Gracejo

Não ria se te conto um segredo.
É um pedaço de mim se revelando.
Não brinque ao descobrir que tenho medo,
e não gargalhe do que estou te mostrando.

Quantas vezes brincando eu disse tudo?
E alguém sorriu e se desfez sem nem notar.
Que, pra cada uma brincadeira que eu fazia,
Outra verdade escapava sem vacilar.

E, se escuta, não deixe passar em vão.
Se atente em ler mais do que é falado.
Pois o que guardo, pelo sim e pelo não,
Fica aqui, selvagem mas trancafiado.

Quantas vezes sorrindo eu quis chorar?
E alguém passou e seguiu sem perceber.
Que, pra cada riso que eu, simples, sorria,
Outra verdade eu prendia sem dizer.

Não ria se te conto minha alma,
E um sentimento que me toma, aprisionando.
Não brinque ao perceber, cedo ou tarde
que os meus versos sou eu me entregando.

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Foto: Raquel Núbia

Raquel Núbia

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Retrato

Um dia fui um retrato na estante,
E quem me olhava se alegrava ao me ver.
E com carinho e ternura acariciava,
Enquanto sorria quase sem querer.

Um dia fui um retrato na estante,
Que de repente se tornou uma dor maior.
E com tristeza e saudade eu fui olhada,
Enquanto alguém ali chorava ao estar só.

Um dia fui um retrato na estante,
Mas no outro dia, fui lembrança pra esquecer.
E com rancor e mágoa fui guardada,
Num canto escuro pra ninguém nunca mais ver.

Um dia fui um retrato na estante,
De quem hoje faz questão de não se lembrar.
Hoje nem rastro nem memória eu sou mais,
Daquele que um dia disse me amar.

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Foto: Raquel Núbia – Ouro Preto/MG

Raquel Núbia