Aqueles que não são plural

Nós somos tão raros e  nem percebemos… Não damos conta de como guardamos um universo inteiro dentro da gente, de como somos feitos de sonhos, esperanças, emoções.
Nós não nos percebemos valiosos, pois a todo tempo existe algo ou alguém nos apontando o contrário. Alguém que por vezes também tem tanto valor e ainda assim se limita no prazer de provocar no outro o que ele mesmo sente de ruim, de pequeno. Instiga no outro o que lhe tira o próprio brilho e que lhe corrói por dentro por não saber o que fazer com tudo aquilo.
E quem cultiva em si o campo germinado do amor, costuma se entregar e compartilhar de suas sementes sem nem mesmo conseguir pensar que quem pede o alimento e a beleza tão prestes a brotar, não é capaz de sentir satisfeito ou contemplar a flor que nascerá de suas mãos.
Nós somos raros e cada vez mais escassos. Nós somos raros e cada vez mais amedrontados ainda que permaneçamos com o peito repleto do que que falta no mundo.
Nós somos o que sabemos ser e vivemos do que nosso coração está cheio. Somos insistentes por teimar em sermos bons quando ao redor o mundo está em ruínas…
Nós somos o que resta da chance de um novo começo. Nós somos literalmente a pedra que resiste e por isso incomoda os que vivem de apontar nos outros o que falta em si mesmo.
Nós somos almas boas. Nós somos amor. E por isso, somos raros.

Raquel Núbia

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Foto: @tamara.loures

 

Remanescer

Vitória pra mim é conseguir fazer as unhas depois de três semanas “sem coragem”. É conseguir terminar uma manhã inteira sem pedir um milagre pra Deus, e ainda ser capaz de ligar o som e ouvir alguns acordes pra embalar as horas.
Vitória pra mim é enfeitar os dedos com anéis depois de tanto olhar direto e passar batido pelos penduricalhos. É passar as mãos pelos cabelos e sentir que a missão descomunal de lava-los por dois dias seguidos, foi cumprida e hoje os fios caem leves.
Vitória pra mim é vestir uma calça lavada, com todos os reparos feitos e uma blusa que não me aperta nos braços depois de tanto adiar colocar as coisas em ordem. É chorar de tanto rir ao lembrar do susto que veio após um sonho ruim.
Vitória pra mim é conseguir encher a folha de papel com a letra redonda e pequena, característica da calma e não com palavras deitadas que prostram sobre as linhas para alcançar o pensamento. É seguir com a respiração leve e o coração batendo no compasso.
Vitória pra mim é estar de porta aberta e sorrir ainda que haja dúvida e incerteza logo acima.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia