Lassidão

Eu queria voar bem alto
e ir pra onde o sol se esconde.
Voar além das nuvens
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria correr pra longe
e ir depois daquele horizonte.
Seguir até o fim da estrada
Onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria mergulhar fundo
e ser água que vem da fonte.
Submergir no silêncio do mar
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria queimar o fogo
e ver a chama arder, aos montes.
Ser a brasa que se apaga
onde ninguém jamais me encontre.

Eu queria transcender o mundo
Ser luz da vida, que o outro aponte.
Mas, sigo num mundo de faz de conta
onde, quem sabe, eu me encontre…

Raquel Núbia

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Foto sem filtro: Raquel Núbia – Búzios/RJ

 

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Você não sabe

Ei!
Você não sabe rimar!
Você não sabe escrever,
não sabe se expressar!

Ei!
Você não sabe falar!
não sabe o que esconder,
não sabe o que mostrar!

Ei!
Você não é de verdade!
Você não sabe seguir,
não sabe o que liberdade!

Ei!
Você não sabe de nada!
Você não sabe do ontem,
e no passado é piada!

Ei!
Você não sabe…
E jamais saberá ao certo!
Não sabe que quem te entrega,
É quem você leva por perto!

Ei!
Você não sabe…

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

 

 

Sobre o que deixamos de falar

São muitas as frases atribuídas à Freud (médico neurologista, criador da Psicanálise), mas de todas elas, verdadeiras ou não, existe uma que ao meu ver é imbatível e inegável: “Cala-se a boca, falam as pontas dos dedos”.
Podemos sim fechar nossa boca, calar tudo o que sentimos, não responder a provocações, não revidar agressões… Podemos não responder a sentimentos, não corresponder à investidas alheias, tudo isso podemos.
Mas quando a demanda é grande, quando as coisas transbordam dentro de nós, de uma forma ou de outra, nos manifestamos. E nesse momento não são somente os dedos que falam… Falam também as unhas roídas, a mordida no canto da boca, a insônia, a falta de apetite, a dificuldade de concentração, a falta de vontade e o excesso de pensamentos. Tudo isso fala.
Quando se cala com o coração em paz, tudo se acalma.
Mas quando o silêncio vem da impossibilidade de ação, a calma é capa para páginas rabiscadas…
Observe.
Observe quem se cala a sua volta, mas observe acima de tudo você.
Saiba ler além das palavras.
Não se negue a oportunidade de ouvir o que seus dedos lhe dizem.

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Raquel Núbia

Sozinho

Ninguém vence uma batalha sozinho, muito menos consegue vencer assim uma guerra.
Ninguém consegue alcançar aquilo que não quer ser alcançado, não há como dar a mão a alguém que ao ver uma mão estendida não estende a sua de volta, não há como caminhar ao lado de alguém que se esconde nas trincheiras de seu caminho sem ao menos deixar pistas de onde está indo, do porque se afastou.
Fica praticamente impossível acompanhar alguém que tem medo. Não por este alguém ter medo afinal, todos tem, fica difícil quando, com medo o outro alguém se esconde sem deixar nenhuma fresta de luz pra quem o acompanha.
Como conseguir suportar a angústia de saber que a qualquer momento novos medos chegarão e que talvez quando você mais precise de alguém que lhe dê força, que te ajude a caminhar, esse alguém simplesmente pode estar escondido em seus próprios medos sem espaço para cuidar de quem está tentando ficar do seu lado, ficando assim sozinho para sofrer seus problemas.

Sozinho

Raquel Núbia

A noite

A noite

O que guarda a noite
Que a manhã não pode dissipar?
Quantos medos esconde,
Que se perdem ao clarear?

O que guarda a noite
Que não se revela durante o dia?
Quanto choro esconde
Em forma de alegria?

O que guarda a noite
Quando não se vê esperança?
Quanta tristeza leva
Até que chegue a bonança?

O que guarda a noite
Quando a garganta prende o nó?
Qual a angústia daquele
Que, acompanhado, está só?

O que guarda a madrugada
Pelos badalos do sino embalada?
Não desata esse coração
Que já não pulsa uma mesma passada?

E o alvorecer, o que trará?
Talvez um fim para a tempestade…
Que o sol brilhe em sua grandeza,
Antes que seja tarde.

Raquel Núbia

Vamos calar

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Vamos calar o que nos revela.
Vamos calar o que não corresponde.
Vamos calar o que não tem espaço.
O que não se esconde.

Vamos calar o que é perigoso.
Vamos calar o que é nossa verdade.
Vamos calar o que é medo guardado.
O que é privacidade.

Vamos calar o que é lado oposto.
Vamos calar o que não é igual.
Vamos calar o que é insanidade.
O que não é normal.

Vamos calar o que não interessa.
Vamos calar o que é nosso medo.
Vamos calar o que não é bem vindo.
O que é nosso segredo.

Vamos calar porque não há ninguém.
Vamos calar porque ninguém quer ouvir.
Vamos calar porque não se espera dizer.
Vamos calar pois só nos resta sentir.

Raquel Núbia