Sobre o que deixamos pelo caminho

Acho que é inevitável, sempre que estamos passando por alguma mudança, algum momento decisivo ou fazendo grandes reflexões, fica impossível não olhar pra trás e se lembrar das coisas importantes que nos guiaram até onde estamos.
Algumas coisas parece que vivemos ontem, mas quando refletimos, vemos que já se passaram tantos anos e nós nem havíamos percebido. Como o tempo passa! Entretanto algumas coisas são marcantes de mais pra ficar no passado e, de um maneira ou de outra, as trazemos conosco pra onde quer que vamos. Sejam boas ou ruins.
As boas atuam como um lembrete de que, no fim, tudo vai ficar bem. E as ruins atuam como um estímulo que não nos deixam esquecer que algumas pessoas duvidam de nós, usam nosso nome em suas fantasias, nos abandonam, nos usam como peças em seus jogos particulares, nos atacam por não conseguirem lidar com suas próprias derrotas e fraquezas mas mesmo assim, cá estamos nós, não é mesmo?
Com alguns cortes e cicatrizes emocionais.
Guardando aquelas frases e coisas que ouvimos e vivemos há tanto tempo e que estão cravadas, pulsando por uma oportunidade de resposta que nunca virá, pois o momento de revidar já passou.
A gente segue vivendo coletando pelo caminho as experiências que vivemos. Guardando essas conchas de memórias numa sacola que às vezes fica muito cheia e precisa ser esvaziada, então escolhemos algumas conchas pra deixar pra trás, mas o tempo em que elas ficaram na nossa sacola é suficiente pra deixar marcas.
Então não nos esquecemos, apenas aprendemos a forma certa de nos lembrar.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG
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Relembrando: Calmaria

Compartilho hoje uma poesia publicada há mais de um ano e que você pode ler na íntegra e curtir aqui.

Calmaria
Imagem da internet

Abraço,

Raquel Núbia

 

DIA #06 – 30 DAY CELEBRATION

6

Minha memória mais antiga é uma mistura de vários momentos de um dos melhores períodos que vivi: minha primeira infância. Naquela época meu irmão também era criança (ainda que 6 anos mais velho) e nossos primos todos tinham nossas idades, uma turma toda da idade dele e uma turma toda da minha idade.
Nas férias de Janeiro sempre viajávamos para casa de uma tia que morava em Aracruz no Espírito Santo, região litorânea, íamos com outros primos e tios e era sempre uma época boa demais… A casa era modesta mas acomodava todo mundo de maneira confortável e aquele tumulto de gente o tempo todo soava um clima de festa constante.
De manhã cedo, partíamos para a Praia de Coqueiral que, pelo que eu me lembro, não era muito longe. No caminho passávamos em frente a uma grande plantação de eucalipto que era da fábrica de papel onde meu tio trabalhava e aquele cheiro de mato se espalhava pela estrada.
O dia se desenrolava lento, com os homens jogando peteca, as mulheres tomando sol e as crianças brincando de fazer castelinhos e bolinhos na areia. Para entrar na água só na companhia do pai ou da mãe e o ciclo era infinito. Brinca na areia, se suja toda, entra na água, limpa e começa tudo outra vez.
Na hora que a fome batia o lanche era certo: guaraná e pão com mortadela 🙂 Tudo já preparado e trazido de casa, armazenado no porta malas de algum carro.
Certa vez meu irmão saiu da água chorando e dizendo que havia sido queimado por uma água viva… Na hora eu não acreditei porque ele passou o dia me fazendo medo toda vez que eu entrava na água dizendo que eu ia encostar nesse bichinho e que ele ia me machucar. Coisas de irmão mais velho… Mas não é que o bicho queimou foi ele?
Chegávamos em casa vermelhos e queimados, pois a energia para brincar na água e no sol não acabava nunca e a festa continuava geralmente com um churrasco em casa mesmo. Eu usava um maiô laranja com babados atrás… minha mãe o guarda até hoje!
E o que eu guardo são essas lembranças tão inocentes e tão boas… Se os problemas já existiam naquela época, eu não sei, mas a visão que tenho era de felicidade apenas e é essa visão que quero continuar levando comigo.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ

 

Déjà Vu

Tem dia que parece que nasce com cara de passado.
Com cheiro de ontem
e com passarinho cantarolando música repetida…

Tem dia que nasce com cara de lembrança.
Com cores de outra hora
e com parágrafos e pontos de história vivida.

Tem dia que nasce com vento soprando o céu frio.
Com jeito de câmera lenta
e com sons que despertam de dentro da cabeça.

Tem dia que parece reviver de outro tempo.
Com reprises da vida
e com memórias despertas até que adormeça.

