Desencanto

Hoje, de repente, me bateu aquela saudade de escrever…
Mas não escrever abrindo uma tela em branco e escolhendo teclas e sim escrever com uma velha caneta, num caderno, numa folha, num rascunho, num espaço qualquer. Tecendo as letras uma a uma numa grafia atrapalhada, dispensando no papel tudo o que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Tempo atrás escrevi sobre a importância de conseguir escrever sem rascunhar, mas hoje me pego refletindo o que esse momento do rascunho significa.
O momento vivido no silêncio interrompido somente pelo toque da caneta no papel era aquele só meu, de mais ninguém, e só depois, às vezes bem depois mesmo, é que eu decidia se esse momento seria de mais alguém.
Complicado transformar sonhos em realidade… E hoje me sinto estranhamente lidando com a sensação de que devo satisfação pela ausência ou presença das minhas produções… Uma cobrança que vem justamente daquele conteúdo que fica passeando pela cabeça e que fica agarrado no coração e na memória.
Talvez, ao se tornar realidade, os sonhos percam seu conteúdo de fantasia, e passem a ser só mais alguma coisa do dia. Talvez por isso me venha a saudade de escrever, escrever de verdade, com a minha verdade.

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(Raquel Núbia – Foto: Leandro Oliveira / Petrópolis – RJ)

Raquel Núbia

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Casa vazia

Olha essa casa assim vazia…
O corredor não leva pra nenhum lugar.
São paredes, portas e janelas.
É um abrigo que ainda não é lar.

Quando a noite cai ou chega o amanhecer,
a madrugada e a manhã vem num silêncio assustador.
E o vazio que preenche cada canto
me abraça calmamente com amor.

Se há risada, companhia, há alegria.
por alguns instantes cada canto é ocupado.
O relógio badala e grita que a hora passa.
É o brulho da felicidade é silenciado.

Em tanto espaço vivo num amontoado
e esse pouco é o que eu preciso e sempre quis.
Mas entra dia, vira noite e passa o tempo…
mais distante me parece o tal final feliz.

E nesse abrigo que ainda não é lar,
que é parede, porta e janela,
com corredor que não leva a nenhum lugar,
eu me convenço que a ausência do sorriso também pode ser bela.

Mas, olha essa casa assim vazia…

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Raquel Núbia