Conselhos

Não te entregue aqueles que te estendem a mão.
Não tomes por certo quem te sorri.
Pois um sorriso pode esconder mil segredos
e a mão estendida pode ser a que te fará cair.

Não te abras feito um livro que é bom.
Não confie naquele que adentra teu lar.
Sua história pode virar conto em outras línguas
e a confiança, combustível para lhe queimar.

Não te alegres quando for lembrado.
Não se deixe levar pelo carinho alheio.
A lembrança é semente que germina o terreno
e o carinho é disfarce para o real anseio.

Não te faças no direito da liberdade.
Não coloque teu peite no que expressar.
A fala que teces pode ser um veneno
e o teu sentimento o que vai te depredar.

Não te entregues, não te abras.
Não te alegres, não te faças.

A verdade do outro acaba,
vai até onde os seus olhos podem ver.
Se confias no outro o que é seu,
o arrependimento é o prêmio que vais ter.

Raquel Núbia

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Foto: @juhneri

 

Sobre autores e personagens

Talvez, só talvez a vida seja isso mesmo… Um emaranhado de desejos e vontades e sonhos que apenas existem pra nos mostrar que há um limite.
Talvez a vida seja isso mesmo… Um eterno comparar de realidades em que nós nos perdemos imaginando “como seria se” e agradecendo “por não ser pior”.
Em tudo o que vivemos existe esse limbo, da insatisfação pelo que não temos, pelo que sabemos que nunca vamos ter e a gratidão pelo que não precisamos viver, nos submeter, pelo que escapamos dessa vez.
Sim… insatisfação pelo que sabemos que nunca vamos ter, pois apesar do que nos dizem, do que nos contam as línguas otimistas, nem tudo seremos capazes, nem tudo alcançaremos, alguns sonhos existem apenas para serem sonhados, mesmo que mudemos seu nome para metas e objetivos, alguns destes existem somente para nossa íntima frustração.
E tudo bem…
Tudo bem?
Tudo bem na conformidade de sabermos e entendermos que cada um tem um papel. Parece que o destino (Deus, talvez?) já escreve nossa história desde sempre e, para alguns as páginas vem com mais céu azul, com mais natureza, mas risadas, mais oportunidades, menos preocupações, pelo menos com o que é básico na vida da maioria. Para alguns há tempo, não há relógio soprando o passar das horas com tanto rigor e nem o peso de decisões diárias que roubam pouco a pouco a alegria do dia.
Só para alguns, as páginas estão repletas de lado B, de opõçes, de caminhos infinitos… E para outros, a maioria, parece que o destino (Deus, talvez?) caiu na monotonia do escritor enfadonho e apenas repetiu as frases que ocupam as linhas, sem a criatividade ou a generosidade que teve com os protagonistas, fazendo a grande massa apenas espectadora, por vezes sonhadora por vezes esmagada pela realidade das páginas preenchidas com mais do mesmo e permeada pelo tal limbo citado acima.
Quando a menta questiona muito o coração fica confuso, o peito pesa e a mente voa… Voa nas possibilidades que o pensamento traz mas se aprisiona ao encarar a verdade absoluta de que talvez, talvez a vida seja isso mesmo…

Raquel Núbia

2020-06-03
Foto: @eubrunolopez – Muriaé/MG

Numa terra distante…

Você já parou pra pensar em como é fácil admirar alguém de longe?
Quando se mantém a pessoa em uma posição em que não é permitido se aproximar, desvendar as fraquezas, os medos, as intolerâncias. Quando o que se vê é somente uma versão editada, polida e idealizada, dessas que mostramos aos outros quando tentamos vender nosso melhor lado.
Difícil mesmo é admirar a pessoa quando se tem dela o que é real em sua essência, incluindo suas dores e dúvidas, seus momentos de intempéries em que o sorriso não é fácil e onde o que se apresenta é o lado grotesco, degenerado, que solicita, o lado que guardamos para aqueles que mais amamos, pois se nos amam, nos acolherão, mas será que essa tem sido a realidade?
A quem temos acolhido e quem tem nos envolvido quando o que temos é somente isso para ser?
O trânsito fora da normalidade, da beleza e da plenitude tão sonhada, tem implicado inevitavelmente na solidão que grita gritos mudos e que nos toca e estremece com todas as suas mãos.
Quando se tem o real, do dia a dia, com altos e baixos, qualidade e defeitos… Quando a balança dos prós e contras está equilibrada e não suspensa em uma realidade distorcida pela distância do que se almeja, aí sim é que reforçamos o vínculo em saber que se é amado mesmo quando não vemos motivos.
Ser perfeito e atraente de longe é simples.
Ser perfeito e atraente de perto é corda bamba.
Abraçar, respeitar e admirar o imperfeito e a falta de beleza que há nas pessoas, é ser empático, é ter caráter e coragem.
Isso, infelizmente, é tarefa para poucos.