Tem dia que nasce turrão e antigo.
Com o rosto conhecido
e com o elo forte que mostra passado e presente unidos.

Tem dia que começa com jeito de monotonia.
Com a mão estendida
e com os braços abertos para melancolia.

Tem dia.

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Foto: Raquel Núbia – São Paulo/SP

Alice

Já fiz algumas poesias dedicadas a pessoas, mas é a primeira vez que utilizo o nome do corpo da produção. Poesia singela, espero que gostem:

“Quem é a menina
Que o tempo todo sorri,
Que fala sozinha,
Quando não há ninguém a ouvir?

Quem é a menina
Que aos poucos se revela,
Se ordena: “Fecha a boca”
Já diria a mãe dela…

Quem é a menina
De fala suave e mansa,
Que quando eu era já moça,
Ainda era criança?

Quem é a menina
Sempre carinhosa,
Que traz doces e bolos,
Sempre cuidadosa.

Já falei várias vezes,
Várias vezes já disse.
A menina que cresce dentro dos meus dias:
Alice!”

Raquel Núbia

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Foto: Leandro Oliveira – Tiradentes/MG

Olhos Pequenos

Lendo meus cadernos antigos encontrei algumas produções e vou compartilha-las aqui nos próximos dias, começando com essa poesia de 2004. Curioso ver como a forma de escrever mudou… Nem melhor, nem pior, apenas diferente. Espero que gostem!

“Olhos pequenos

São pequenos os olhos que me olham.
São suaves as mãos que acariciam.
Presente intenso,
amor do dia.
Ao lado certo.
Nesses olhos de anjo,
refletem a beleza de um alguém
que sabe olhar com distinção
e ternura
ao mesmo tempo que olha
amando e com calor.
Envolve nos braços
um mundo de sentimentos
que confundem a cabeça e a alma.
Induz a pensamentos
coloca caminhos e imagens
perto de onde tudo se perde.
Causa sentimentos Inversos.
Faz brotar a fúria
banhada no ciúme,
tomada pela dor de ficar longe,
de sentir a dor de perder
todo o encanto pra outra…
São pequenos os olhos que me olham,
olhos que me mostram o mundo
mas que cercam o tudo
e é um prazer só meu
te ter, uma anjo ao meu lado.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Relembrando: Nota

Quando tudo o que me restava foram as palavras para lidar com o que não sabia, o que me salvava da minha mente cheia, era a folha vazia… Engraçado como reler esse conteúdo hoje me faz pensar que, quando outras pessoas leem, interpretam de tantas formas diferentes o que era um sentimento tão simples. Hoje, relembrando, fico feliz por ter seguido em frente.

Nota

Ela é doce.
É delicada.
De pele alva, imaculada.

É inocente.
É tão quieta.
Não faz alarde, é discreta.

Ela é santa.
É raridade.
Uma criança, pouca idade.

É tela branca.
É distraída.
Boa com todas, sempre querida.

Ela ê prêmio.
E desconcerta.
Sempre mansa, sempre incerta.

É acuada.
É dominável.
Uma doçura, sempre amável.

Quanta estima,
E qualidades…
É singular o que Deus lhe deu.

É uma boneca,
Incomparável.
Ela é perfeita…

E não sou eu.”

Raquel Núbia

Nota
Imagem retirada da internet

Reminiscência

Então,
acho que a vida é mesmo assim.
Numa hora você sorri,
e na outra é tristeza sem fim.

Talvez,
seja disso que a vida se trata.
Se esquecer o que virou passado,
pra lembrar bem na hora errada.

Pois é,
a memória é mesmo danada.
Brinca de polícia-ladrão,
quando mostra lembrança guardada.

Assim,
o que resta é deixar esquecer.
Esperar que o que foi lembrado,
volte a desaparecer.

Então,
acho que a vida é mesmo assim.
Numa hora você fica triste
e na outra: alegria sem fim.

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Foto: Raquel Núbia – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Despertar

Coisa mais linda despertar tão bem…
Ouvindo a voz de quem tanto quero assim.
Sentir um sorrindo no rosto.
Porque minha criança se lembrou de mim.

Coisa mais linda sorrir de amor…
E no coração sentir essa alegria.
De quem sente saudade mesmo quando perto.
De quem passa a semana contanto os dias.

Quantos dias longe insistem em passar…
E a ausência me puxando pelo braço.
e os pensamentos perseguindo o tempo todo.
Com coisas que tanto quero mas não faço.

Coisa mais linda despertar assim…
Sentindo que alguém logo ao acordar.
Pensou nessa pessoa que não faz mais nada,
A não ser te amar, te amar, te amar…

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imagem: favim.com

Raquel Nubia