Relembrando: Carta para ela

Conviver com um transtorno mental não é tarefa das mais fáceis, mas aprender a lidar com isso, da melhor forma possível, é um dos caminhos que podemos trilhar para uma vida mais saudável e mais feliz. Nem sempre conseguimos mudar as circunstâncias do que acontece conosco, mas podemos transformar a forma com que reagimos a elas.
Escrever sempre foi um caminho para mim, como na crônica “Carta para ela” publicada em Novembro de 2016 e que relembro aqui.

Carta para ela
Foto: Leandro Oliveira

Abraço,

Raquel Núbia

DIA #26 – 30 DAY CELEBRATION

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“Oi,

Engraçado me perceber tão cautelosa na escolha das palavras quando a falta de filtro entre nós foi justamente o que nos aproximou logo de cara. Quantas vezes a gente se perdeu em conversas infinitas sobre o tudo e sobre o nada? Eu nem consigo contar…
Pra mim nossa amizade seria pra sempre. Mesmo sabendo que você não faria mais parte de todos os meus dias, eu sentia em mim a disposição de um esforço para que você continuasse a fazer parte da minha vida, tanto que traçamos planos e envolvemos outras pessoas neles. Eu tinha “certeza” de que daria certo, mas não deu.
Quando eu saí de perto de você nosso vínculo era forte, cheio de carinho e cumplicidade. Quando eu voltei já nem consegui mais chegar perto porque você escolheu jogar tudo o que tínhamos numa gaveta velha junto com as outras coisas que você iria deixar pra trás.
Que golpe…
Não pela escolha em si. Tudo bem você se questionar e ter dúvidas, isso acontece com todo mundo. O golpe doloroso foi pela sua postura, pelo tratamento gélido que me deu sem eu nem saber porque… E até hoje tudo o que tenho são especulações advindas de outras pessoas já que eu nem estava aqui quando “tudo aconteceu”.
Naquele dia eu chorei de tristeza. E levei essa tristeza comigo por mais um tempo até que dentro de mim gritou mais alto a minha voz, me dizendo que se aquela era a forma que você decidiu lidar com tudo, realmente não fazia nenhum sentido continuar investindo na nossa amizade, pois o meu valor é muito maior do que o que você estava disposta a me dar.
Hoje te lembro com pena… Pena de uma amizade tão intensa ter ficado pra trás. Uma amizade que me rendeu um tanto de dor de cabeça, mais um tanto de boas memórias e alguns versos que deixo aqui pra você.”

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

DIA #17 – 30 DAY CELEBRATION

17Aprendi e tenho aprendido algumas lições com meus pais e irmãos, então fica difícil saber qual a maior e mais importante delas, visto que são complementares. Acredito que o que uma das coisas que aprendi ainda na infância é ser honesta com os outros e comigo mesmo. Honesta em todos os sentidos… No sentido de não levar pra mim o que é o dos outros, não tirar vantagem das pessoas, não me favorecer ou aceitar favorecimentos que venham por motivos duvidosos.
Eles me ensinaram pelo exemplo que a vida é difícil, mas que devemos ser lutadores e não esmorecer frente aos muitos obstáculos que encontramos. Me ensinaram que um passado com dificuldades não determina um futuro turbulento e que o nosso esforço nos leva para frente. Me ensinaram que, por mais que tenhamos com quem contar e que por algumas vezes seja preciso recorrer a outros, precisamos sempre contar primeiro com a gente mesmo, pois a dependência do outro nos limita, nos ameaça e nos mantém reféns. Sendo assim, se desejarmos algo, precisamos ir atrás, pois ninguém irá por nós e muitas vezes, as pessoas nem compreenderão os motivos dos nossos sonhos e metas.
Tenho pais guerreiros e batalhadores que criaram filhos guerreiros e batalhadores também. Jamais serei capaz de agradecer tudo o que fizeram por mim e a imensa sorte que tenho por tê-los comigo.

Abraço,
Raquel Núbia

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Raquel Núbia – Foto: Leandro Oliveira-Petrópolis/RJ

Reflexão

Sobram pensamentos mas faltam palavras.
Sobram imagens mas faltam cores.
Sobram as vozes mas falta o silêncio.
E quando o silêncio fala, o peito grita.
São tantos os fatos que são deixados pra um segundo momento.
Uma imagem ou outra que se coloca em espera. Num tempo tão corrido a reflexão pode ficar pra depois, fica represada entre paredes finas.
Cada momento de solidão.
Cada descoberta.
Cada lição.
Tanto em tão pouco tempo.
A mente brinca escondida quando as luzes do quarto se apagam. Traz com ela, como amiga, as interrogações que repousam ao final de cada frase não respondida.
Quantas possibilidades.
Quantas vontades.
Num espaço tão pequeno cabe um infinito. E o coração bate num compasso costumeiro daqueles que preferem não olhar pra cima, muito menos olhar pra trás.
Não há dúvidas e não há certezas.
Não há tristeza, nem lamentações.
O que existe é aquele sussurro que sopra dizendo que não se tem nada nas mãos. A vida dança a música que quer e troca a melodia sem avisar, sem esperar que chegue ao fim.

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Raquel Núbia