Raquel Núbia

 

2020-05-25
Foto: @eubrunolopez – Engenheiro Coelho/SP

Sem razão ou por que

Será que as pessoas já pararam para pensar na quantidade de esforço que é necessário para manter o foco, a energia e o estado de espírito elevado? Quando paro pra pensar, mas pensar de verdade, numa análise quase absurda, em detalhes dos motivos pelos quais fazemos o que fazemos, a conclusão inevitável é de que nada faz sentido e nada importa.
O que tem valor hoje, no mundo que vivemos, só tem porque um dia alguém disse que tinha. O que é considerado importante, também segue o mesmo padrão de definição. Então quando paramos e nos perguntamos o porque das coisas, vemos que estamos como hasmters correndo em uma roda que gira e gira sem chegar a lugar nenhum.
O mundo tem sido um lugar estranho (independente da pandemia), um lugar em que as coisas, por vezes, parecem invertidas. Em que pessoas boas sofrem e pessoas de caráter duvidoso tem êxito… Por isso, no início eu disse que é necessário muito esforço para se manter positivo e persistente, porque todas as indicações e avisos nos dizem para fazer o contrário.
A gente usa muita energia pra manter o olhar voltado pro que é bom e isso nem sempre é fácil, ainda mais quando a gente perde um pouco o significado do que porque manter esse olhar…

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Aqueles que não são plural

Nós somos tão raros e  nem percebemos… Não damos conta de como guardamos um universo inteiro dentro da gente, de como somos feitos de sonhos, esperanças, emoções.
Nós não nos percebemos valiosos, pois a todo tempo existe algo ou alguém nos apontando o contrário. Alguém que por vezes também tem tanto valor e ainda assim se limita no prazer de provocar no outro o que ele mesmo sente de ruim, de pequeno. Instiga no outro o que lhe tira o próprio brilho e que lhe corrói por dentro por não saber o que fazer com tudo aquilo.
E quem cultiva em si o campo germinado do amor, costuma se entregar e compartilhar de suas sementes sem nem mesmo conseguir pensar que quem pede o alimento e a beleza tão prestes a brotar, não é capaz de sentir satisfeito ou contemplar a flor que nascerá de suas mãos.
Nós somos raros e cada vez mais escassos. Nós somos raros e cada vez mais amedrontados ainda que permaneçamos com o peito repleto do que que falta no mundo.
Nós somos o que sabemos ser e vivemos do que nosso coração está cheio. Somos insistentes por teimar em sermos bons quando ao redor o mundo está em ruínas…
Nós somos o que resta da chance de um novo começo. Nós somos literalmente a pedra que resiste e por isso incomoda os que vivem de apontar nos outros o que falta em si mesmo.
Nós somos almas boas. Nós somos amor. E por isso, somos raros.

Raquel Núbia

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Foto: @tamara.loures

 

Sobre as incertezas no caminho

A grande verdade é que, nessa vida, a gente tá sempre tentando acertar, tentando fazer a coisa certa, tomar as decisões corretas que nos ajudem a chegar onde precisamos, que evitem o nosso sofrimento ou daqueles que amamos.
Mas outra grande verdade é que, em grande parte das vezes ou, pelo menos em algumas delas, não temos a menor ideia do que estamos fazendo e apenas seguimos em frente na esperança de estarmos fazendo o melhor, torcendo pra que tudo dê certo e termine bem no final.
Se fortalecer nesse processo pode ser difícil e podemos nos sentir sensíveis, frágeis… Suscetíveis ao dizer e fazer dos outros. Esse processo pode ser cansativo, desgastante, mentalmente desafiador e nem sempre vamos nos manter confiantes e fortalecidos o tempo todo, mas percorrer o caminho é necessário, mesmo sem a certeza de quando haverá uma linha de chegada, nem sequer tendo a certeza de que essa linha existe.
É preciso ter bom ânimo e nisso tudo é preciso também aprendermos a contar com a gente mesmo acima de tudo e de todos.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia. Muriaé/MG

 

Luminoso

Sou tão jovem e nada sei,
Mas sei que guardo em mim
um amor imensurável,
um amor sem fim.

