“Ponto&Vírgula” – Post 10

Do clichê: Todo excesso esconde uma falta

Quanto mais a gente se conhece, mais consegue identificar situações, prever reações e saber o que vamos sentir e o que estamos sentindo. Mas nem sempre isso é suficiente para evitar algumas coisas, apenas podemos nos preparar para enfrentar as coisas da melhor forma que for possível.
Todo mundo tem uns momentos em que fica meio desanimado, cansado das coisas, chateado até mesmo “sem motivo” e tudo bem. Apesar do mundo e das pessoas cobrarem uma felicidade constante, interminável, tá tudo bem ter um tempo para não se sentir feliz.
Mas, como eu escrevi acima, quanto mais a gente se conhece, mais consegue saber se o tempo que estamos “pra baixo” está ou não dentro da normalidade. Com as ferramentas certas dentro da gente não é difícil diferenciar aquele cansaço e aquela tristeza comum daquela que faz mal.
Quem já sofreu ou sofre com depressão/sintomas depressivos, sabe que há uma luta constante para não voltar para esse buraco depois que já se saiu dele. Tem hora que essa luta é árdua e demanda muito esforço, em outras a gente nem lembra. A tendência é ficar sempre mais fácil e mais orgânico a medida que vamos nos fortalecendo.
Falar sobre isso é um tabu, pois existe todo um estereótipo por trás disso. Grande parte das pessoas ainda acha que quem é deprimido está trancado num quarto escuro, vestindo preto, com olheiras e ouvindo Radiohead.
Grande parte das pessoas ignora o fato de que quem é deprimido pode não se encaixar nessa forma, que existe, mas que não é a única.
Quem é deprimido também trabalha, sai com amigos, viaja, namora, vai a festas, posta memes e fotos bonitas, sorri, é sociável… Uma coisa não exclui a outra e, novamente, tudo bem. Uma pessoa pode sim fazer tudo isso e, ainda assim, se encaixar no diagnóstico depressivo, afinal são tantas as suas formas de manifestação que fogem se der somente a tristeza:

Cansaço, desânimo, dificuldade em sentir prazer com situações que antes eram prazerosas, irritação, dificuldade de tomar decisões, alteração nos padrões do sono e/ou apetite (dormir demais ou de menos, comer demais ou de menos), sensação de culpa, insegurança, isolamento social ou muita necessidade de contato, choro fácil, tristeza “sem motivo”… Veja só quantas possibilidades… Tudo isso manifestado por um período maior de tempo, indica sim um sinal de alerta. Entretanto, nem sempre isso significa que a pessoa não tem condições de continuar realizando suas atividades. Às vezes sim, às vezes não.

Os sintomas podem afetar o indivíduo em diversos graus e de diferentes maneiras, mas uma coisa é certa: todos precisam de cuidado, atenção e tratamento profissional.
No geral, todo nós lutamos nossas batalhas internas e externas e nunca sabemos totalmente pelo que o outro está passando. Ser/estar feliz ou triste não é algo exclusivo a nós, todos sentem, por isso é preciso ter cuidado: temos o poder de despertar o pior e o melhor nos outros.
Já parou pra pensar em como é ter todos os motivos para se sentir feliz e simplesmente não se sentir? Como é ter todos os motivos para se sentir animada, estimulada e ainda assim não se sentir?
Não é fácil…
Mas isso não significa que a pessoa seja fraca, incapaz, ingrata, etc. Isso significa apenas que se trata de uma pessoa que está doente e, portanto, precisa ser levada a sério em suas queixas na busca da recuperação/cura.
Simples. Mas muita gente tem dificuldade de compreender.
Nós temos a tendência de sentir medo daquilo que não conhecemos e de não acreditar naquilo que não vemos, ou naquilo que nunca experimentamos. Mas isso não nos dá o direito de questionar, julgar ou diminuir o outro.
Se você nunca sofreu com depressão, desconhece o peso que tem essa doença e seus sintomas: Sorte sua! Aproveite para exercitar sua empatia:
Capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela.

A empatia pressupõe uma comunicação afetiva com a outra pessoa, logo se você é incapaz de ser empático, isso diz muito mais da sua habilidade ou inabilidade de sentir afeto por outras pessoas e, se isso te impede de enxergar a dor alheia, acredite, a responsabilidade é sua e não de quem sofre com uma doença da qual você desacredita.

Esse estereótipo da pessoa depressiva isolada e catatônica complica ainda mais uma situação que já é delicada, pois qualquer atividade “normal” realizada é encarada como sinal de melhora ou como evidência de que tudo era frescura e “basta a pessoa querer” que tudo vai ficar bem, quando na verdade, não é nada disso. Se trata apenas de alguém vivendo o que a vida dá nos intervalos de manifestação de um sintoma e outro.
Assim como qualquer pessoa doente, esse quadro exige dedicação e isso. É difícil para as pessoas ao redor, eu sei… Conviver com alguém instável, “baixo astral”, não é tarefa fácil, mas é preciso se lembrar de que a pessoa não está assim porque quer e que já se sente culpada por afetar quem a cerca de maneira tão negativa e por não ser capaz de realizar suas tarefas triviais.
Se é a falta que mantém o indivíduo desejoso, seria então a falta do desejo de viver causada pela falta da falta?
São muitas as causas e muitas as formas de manifestação, o que é comum em tudo isso é a dor e ela existe, o vazio e ele existe. Só quem sente sabe, mas isso não impede que, quem não sente (que sorte!) se importe com quem sofre.
Outro dia me disseram: “Pessoas boas não deveriam se sentir pra baixo”, mas se sentem. Cada um tem um fardo diferente para carregar e, aos nossos olhos, o nosso é sempre maior, mas nunca saberemos como é para o outro. O que podemos fazer é imaginar.

É preciso ficar atento: Todo excesso esconde uma falta (amém Psicanálise), não julgue, não condene, não menospreze, afinal se você pensar um pouco ao olhar para dentro de si, qual será o seu excesso? Qual será a sua falta? Qual será o seu vazio? Como você manifesta tudo isso?

Não se engane. O que vemos do outro é apenas a ponta de um iceberg que mantém sua maior parte dentro do oceano e em águas turvas e revoltas são poucos os que se atrevem a mergulhar.

