Ho Ho No

Que pena que esse fim de semana acabou.
Foi o último fim de semana “normal” e o próximo só será dia 05/01/2019.
Nesse meio tempo seremos inundados de uma obrigatoriedade de estarmos ao lado da “família”, “confraternizando” com as pessoas que “amamos”. Sim, tudo entre aspas.
Particularmente detesto essa época do ano, especialmente o Natal. Óbvio que não pelo significado, mas sim pelo que somos ensinados desde sempre que estas datas devem representar.
Tanta doutrinação faz com que tudo que não se encaixe seja sentido como errado. Se você, como eu, não teve esse costume de socializar com tanta gente essa época “mágica” de fim de ano, sabe do que estou falando.
As opções fora o que é padronizado são mínimas. Acredite, ano passado não havia um restaurante ou delivery funcionando. Qualquer coisa que garantisse uma noite normal, em casa.
Os convites devem ser aceitos, caso contrário a estranheza é sentida imediatamente: “mas vai ficar sozinha nessa data?”.
Há uma obrigação de compartilhar esperanças, planos, realizações, felicidade, união. Se você não sente isso ou não tem vontade desse compartilhamento, está inevitavelmente errado.
E a pressão vinda de todos os cantos é tanta que, eventualmente, a gente acaba de sentindo errado mesmo. Tipo, “qual o meu problema?”, quando, na verdade, não há problema algum.
O problema está na falta do encaixe ao que se é esperado. Todos precisam celebrar. Isso é o correto. E se você não teve esse histórico de celebração familiar, não se sente a vontade ou com desejo disso, está fadado a dois destinos:
1-Participar de tudo porque simplesmente é isso que você deveria fazer;
2-Participar de nada e se indispor com todo mundo ao seu redor que é incapaz de um compreender que cada um tem um costume;
Independente de qual destino será o seu, uma coisa é certa:
O incômodo/culpa/melancolia que você sentirá como consequência.
E isso nos leva ao próximo ponto:
As pessoas não entendem como você pode não estar plenamente felizes nessa época do ano. Não entendem se você se sente triste, melancólico e sensível. E isso se torna um ciclo infinito que só acaba no dia 02/01 quando a vida tende a voltar ao “normal”.
Enquanto isso, somos bombardeados com uma avalanche de estímulos das famílias perfeitas, dos amigos felizes, das viagens paradisíacas, da plenitude daqueles que tem pelo menos o necessário para se encaixar no padrão. E quem não tem? F@#*-se.
O certo é se juntar a todos, sorrir, abraçar, celebrar e seguir o fluxo.
Sinceramente…
Se bastasse apenas cortar o acesso às redes sociais e à TV nessa época seria fácil, mas não é tão simples assim.
O contágio do espírito de fim de ano está em todos os lugares – não há como fugir.
Então, se você for como eu, e sente crescer ainda mais nessa época do ano o sentimento de não pertencimento, do desencaixe, estamos juntos.
Assim como foi no ano passado, serão longos 15 dias.
E, se você, para sua sorte, não é como eu, aproveita sua ficção natalina, desfrute de sua plenitude e de sua capacidade de se preencher de uma magia estereotipada e vazia, que tende a não ser mais do que isso.

Raquel Núbia

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Imagem retirada da internet
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Das convenções do cotidiano

Desde que engravidei tenho tido muitos aprendizados sobre coisas que ninguém fala a respeito da gravidez em si. Geralmente o que a gente escuta se refere às maravilhas das experiências de gestante e de como todos os obstáculos valem a pena quando seu bebê nasce.
Mas… Não é bem assim. E algumas situações que tenho vivido demonstram bem como algumas pessoas tem a tendência de romantizar situações que são ruins como se isso enaltecesse o fato de termos conseguido supera-las, como se somente sofrendo fôssemos capazes de ser recompensados, como se não houvesse “final feliz” sem um caminho tortuoso e que esse caminho é justificável, afinal do outro lado nos espera uma grande realização.
Eu discordo totalmente!
Outro dia me disseram que sentirei falta dos enjoos e vômitos diários pelos quais passei nos três meses de gestação. Me desculpe, mas não sentirei não!
Me disseram que as dores nas costas são apenas um sinal de que o bebê está crescendo… Eu sei, mas essas dores doem!
O que é ruim é real e eu não vejo motivos para amenizar o que me incomoda como justificativa para ser feliz ao final dos 9 meses. Tem muita coisa boa nesse processo, muita mesmo! Mas tem muita coisa ruim também…
Essa romantização tende a nos fazer aceitar situações que não precisamos aceitar e esses exemplos que citei acima relacionados a gestação são apenas um recorte.
Nos dizem que aceitar mal humor do chefe é normal, que nos submeter a tradições familiares com as quais não concordamos é normal… mas não é. Não é normal, sofrer pelos desajeitos do namorado, dos pais. Não é normal sentir dores de cabeça, nas costas, tomar remédios para suportar a ansiedade e a pressão do trabalho. Simplesmente não é.
Não podemos crer que seja. Precisamos saber o valor e o custo real das coisas e das situações para não nos subordinarmos ao que é desnecessário e ao que custa nossa saúde física ou mental.
Analise.
Preste atenção.
E não se submeta.

Raquel Núbia

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