Faz de conta

Tem hora
que a gente finge ser adulto,
em que a gente fica gigante,
se finge de gente grande.

Tem hora
que a gente esmaga os problemas
E o que mais aparecer,
que fica fácil resolver.

Tem hora
que a gente comanda toda vida.
que a gente é rei e rainha
e nem vê que ta sozinha.

Mas…

Tem hora
que a gente desaparece
e até se esquece
do adulto que quis ser.

Tem hora
que a gente se desespera
e fica na espera de,
quando tudo passar, crescer.

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Muriaé/MG

 

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Atimia

Tem hora que parece que volto no tempo e me voltam interesses de tanto tempo atrás. Eu começo a querer fazer coisas e ter sentimentos velhos, fico saudosa do que já vivi, as alegrias que tive e das coisas que já senti.
Bate uma nostalgia… uma falta de algumas pessoas, das histórias ligadas a elas, das situações, até dos cheiros, sensações, das roupas, dos planos e dos sonhos.
Quando menos espero, percebo que tudo isso está num passado tão distante, que essas pessoas das quais sinto saudade, aliás, mais nostalgia, estão em outro momento, assim como eu também estou, mas sem nem sequer devem se lembrar desse passado.
Eu tenho sempre saudade do céu azul limpinho e das manhãs frias que o acompanhavam… do sol quentinho das 9h30, do perfume e do cheiro das pessoas. De como costumava achar tudo tão importante e da vontade que tínhamos de resolver tudo de pressa.
Nossos maiores problemas estavam sempre no futuro e agora que o futuro chegou, o presente traz problemas tão maiores… nos quais eu não vejo importância, nem urgência, muito menos vontade.
O futuro chegou e eu acho que meu eu do passado não está nada orgulhoso do eu de hoje e assim eu não vivo nem lá, nem cá.
Por que as manhãs não podem ser sempre frias e de céu azul?

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Tiradentes/MG

Pueril

rPor que a gente tem que crescer?
Eu não me lembro de, quando ainda criança, querer ser adulta… Já adolescente eu fazei muita coisa que queria fazer. Não esperada “crescer” para alcançar nada em especial e hoje, já mulher feita, sinto alguns dias a vontade e a saudade da tranquilidade de outrora.
Do sábado de manhã na cama, ouvindo a máquina de lavar roupa rodando lá na área. Da lasanha de domingo ficando pronta sempre na mesma hora. Da sopa de macarrão pra curar gripe…
Hoje, se o corpo doi com resfriado, é esse mesmo corpo que tem que ir atrás do remédio e do copo de água… E a sopinha vai ficando pra outra hora…
Eu sei que por um período de tempo fui mal acostumada, eu confesso, mas quem é que não gosta de uma mordomia, não é?
Hoje eu tento não esperar esse cuidado de outros… Ninguém cuida da gente como a nossa mãe e às vezes esse cuidado não cabe mais.
Mas tem aquele dia que a gente tá com aquela vontade de que alguém apareça e resolva nossas dores e decida nossas indecisões, como se voltássemos a ser um neném que é levado pra lá e pra cá conforme a necessidade dos pais.
Só que de neném aqui não tem nada. E se a gente mesmo não se levante e vai, ninguém se levanta e vai por nós.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia