Sobre as incoerências do cotidiano

Engraçado (só que não) como a gente às vezes (quase sempre) cala um tanto de coisas e sai carregando conosco uma bagagem de frases não ditas, discussões não finalizadas, problemas e assuntos não resolvidos.
Já perdi a conta de quantas vezes testemunhei a incoerência acontecendo bem diante de mim e nem sempre pude me expressar, quase engasgando. Veja só:
De pessoas que se martirizavam por não poder amar, ouvi que meus olhos são vazios assim como meu coração.
De quem deixa em branco as páginas do que diz amar, ouvi que meus textos também são vazios (reflexo dos meus olhos e coração? Não sei…).
De pessoas que nem sabem o que faço e quais são meus resultados, ouvi que não sou boa profissional.
De pessoas que me cercavam com comentários e elogios enquanto eu me reservava o silêncio simplesmente por não ter nada de verdade a dizer, ouvi que sou traidora.
De pessoas que propagam o amo próprio, auto aceitação, autoestima e que lutam contra sua própria imagem no espelho por motivos alheios a sua própria vontade, já ouvi que pareço velha, feia e gorda (quão baixo o “ser humano” vai não é?).
De pessoas que se inteiram das minhas produções e não olham ao redor exatamente por se acharem o centro de tudo, ouvi que meus escritos e inspirações se baseiam num único tema/pessoa.
E já ouvi também que minha consciência pesada (a que julgam que eu tenho) um dia me adoecerá e cobrará um preço. Recebi esse comentário vindo de pessoas que são capazes de fazer justamente esse tipo de “acusação” (que está mais para um praga…) que não lhe deve sair da memória.
Dentro da cabeça todas essas conversas, discussões e resoluções existem e enquanto não verbalizamos (pela voz ou papel), pelo menos pra mim, continuam lá. Vamos deixando passar uma coisa ou outra, por um motivo ou outro e vamos seguindo e nos submetemos a esse tipo de experiência.
Sigo no aguardo de quantas incoerências mais ainda vão ser jogadas ao vento que me cerca, jogando malabares com o que tenho recebido equilibrando o meu desejo, a satisfação do outro e a loucura alheia.

Rio das Ostas (6)
Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ

Raquel Núbia

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Debilidade

Castelo de areia

Somos castelos de areia.
Equilibrando nossos grãos sobre esse solo incerto,
Sendo levados aos poucos pelo vento forte.
Nos cercam as rochas.
Nos cercam os mares.
Podemos ter a dureza da pedra.
Podemos ter a suavidade da água.
A nossa volta o dia pode nascer perfeito,
Abaixo de nós a noite pode cair selvagem.
Há calmaria às margens do oceano.
Podemos nos fingir de concreto
Mas, quando na tempestade,
Sentimo-nos ceder pouco a pouco
Pois…
Somos castelos de areia.

Raquel Núbia

Ciclotimia

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Carrego um mundo em mim mesmo.
Um lugar onde nem sempre há equilíbrio.
Um cosmo entre alegria e dor.
Onde, no meio, há um limbo.

Sinto, não há normalidade.
Mas há vezes em que sou feliz.
Eu teria uma vida miserável
Se não escutasse da felicidade o que ela me diz.

Não sinto tristeza o tempo todo.
Se sentisse, enlouqueceria certamente.
Mas sinto esses momentos chegando,
E luta contra, quase sempre, inutilmente.

Percebo as reações diferentes.
Sinto minha percepção mudando.
Vem tudo como o mar em ressaca,
Com suas ondas de uma só vez me inundando.

Desalento que me faz cega, surda e muda.
Uma marionete controlada pelas cordas.
A pessoa que controla em parte sou eu,
Mas comigo essa pessoa nem sempre concorda.

É nessa hora que a mente fica traiçoeira,
E vez ou outra me prega uma peça.
Considera o que contém sua loucura,
A minha sanidade a ela não interessa.

Ciclo da alma em mal funcionamento,
Euforia e distimia, mente em guerra.
Meio termo é que se pede na balança
E o que resta a fazer é a espera.

Raquel Núbia