Inspiração

O vento soprando.
Uma folha no chão.
Uma voz falando.
O coração.

Música tocando.
Lembrança esquecida.
Alguém passando.
A vida.

O amor sentido.
A raiva guardada.
O momento vivido.
A chance passada.

A alegria no peito.
A lamúria da alma.
O poema perfeito,
Vindo da calma.

Letras combinadas.
Mensagens escondidas.
Frases embaralhadas.
Pessoas queridas.

Tudo ao redor.
Tudo o que o olho vê.
Necessidade maior.
Prazer.

A escrita do dia.
Constante pulsação.
Real ou fantasia.
Inspiração.

Sem fim.

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Foto: Raquel Núbia – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Um sentimento

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Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ

Tantas folhas em branco, prontas para receber seja lá o que for que vier dessa minha cabeça pensante e desse coração que, hoje, bate apertado, meio sem vida e calejado. Quando a mente fica agitada e o peito angustiado, a tendência é que se cale o exterior ou, pelo menos, que se cale a verdade e apareça somente o que deve aparecer, já que nem sempre há vontade ou necessidade de se mostrar totalmente.
E, às vezes, não há vontade de nos mostrarmos nem para nós mesmos. Apenas nos reservamos, guardamos o silêncio interior e apenas esperamos o tempo correr, desanuviar os olhos e “desembargar” o nó na garganta.
Tem dias em que bate uma tristeza… Um clamor por se envolver dentro de nós mesmos, nos encapsular para buscar proteção do que vem de fora e nos atinge. Tem dias em que o ouvido pede a música triste e as cordas vocais pedem o cantarolar de uma melodia sofrida. E tem dia em que é exatamente disso que precisamos: um tempo para sofrer.
Um tempo para nos entristecermos pelo que quer que seja.
Por uma ausência sentida, pela surpresa negativa que veio de onde não se esperava, pelo sentimento de “desimportância” ou qualquer outra tristeza sem motivo. Para que motivo?
Há momentos para tristeza. Não se engane, ela existe e pode ser bem vinda, pois após sentida ela pode se transformar, gerar outro sentimento. As razões que podem ser solucionadas, que sejam. E o que não puder: paciência.
O coração pesado que chora e faz chorar é o mesmo que bate forte e sorri, às vezes precisa apenas de um tempo e um pouco de força para sair do lugar e bater aliviado novamente.

Raquel Núbia

Manuscrito

E olha só pra mim… Que sempre precisei de um rascunho pra escrever, vendo a mão redigir a letra e depois a palavra, pra só então tornar público o que o coração sussurra e a mente fala, aqui catalogando de primeira o batucar do meu peito.
E como batuca esse sujeito…

Pensava antes em dizer como estou reaprendendo, reencontrando, recomeçando… mas agora o que pulsa é que no meio desse monte de segundas, terceiras e infinitas chances disfarçadas de novas oportunidades, eu ainda tenho me reservado o direito de sentir.

Sinto diferente pelas mesmas coisas, sinto diferente pelas mesmas pessoas, sinto diferente até pelos mesmos sentimentos e as vezes não sinto nada… não preciso sentir.

Por hoje guardo o caderno dos manuscritos e liberto os pensamentos no improviso, como tenho me permitido fazer, ainda que poucas vezes, nas últimas semanas.

Quem é de letra no papel tem dificuldade com a tela em branco. Quem é de coração cheio tem dificuldade com coisas vazias.

Mas a tela que era branca agora está cheia de significado e o que é vazio ao meu redor não consegue mais me esbarrar, pois estou preenchida demais, não há espaço para o que não importa.

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Raquel Núbia

Estouro

Quem, por vontade própria, deseja se apaixonar?
Entregar o peito aberto para outra mão cuidar.
Colocar o coração pulsando sem nada a proteger
E esperar que nada de mal irá lhe acontecer.

Quem, em consciência, opta por essa insanidade?
De se deixar exposto em toda sua fragilidade.
Revelar profundamente o que sempre foi guardado,
Se mostrar inteiramente, de um modo inesperado.

Qual o tamanho dessa loucura?
Que tantos outros estão a procura.
Entregar a arma que pode tirar a vida
E confiar que quem a guarda é uma mão amiga.

Qual o sentido desse sentimento?
Que de tanto senti-lo se faz tormento.
É estar nua de todas as defesas.
Deixar n’outro domínio, alegria, tristezas.

Quem por vontade própria, deseja se apaixonar?
E se já entrelaçado, como se desvencilhar?
O peito que pulsa, insano, sem proteção.
Esperando cuidado do outro… Pobre coração.

Estouro

Raquel Núbia

Indagações

Quantas pessoas cabem dentro de mim?
Quantas pessoas posso ser?
Se tão igual e diferente ao mesmo tempo,
Se quando se acha já começa a se perder.

Quantos pensamentos cabem num só lugar?
Quantos podem haver?
Se tão claros e confusos ao mesmo tempo,
Se quando se estabelecem já começam a evanescer.

Quantas inseguranças cabem num coração?
Quanto mais há de bater?
Se tão pertinentes e infundados ao mesmo tempo,
Se quando fingem despedida, voltam a aparecer.

Dentro de mim, tantas pessoas.
Num só lugar os pensamentos.
No coração, inseguranças.
Tudo no mesmo momento.

Por quanto tempo mais?

Indagações

Raquel Núbia

Um dia

Um dia me chamaram para ser feliz
Adornei meu coração com flores de esperança.
Numa nova mala coloquei meus medos de criança
E parti em busca desse bem querer.

Mas as flores murcharam,
A mala se abriu,
O arco íris sumiu
E não mais me chamaram.

Um dia senti que andava só.
Limpei meu coração dos adornos desbotados.
Abri a mala antiga de sentimentos guardados
E quis, por uma vez, sentir que era mais.

O desbotado virou cor
O que era mais apareceu,
O que guardado esmaeceu
E o andar sozinho virou dor.

Um dia me chamaram para ser feliz.
Adornei meu coração com flores de amor.
Numa mala grande coloquei meus medos, meu ardor
E parti em busca desse bem me quer.

um dia

Raquel Núbia

A noite

A noite

O que guarda a noite
Que a manhã não pode dissipar?
Quantos medos esconde,
Que se perdem ao clarear?

O que guarda a noite
Que não se revela durante o dia?
Quanto choro esconde
Em forma de alegria?

O que guarda a noite
Quando não se vê esperança?
Quanta tristeza leva
Até que chegue a bonança?

O que guarda a noite
Quando a garganta prende o nó?
Qual a angústia daquele
Que, acompanhado, está só?

O que guarda a madrugada
Pelos badalos do sino embalada?
Não desata esse coração
Que já não pulsa uma mesma passada?

E o alvorecer, o que trará?
Talvez um fim para a tempestade…
Que o sol brilhe em sua grandeza,
Antes que seja tarde.

Raquel Núbia

Menina

Menina

Menina pequena,
Tão grande, serena,
Escute o meu falar.

Segue em frente,
O caminho presente.
Mas vigie seu caminhar.

Menina doce,
Tão forte, aí se fosse!
Não se deixe chorar.

E se chora,
Deixe passar a hora
Até se aquietar.

Menina, escuta:
Te pertence essa luta
E não a outro alguém.

Então pronto,
Recolhe teu pranto,
E não conte a ninguém.

Menina inocente,
Toma o que sente
E leve com você.

Não delegue
Aquele que te segue
O teu sofrer.

Menina, entenda
Por mais que outro compreenda,
Não lhe divida tua dor.

Jamais entenderão,
O que o teu coração
Guarda por amor.

Menina, desista
Não espere, nem insista
O outro vai ser capaz.

O socorro não virá,
A decepção se instalará,
Tanto fez, tanto faz.

Menina, encerro
Esse apelo sincero
De quem não te quer mais sofrer.

Segue a vida calada,
No peito a rosa cravada,
Que dia a dia ensina…

A viver só,
Menina…

Raquel Núbia

Mau humor x Tristeza

Há uma considerável diferença entre mau humor e tristeza, tanto aos olhos de quem vê quanto ao coração de quem sente… Como poderia alguém confundir um com o outro?

Talvez, para um observador externo, seja mais fácil aceitar que uma pessoa esteja mau humorada porque dessa forma, de quem mais seria a responsabilidade senão dela mesma? Afinal, de quem é a culpa por uma pessoa sentir raiva do mundo e não encontrar motivos nem para devolver um cordial ‘bom dia’?

Já para esse mesmo observador, se a pessoa está triste, aí vem um incômodo… Relacionado diretamente ao não saber o que fazer. Entretanto, até mesmo esse não saber pode estar embutido atrás de uma desculpa para não tocar no desconhecido e não se envolver, pois uma vez que você não olha, não vê. E se não vê, não é verdade.

Mau Humor

Será que alguma vez, nós observadores, já nos perguntamos como essas pessoas tristes se sentem quando rotuladas de outra forma? Quando tem sua tristeza negada?

A dor que sentimos é só nossa não cabe a mais ninguém tomá-la para si, mas será que devemos mesmo fechar nossos olhos e esperar que passe e preencher o vazio dos outros com outras coisas vazias?

O que mais seria uma prova de amor do que escutar e acolher a tristeza do outro, seja lá por qual motivo for e se essa pessoa não nos der motivo, não significa que este é inexistente e sim que a dor é tão profunda que não permite aos olhos da alma enxergar o problema.

Que fiquemos atentos!

Raquel Núbia

Aprendiz

Quantas vezes é preciso cair antes de aprender a permanecer de pé?
Quantas vezes é preciso chorar antes de aprender a manter o sorriso?
Quantas vezes é preciso prender o nó na garganta antes de aprender a falar?
Quantas vezes é preciso perder o momento antes de aprender…
São tantas incertezas escondidas no meio de tanta monotonia. É muita falta de ação aprisionando uma mente tão inquieta.
Que coração é esse que deposita cada batida no pulsar de outro?
Se coloca assim, tão aberto, se deixando tão exposto para se machucar. Não aprende a bater sozinho porque se coloca cada vez mais dependente de um sopro que vem de fora.
Por que faz assim?
Quantas vezes mais…

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Foto: Raquel Núbia

 

Raquel Núbia