Te olho nos olhos e vejo
a imensidão em um ser tão pequeno.
Que é grande no que faz sentir,
que é tormenta e que é sereno.

Um pedaço de mim que vive.
Que respira e bate coração.
A obra perfeita do Pai
que pedi em oração.

De tudo que eu não conheço,
e das coisas que um dia eu vi,
é o amor mais absoluto
que transborda do peito a sorrir.

Sou tão jovem e pouco sei,
mas sei que tenho em você,
um amor inabalável,
um amor que jamais vai morrer.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Aspiração

Quem me dera ser aquela que, com barulho, fecha a porta.
Ser ajuda que não sabe o que importa.
Quem me dera ficar fora e voltar pra uma parcela,
fracionar a vida e viver só parte dela.
Quem me dera levantar e sair por onde entrei,
me deitar e nem lembrar se eu sonhei.
Quem me dera ter o luxo de ser tantos e um só.
Ver a dor e no meu peito não ter dó.
Quem me dera a segurança de achar que estou certa,
e ter, após tantas coisas, mente aberta.
Quem me dera a chance de ser colo temporário,
ter caminhos que não são tão solitários.
Quem me dera ter vontade pra outras coisas e energia,
ter noite inteira de descanso ao fim do dia.
Quem me dera eu tivesse tanta facilidade…
e em coisas fúteis encontrar felicidade.
Quem me dera a esperança de dias melhores a espera,
De esquecer palavras duras,
curar feridas,
quem me dera…

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Alto Caparaó/MG

Aquele que pertence à luz

De todos os anjos do céu,
De todas as pessoas do mundo,
Dos sentimentos mais puros,
Do sentimento profundo.
De toda jovialidade,
Da falta de sabedoria,
Do amor que brota e cresce,
Da imensidão de cada dia.
Dos olhos que me buscam,
Do toque tão pequeno,
Do rosto angelical,
Do olhar sereno.
Da miudez de uma vida,
Da grandeza do sentimento,
Do amor incondicional,
Do vínculo de cada momento.
Da preocupação com bem estar,
Do desejo de plenitude,
Da vontade de ser tudo,
Do medo da juventude.
Do laço inquebrável,
Do dar-se sem perceber,
Do coração mais puro e terno,
Da nova vida a crescer.
De todos os erros e acertos,
Dos medos que se sente,
Do esforço diário e contínuo,
Da relação que brota da gente.
De tudo o que se aprende,
Do tanto que ainda não se sabe,
Do pouco que dá pra fazer,
Do mundo que me cabe.
Da sinceridade da insegurança,
De não ser o que é necessário,
Da vida que cabe nas mãos,
Do compromisso diário.
De todos os anjo do céu,
De um Deus que me dá guarida,
De um amor que é inexplicável,
De sempre, pra sempre, minha vida.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

Avelhantado

De tempo em tempo eu me reconheço como uma alma velha presa num corpo ainda a envelhecer. Às vezes experimento um cansaço das coisas, fatos e pessoas que somente almas velhas poderiam sentir… Ao mesmo tempo cultivo sentimentos velhos, empoeirados, que ficam guardados lá no fundo de uma gaveta tão velha quanto que de vez em quando o inconsciente deixa abrir, trazendo à consciência aquele cheiro de naftalina que conserva o que senti há tanto tempo e que insisto em manter guardado, mesmo sabendo que mantendo-os chegará o momento em que eles serão lembrados, ainda que não por vontade própria.
Tais sentimentos velhos são acordados por cheiros, pelo clima, por palavras, pelos meses que se repetem ano a ano e devolvem as lembranças do passado.
Tem dia que a gente acorda com gosto de ontem, do mês passado, dos anos anteriores, do que vivemos e nos marcou, do que ficou inacabado, do que não foi dito, do que foi pensado e repensado, do que nos disseram e do que nos fizeram silenciar.
Sentimentos velhos não me acrescentam em nada… Acredito que não acrescentam nada a ninguém, mas nem sempre disponho da energia de uma alma jovem para lembrar de esquecer.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia