Da janela

Tenho visto a vida
Passar pela janela.
Tenho visto a manhã clarear
E tudo o que vem com ela.

Da janela eu vejo gente,
Vejo carros e vida a passar.
Cada um com seu destino,
Na pressa de seu caminhar.

Minhas horas, que hoje eu conto,
Passam de forma diferente.
É da janela que os ponteiros somam,
Ao passar de tanta gente.

Da janela eu vejo a tarde,
Que vira noite, impiedosa.
E depois são madrugadas
Que são sempre melindrosas.

Da janela eu observo,
Pois o que me cabe é solidão.
De acompanhada estar só
E ver bater fora de mim, meu coração.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia
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Remanescer

Vitória pra mim é conseguir fazer as unhas depois de três semanas “sem coragem”. É conseguir terminar uma manhã inteira sem pedir um milagre pra Deus, e ainda ser capaz de ligar o som e ouvir alguns acordes pra embalar as horas.
Vitória pra mim é enfeitar os dedos com anéis depois de tanto olhar direto e passar batido pelos penduricalhos. É passar as mãos pelos cabelos e sentir que a missão descomunal de lava-los por dois dias seguidos, foi cumprida e hoje os fios caem leves.
Vitória pra mim é vestir uma calça lavada, com todos os reparos feitos e uma blusa que não me aperta nos braços depois de tanto adiar colocar as coisas em ordem. É chorar de tanto rir ao lembrar do susto que veio após um sonho ruim.
Vitória pra mim é conseguir encher a folha de papel com a letra redonda e pequena, característica da calma e não com palavras deitadas que prostram sobre as linhas para alcançar o pensamento. É seguir com a respiração leve e o coração batendo no compasso.
Vitória pra mim é estar de porta aberta e sorrir ainda que haja dúvida e incerteza logo acima.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Costume

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A gente se acostuma com a ausência
Se acostuma com a casa vazia.
A gente se acostuma com a falta
Com o dia a dia.

A gente se acostuma com as negativas
Se acostuma com o que não pode fazer.
A gente se acostuma com o distanciamento
Com o que não pode ter.

A gente se acostuma a caminhar longe
Se acostuma a não interagir.
A gente se acostuma a não demonstrar
A não se despedir.

A gente se acostuma a fingir sentimento
Se acostuma a fingir que não sente
A gente se acostuma a fingir que não vê
A fingir que não mente.

A gente se acostuma a não poder tocar
Se acostuma a ignorar a necessidade
Só não se acostuma com a ideia
De que viver uma vida certa,
Devido aos olhos alheios,
Não possa ser verdade.

Raquel Núbia