Reserva

Quem sou eu senão apenas mais um?
O que sou eu senão um lugar comum?
Como me enxerga aquele que não me vê?
Como me ouve somente quando escuta para esquecer?

Quem sou eu senão quem conserta o futuro?
O que sou eu senão um lugar seguro?
Como me chama quando sou o único nome a dizer?
Como me esquece quando o outro que responder?

Quem sou eu senão o consolo quando há tristeza?
O que sou eu senão os olhos que não veem beleza?
Como me lembra quando a minha voz se cala?
Como me deixa quando a verdade fala?

Quem sou eu quando isso é tudo o que posso ser?
O que sou eu quando sei de tudo o que não vou ter?
Como me afasto do que me mantém vivendo?
Como me impedir se o que me traz vida não sabe que, em vida, estou morrendo?

Raquel Núbia

img_5156
Foto: @eubrunolopez

Sobre ser limite

Quantas vezes você já pensou em não ser você mesmo? Já pensou em tudo o que sente vontade e desejo de fazer e que por um motivo ou outro não consegue, não é capaz? Coisas simples, do dia a dia, comuns a tantas pessoas, em tantos lugares, mas que parece sempre tão custoso, tão difícil?
Venho aprendendo e reaprendendo contínuas vezes que a gente só deve depositar nossas expectativas, sentimentos e emoções na gente mesmo. É triste mas necessário lembrar que grande parte das pessoas nos enxergam somente como uma parte de seus jogos e seus interesses, que nos solicitam quando essa conveniência acaba, tudo o que se passou é jogado num limbo até que sejamos necessários novamente.
Às vezes temos sido depósito para que as pessoas despejem sobre nós suas frustrações, preocupações e tristezas se reenergizando para prosseguir com suas vidas junto às pessoas de seu cotidiano, após transferirem suas bagagens.
Mas como culpá-los se as pessoas só depositam em nós aquilo que permitimos?

Raquel Núbia

Imagem3
Foto: @eubrunolopez

Das mesmices do dia a dia

Sentindo aquela desconfiança que a gente sente quando as coisas estão dando certo, quando a gente pode dizer que está satisfeito, talvez até mesmo chamas de felicidade. Se a felicidade não precisa ser uma ausência de problemas, uma ausência de tristezas, então talvez, apenas talvez, seja isso, talvez seja felicidade. Se deixarmos de lado o que nos atribula, a falta de vontade para coisas do cotidiano, os esforços difíceis demais mas que são necessários apenas para sobreviver, então o que vivemos entre uma coisa e outra, seja realmente felicidade. Felicidade que mascara a procrastinação, a energia insuficiente para reagir ao decorrer do dia, ao senso de responsabilidade até mesmo pelo que não podemos controlar, enquanto vamos vivendo, atravessando os dias como se o anoitecer fosse capaz de expurgar os acontecimentos e presságios sendo que o novo dia trará apenas mais do mesmo.

Raquel Núbia

Imagem2
Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

 

Sobre as emoções que nos alimentam

Por alguns momentos conseguimos nos sentir relativamente bem, aliás, bem mesmo, dispostos, animados, “felizes “, esperançosos… mas, quantos de nós, hoje ainda, vemos que alguns gatilhos são poderosos e despertam rapidamente o sentimento de desvalia, de insuficiência?
Por mais que saibamos que é normal nem sempre nós conseguiremos fazer tudo ou manteremos a energia sempre elevada, certamente, em alguns momentos ainda nos sentiremos esmorecer, e quando nos deparamos com o que ainda nos limita e com o que nos sinaliza uma possibilidade de não sermos queridos, de não sermos amados e de não sermos especial. Essas coisas nos gastam, nos desanimam e nos mostram como podemos ser vulneráveis ao que nos prendem.
Ainda que os dias sejam de inverno, os finais de tarde me trazem já a melancolia do verão, que tão conhecidamente me transportam pra lugares e lembranças que me abatem… Talvez o certo a se fazer seja apenas nos permitir sentir o que há pra sentir enquanto reorganizamos os sentimentos e, principalmente, os pensamentos.
Digerir as emoções que nos alimentam e manter dentro de nós somente o que nos dá energia.

Raquel Núbia

2dc598ab-b46d-4ef3-ab84-e218d46df701
Foto: @juhneri

 

Indagações

Eu sonhei demais?
Será que fiz das nuvens, minha casa
E das estrelas, companhia?
Do céu, minha morada
De onde, sonhar era o que eu fazia?
Será que mirei no sol,
Mirei na lua ao anoitecer?
E construí meu conto de fadas
Sob a areia que só faz ceder?
Será que meu alimento, que era esperança, não valeu de nada?
Será que eu fechei meus olhos ou que me deixei ser despedaçada?
Será que eu sonhei demais?
Será que o que desejei e acreditei não existe no mundo?
E que o que a minha história é rasa e não encontra o que é profundo?
Será que eu desenhei o meu destino em cores, versos e canto,
mas que a vida que me foi dada foi rascunhava em preto e branco?
Será que fui eu quem errou ao alinhar as expectativas?
Ao achar que o caminho seria repleto de flores vivas?
Será que a culpada fui eu por levar a certeza de que eu merecia… quando não verdade sou eu a causa do luto no dia a dia?
Será que é isso mesmo e que a vida é um projeto de médio resultado e que não adianta querer, no final de tudo, o pote dourado?
Ou será que fui eu quem pensei que não seria nada demais e que hoje recolho os frutos amargos, por sonhar demais?

Raquel Núbia

9BB3EA47-EF33-489B-A3D8-C4D138994166
Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Sobre autores e personagens

Talvez, só talvez a vida seja isso mesmo… Um emaranhado de desejos e vontades e sonhos que apenas existem pra nos mostrar que há um limite.
Talvez a vida seja isso mesmo… Um eterno comparar de realidades em que nós nos perdemos imaginando “como seria se” e agradecendo “por não ser pior”.
Em tudo o que vivemos existe esse limbo, da insatisfação pelo que não temos, pelo que sabemos que nunca vamos ter e a gratidão pelo que não precisamos viver, nos submeter, pelo que escapamos dessa vez.
Sim… insatisfação pelo que sabemos que nunca vamos ter, pois apesar do que nos dizem, do que nos contam as línguas otimistas, nem tudo seremos capazes, nem tudo alcançaremos, alguns sonhos existem apenas para serem sonhados, mesmo que mudemos seu nome para metas e objetivos, alguns destes existem somente para nossa íntima frustração.
E tudo bem…
Tudo bem?
Tudo bem na conformidade de sabermos e entendermos que cada um tem um papel. Parece que o destino (Deus, talvez?) já escreve nossa história desde sempre e, para alguns as páginas vem com mais céu azul, com mais natureza, mas risadas, mais oportunidades, menos preocupações, pelo menos com o que é básico na vida da maioria. Para alguns há tempo, não há relógio soprando o passar das horas com tanto rigor e nem o peso de decisões diárias que roubam pouco a pouco a alegria do dia.
Só para alguns, as páginas estão repletas de lado B, de opõçes, de caminhos infinitos… E para outros, a maioria, parece que o destino (Deus, talvez?) caiu na monotonia do escritor enfadonho e apenas repetiu as frases que ocupam as linhas, sem a criatividade ou a generosidade que teve com os protagonistas, fazendo a grande massa apenas espectadora, por vezes sonhadora por vezes esmagada pela realidade das páginas preenchidas com mais do mesmo e permeada pelo tal limbo citado acima.
Quando a menta questiona muito o coração fica confuso, o peito pesa e a mente voa… Voa nas possibilidades que o pensamento traz mas se aprisiona ao encarar a verdade absoluta de que talvez, talvez a vida seja isso mesmo…

Raquel Núbia

2020-06-03
Foto: @eubrunolopez – Muriaé/MG

Sem razão ou por que

Será que as pessoas já pararam para pensar na quantidade de esforço que é necessário para manter o foco, a energia e o estado de espírito elevado? Quando paro pra pensar, mas pensar de verdade, numa análise quase absurda, em detalhes dos motivos pelos quais fazemos o que fazemos, a conclusão inevitável é de que nada faz sentido e nada importa.
O que tem valor hoje, no mundo que vivemos, só tem porque um dia alguém disse que tinha. O que é considerado importante, também segue o mesmo padrão de definição. Então quando paramos e nos perguntamos o porque das coisas, vemos que estamos como hasmters correndo em uma roda que gira e gira sem chegar a lugar nenhum.
O mundo tem sido um lugar estranho (independente da pandemia), um lugar em que as coisas, por vezes, parecem invertidas. Em que pessoas boas sofrem e pessoas de caráter duvidoso tem êxito… Por isso, no início eu disse que é necessário muito esforço para se manter positivo e persistente, porque todas as indicações e avisos nos dizem para fazer o contrário.
A gente usa muita energia pra manter o olhar voltado pro que é bom e isso nem sempre é fácil, ainda mais quando a gente perde um pouco o significado do que porque manter esse olhar…

Raquel Núbia

Imagem11
Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Sobre as incertezas no caminho

A grande verdade é que, nessa vida, a gente tá sempre tentando acertar, tentando fazer a coisa certa, tomar as decisões corretas que nos ajudem a chegar onde precisamos, que evitem o nosso sofrimento ou daqueles que amamos.
Mas outra grande verdade é que, em grande parte das vezes ou, pelo menos em algumas delas, não temos a menor ideia do que estamos fazendo e apenas seguimos em frente na esperança de estarmos fazendo o melhor, torcendo pra que tudo dê certo e termine bem no final.
Se fortalecer nesse processo pode ser difícil e podemos nos sentir sensíveis, frágeis… Suscetíveis ao dizer e fazer dos outros. Esse processo pode ser cansativo, desgastante, mentalmente desafiador e nem sempre vamos nos manter confiantes e fortalecidos o tempo todo, mas percorrer o caminho é necessário, mesmo sem a certeza de quando haverá uma linha de chegada, nem sequer tendo a certeza de que essa linha existe.
É preciso ter bom ânimo e nisso tudo é preciso também aprendermos a contar com a gente mesmo acima de tudo e de todos.

Raquel Núbia

5F0C474D-C69A-40CF-A144-6085DF6A5558.jpeg
Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG

 

Sobre cactos e pessoas

Meses atrás ganhei dois vasinhos de cactos como lembrança de um aniversário que fui. Me disseram que só precisava aguar uma vez por semana, que não eram necessários muitos cuidados. Ok.
Meses passando e os cactos lá nos vasinhos, um cresceu mais e o outro continuava do mesmo tamanho. Continuei cuidando dos dois e eles foram perseverando, o que pra mim foi uma vitória visto que todas as plantas que eu havia tido até então morriam rapidamente.
Dia desses minha mãe foi aguar os cactos e disse algo mais ou menos assim: “esse aqui cresceu, mas esse outro não. Achei que estavam vivos, mas quando cheguei perto vi que estavam mortinhos”.
A poesia dessa frase é tão triste quando verdadeira e não pude deixar de pensar nisso depois… Afinal quantas vezes não é exatamente essa a sensação que temos, de que o que parecia vivo de longe, de perto está morto?
Óbvio que é uma analogia, mas ao meu ver se aplica a tantas coisas… Dia a dia convivendo com pessoas, comparando-as as outras, como ao cacto que cresceu, inferindo que os cuidados iguais satisfazem a todos da mesma forma, que suprem necessidades, lamentando pelo que vemos de ruim (que pena que esse outro cacto não cresceu), mas sem chegarmos perto o suficiente pra vermos o que realmente está acontecendo – o cacto morreu.
Sentimentos estão morrendo todos os dias, esperanças morrendo, sonhos morrendo, expectativas morrendo, alegrias morrendo todos os dias e, nós de longe, nem sequer notamos até que seja tarde demais. Até que as raízes estejam tão secas que a água não consiga mais penetrar levando a vida.
Não é porque um cacto cresceu que o outro tem que crescer. Não é porque um cacto se satisfez com pouca água que o outro tem que se satisfazer. Nem o mesmo solo, nem as mesmas condições climáticas garantiram o mesmo destino à essas duas plantinhas, o que dirá a nós mesmos.
Olhe à sua volta.
Encontre os cactos que merecem sua admiração, mas se esforce para encontrar aqueles que apenas aparentam viver enquanto morrem por dentro.
Seja água.

Raquel Núbia

531BC3AA-8A95-4FC8-86D0-1B66AF5593C8.jpeg
O cacto sobrevivente. Foto: Raquel Núbia

Descanse em paz

Um dia seremos lembrança na memória de alguém e, talvez, nem isso seremos. Um dia, quando menos esperarmos, sem mesmo perceber, perderemos pessoas e pessoas nos perderão.
Tantas coisas pra fazer, tanto com o que se preocupar, tanto sentimento pra nutrir.
Quantas mágoas guardamos à espera de uma resolução no futuro? Quanto orgulho nos impede de darmos os passos necessários para um reencontro, uma reconciliação? Simplesmente porque acreditamos que sempre teremos uma outra oportunidade.
Quantas vezes nos dedicamos às nossas prioridades, conquistamos objetivos, vivemos cada dia intensamente, imersos em nossa rotina, correndo o risco de abdicarmos de um momento para refletirmos sobre o que deixamos pelo caminho, inacabado, sem conclusão ou fechamento.
É tanto tempo que gastamos nutrindo sentimentos passados, imaginando como as coisas seriam, mas ainda assim sem coragem de agirmos para corrigir os erros e tropeços vividos.
Não, nós não temos todo o tempo do mundo. Somos eternos apenas nos corações daqueles que verdadeiramente nos amam, mas não somos infinitos na vida. A vida acaba e, num piscar de olhos, não teremos mais amanhã, não teremos mais novas chances, não teremos mais um novo dia para recomeçar.
O amanhã nem sempre chega, o dia de hoje nem sempre termina. O agora é tudo o que temos.

Raquel Núbia

CF047A4B-29E4-43B5-967D-DDC9D6BCD888.jpeg
Imagem retirada da internet