa do que já vivi, as alegrias que tive e das coisas que já senti.
Bate uma nostalgia… uma falta de algumas pessoas, das histórias ligadas a elas, das situações, até dos cheiros, sensações, das roupas, dos planos e dos sonhos.
Quando menos espero, percebo que tudo isso está num passado tão distante, que essas pessoas das quais sinto saudade, aliás, mais nostalgia, estão em outro momento, assim como eu também estou, mas sem nem sequer devem se lembrar desse passado.
Eu tenho sempre saudade do céu azul limpinho e das manhãs frias que o acompanhavam… do sol quentinho das 9h30, do perfume e do cheiro das pessoas. De como costumava achar tudo tão importante e da vontade que tínhamos de resolver tudo de pressa.
Nossos maiores problemas estavam sempre no futuro e agora que o futuro chegou, o presente traz problemas tão maiores… nos quais eu não vejo importância, nem urgência, muito menos vontade.
O futuro chegou e eu acho que meu eu do passado não está nada orgulhoso do eu de hoje e assim eu não vivo nem lá, nem cá.
Por que as manhãs não podem ser sempre frias e de céu azul?

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Tiradentes/MG

Relembrando: Nó

Para que o domingo não passe em branco, compartilho mais um post feito a exatos 365 dias e originalmente publicado aqui, pois a crônica em que estou trabalhando ainda está no papel e sem final… Esse cotidiano sendo, como sempre, barreira para nossos desejos, não é?

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Imagem: favim.com

Mais um trecho que gosto muito:

“Não importa o quanto façamos, algumas pessoas simplesmente não nos veem como pessoas boas e inventam para si uma imagem baseada em sua própria criatividade e não fatos por mais claros que eles sejam.”

Me deixem saber se vocês gostam dessa tag “relembrando”, se querem que ela continue ou não, OK?

Bom domingo.

Abraços,

Raquel Núbia

 

Choveu

Choveu.
Me encolhi.
E recolhi o que mostrava.
Silenciei palavras,
Guardei sorrisos,
Enquanto a água jorrava.

Choveu.
Me escondi.
E reneguei o que guardava.
Deixei lembranças
Na estrada torta
Por onde eu caminhava.

Choveu.
Me entristeci.
E calei o que se passava.
Nem a água,
Nem a chuva.
Sabiam o que eu pensava.

Choveu.
Permaneci.
E por dentro, atormentava.
Passado, presente, futuro
Na luta interna
Que batalhava.

Me encolhi, me escondendo.
Me entristeci, permanecendo.
Guardando pensamento outro que não só meu.

Da melancolia já conhecida.
Que vem de onde não há saída.
Que ninguém percebe senão eu:

Choveu.

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Raquel Núbia