Raquel Núbia

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Ho Ho No

Que pena que esse fim de semana acabou.
Foi o último fim de semana “normal” e o próximo só será dia 05/01/2019.
Nesse meio tempo seremos inundados de uma obrigatoriedade de estarmos ao lado da “família”, “confraternizando” com as pessoas que “amamos”. Sim, tudo entre aspas.
Particularmente detesto essa época do ano, especialmente o Natal. Óbvio que não pelo significado, mas sim pelo que somos ensinados desde sempre que estas datas devem representar.
Tanta doutrinação faz com que tudo que não se encaixe seja sentido como errado. Se você, como eu, não teve esse costume de socializar com tanta gente essa época “mágica” de fim de ano, sabe do que estou falando.
As opções fora o que é padronizado são mínimas. Acredite, ano passado não havia um restaurante ou delivery funcionando. Qualquer coisa que garantisse uma noite normal, em casa.
Os convites devem ser aceitos, caso contrário a estranheza é sentida imediatamente: “mas vai ficar sozinha nessa data?”.
Há uma obrigação de compartilhar esperanças, planos, realizações, felicidade, união. Se você não sente isso ou não tem vontade desse compartilhamento, está inevitavelmente errado.
E a pressão vinda de todos os cantos é tanta que, eventualmente, a gente acaba de sentindo errado mesmo. Tipo, “qual o meu problema?”, quando, na verdade, não há problema algum.
O problema está na falta do encaixe ao que se é esperado. Todos precisam celebrar. Isso é o correto. E se você não teve esse histórico de celebração familiar, não se sente a vontade ou com desejo disso, está fadado a dois destinos:
1-Participar de tudo porque simplesmente é isso que você deveria fazer;
2-Participar de nada e se indispor com todo mundo ao seu redor que é incapaz de um compreender que cada um tem um costume;
Independente de qual destino será o seu, uma coisa é certa:
O incômodo/culpa/melancolia que você sentirá como consequência.
E isso nos leva ao próximo ponto:
As pessoas não entendem como você pode não estar plenamente felizes nessa época do ano. Não entendem se você se sente triste, melancólico e sensível. E isso se torna um ciclo infinito que só acaba no dia 02/01 quando a vida tende a voltar ao “normal”.
Enquanto isso, somos bombardeados com uma avalanche de estímulos das famílias perfeitas, dos amigos felizes, das viagens paradisíacas, da plenitude daqueles que tem pelo menos o necessário para se encaixar no padrão. E quem não tem? F@#*-se.
O certo é se juntar a todos, sorrir, abraçar, celebrar e seguir o fluxo.
Sinceramente…
Se bastasse apenas cortar o acesso às redes sociais e à TV nessa época seria fácil, mas não é tão simples assim.
O contágio do espírito de fim de ano está em todos os lugares – não há como fugir.
Então, se você for como eu, e sente crescer ainda mais nessa época do ano o sentimento de não pertencimento, do desencaixe, estamos juntos.
Assim como foi no ano passado, serão longos 15 dias.
E, se você, para sua sorte, não é como eu, aproveita sua ficção natalina, desfrute de sua plenitude e de sua capacidade de se preencher de uma magia estereotipada e vazia, que tende a não ser mais do que isso.

Raquel Núbia

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Imagem retirada da internet

Empatia

É incômodo perceber como algumas coisas óbvias não são consideradas no nosso cotidiano, como conseguimos nos esquecer de princípios básicos que facilitam e guiam a convivência com nosso pares sendo amigos próximos ou não.
Já fazem algumas semanas em que eu me peguei pensando nisso e hoje, novamente, isso me veio à cabeça quase como um grito de revolta. Por isso me senti compelida a rascunhar pretensamente as orações que se seguem e espero, de verdade, que elas levem as pessoas, uma que seja, à reflexão:
– Ao abrir uma porta, peça licença.
Seja uma porta física ou simbólica. Não invada o espaço do outro, qualquer que seja, sem antes pedir autorização para entrar.
– Ao se queixar, seja assertivo.
Quando for relatar um problema alguém, vá direto ao ponto, critique a situação em si e busque melhorias. Não procure culpa ou culpados. E, principalmente, não desmereça um histórico de trabalho e ações por um tropeço.
– Ao se colocar, pense no outro.
Defendo sempre a necessidade de nos colocarmos como prioridade, mas isso não implica em desconsiderar o outro, quem nos cerca. Pense! Se você está triste, cansado, estressado, nervoso, angustiado, o outro também pode estar, no mesmo momento. O fato desse outro não falar nada ou não demonstrar, não significa que ele não sente, apenas que sente e demonstra de maneira diferente da sua. E quem disse que há maneira certa?
– Ao pedir atenção, tenha moderação.
Você pode sim deixar claro para quem te importa que gosta e aprecia companhia e que a atenção é importante. Mas tenha cautela para não se tornar um fardo que o outro carrega, uma obrigação a ser cumprida, pois laços forçados não são laços, são nós.
Certamente poderia continuar listando inúmeros outros itens, mas esse não é o intuito, não há necessidade de me prolongar, pois acho que todos já compreenderam aonde quero chegar. A empatia precisa deixar de ser uma palavra vazia ou um conceito utilizado somente com estranhos em situações extremas.
Se coloque sim em primeiro lugar, mas lembre-se que você não está sozinho e sim cercado por uma multidão que não tem a menor obrigação de pensar, ser e sentir como você.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia