Altos e baixos

Às vezes é difícil falar sobre nossas dificuldades, sobre os momentos em que nosso ânimo rebaixa e que a gente se cansa. Quando pensamos em escrever, expor ou compartilhar, pensamos também na reação do outro, de quem vai ouvir/ler nosso relato.
O que vão pensar?
Será que vão se regozijar?
Estranho pensar assim, mas sabemos que existem pessoas que ficam no aguardo, mesmo que todos nós tenhamos altos e baixos, apenas observando.
Ou… Isso é só uma cisma da nossa própria cabeça que, cansada, começa a se perder em devaneios e abrir espaço para aqueles pensamentos que precisam ser controlados, pois são poderosos, tanto os bons quanto os ruins.
A gente pode ficar cansado, pode se sentir desgastado, vez ou outra a gente se abate e tudo bem. É até preciso que tenhamos esse momento para absorver o que nos aflige, penas no que sentimos para podermos elaborar, ressignificar e encontrar alternativas e saídas, formas de voltarmos ao nosso estado normal.
E tem hora que o que a gente precisa é só de um tempo mesmo, um tempo para nos afastarmos, darmos um passo pra trás para respirarmos, tomarmos um fôlego para conseguirmos ter um novo impulso para, aí sim, conseguirmos dar um salto maior e melhor.

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Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG
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Acho que estou desaprendendo a escrever.
Muitas coisas me vêm à cabeça no decorrer do dia, mas quase nada me vem traduzido em palavras, nem faladas, nem escritas. Geralmente tenho muita dificuldade para escrever quando estou me sentindo muito feliz, quando nada me incomoda… Mas não é o caso, porque dentro da minha mente o fluxo de pensamentos, sentimentos e principalmente questionamentos continua em um nível insano.
Talvez seja mesmo por isso que escrever, pura e simplesmente sobre algo específico, esteja sendo custoso… O que geralmente não é.
Além desse fluxo intenso que não deixa minha cabeça parar, sinto que algumas amarras me vem sendo impostas, não por alguém em específico, mas toda uma situação que faz com que eu mesma meça minhas palavras, já pensando em possíveis interpretações dos outros e isso é limitante.
São mordaças que eu mesmo tenho amarrado à minha boca e, mesmo que sejam necessárias e fonte de oportunidade de pensar e repensar antes de falar, algumas vezes impossibilitam de nos expressarmos e para mim, a expressão por forma da escrita é também uma maneira de elaborar o que se passa comigo.
Mas, pensando nisso e algumas outras coisas nesses últimos dias, culminando com algo me dito hoje, acho que essa dificuldade em escrever e por consequência falar, dizer algo, vem também da sensação de que os outros não querem ouvir.
Algumas pessoas têm muita dificuldade em ouvir mas acima de tudo, de compreender os outros e quando escutam ou observam, suas devolutivas são baseadas em suas vontades e necessidades, não de quem fala.
Pode parecer confuso, mas não é.
Se estou de luto e me visto de preto, expresso algo que sinto, presto uma homenagem a alguém. Alguém pode se dirigir a mim e fazer um longo discurso motivacional sobre a importância de se sobrepor o luto e retomar as rotinas de forma habitual, tirar o preto e elaborar a perda de uma forma mais colorida.
Como Psicóloga, sei bem como funciona o processo do luto…

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Mas de quem realmente é a necessidade do luto colorido? O quão legítima é essa preocupação? O quanto foi pensada no próximo? Será que não estamos dirigindo aos outros nossas próprias necessidades e os moldando de forma que os benefícios e melhorias venham para nós mesmos e não para quem precisa?
Sinto muito que quem nos cerca tenha tanta dificuldade em enxergar o outro, os outros, perceber da importância de suas atitudes, decisões, indecisões, escolhas e dúvidas para todos e não para um.
Sinto muito que cada vez mais estejamos nos fechando em um mundo em que nos colocamos no primeiro lugar e nem sequer praticamos hábito da empatia, de se colocar no lugar do outro.
Não sei se estou me conseguindo fazer entender porque, apesar de claro na minha mente, me questiono se consigo explicar isso que sinto. O que sei é que sinto. E por sentir, sinto muito.

Raquel Núbia

Vivo na terra, mas às vezes…

Nunca fui de ter muitos amigos, nem nunca fui de ser o centro das atenções. Nunca fiz questão de reconhecimento público ou demonstrações públicas de afeto. Não gosto de muita “invenção de moda”, nem gosto de gente que faz muito rodeio. Não gosto de pessoas medrosas e muito menos das que colocam medo nos outros. Nunca fui daquelas que usam o amigo para aparecer. Nem conheço as pessoas pelo sobrenome, por sua filiação ou conta bancária. Nunca fui de tirar fotos para mostrar como sou feliz, nem faço questão de ser convidada para ir onde todos estão. Nunca me endividei para poder vestir grife e nem “pendurei” a conta no salão. Nunca viajei para fora do país, e foram poucas as vezes que saí do estado. Mas…
Os poucos amigos que conto em uma mão são aqueles para todas as horas e para a vida toda, para eles sou o mundo assim como eles são para mim. Os carinhos que recebo não precisam de testemunhas porque sinto sua verdade nos gestos do dia a dia. Quando falo é porque tenho certeza e principalmente quando a pessoa que pergunta vale o esforço de verbalizar… e se não quer me ouvir falar, não pergunte minha opinião. Minha presença não é imposta, meu sobrenome é apenas herança da minha família e não um marca que tento impor. Minhas memórias são guardadas no coração e nas palavras que escrevo. Minhas roupas são as que gosto e meu cabelo está ótimo de coque com grampo. Minhas viagens são para os destinos mais maravilhosos do mundo porque não me importa o lugar e sim as pessoas.
Vivo na terra, mas às vezes parece que sou de outro planeta.
Porque para suportar algumas coisas que nos cercam, só mesmo apelando para nosso próprio mundo.

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Raquel Núbia