Sobre os cárceres do dia a dia

A verdade é que muita coisa que se passa na cabeça da gente não chega a sair dela, não verbalizamos ou contamos para alguém. Apenas pensamos, repensamos e pensamos mais uma vez… Vez ou outra esses pensamentos não compartilhados saem em forma de somatização, ansiedade, tristeza, essas coisas que vão sufocando a gente aos poucos.
Às vezes nos sentimos infantis por nos apegar envoltos em sentimentos tão velhos, como se não pudéssemos ser capazes de admitir que algo que já deveria estar enterrado e esquecido ainda nos aborrece. Na prática não faz a menor diferença em nossas vidas, mas penso que essas coisas acabam nos movimentando de uma forma ou de outra.
Por que nos importamos?
Não sei.
Mas quem somos nós afinal, para acharmos que temos tanto valor e que merecemos um lugar constante na memória de terceiros?
Cada um escolhe como compartilha o que sente e todos temos que lidar com as consequências… Vivemos esperando mudanças drásticas e grandiosas acontecerem quando, na verdade, a vida anda empurrada pelas pequenas coisas, pelos sentimentos bons, nem sempre absurdos, apenas estáveis e não fantasiosos.
A vida é tão simples e tudo o que a gente precisa é viver o dia a dia, mas algumas coisas nesse cotidiano nem sempre são justas e fáceis. Às vezes é preciso quebrar a cabeça e o cansaço transcende o corpo. Mas, no geral, a vida é mesmo simples, basta nos ocuparmos de nós mesmos, sem olhar tanto para fora, para o outro.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Tiradentes/MG
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DIA #12 – 30 DAY CELEBRATION

12

Eu tenho muitas oscilações de humor e mantê-lo estável é uma luta diária, por isso quando tento pensar em um momento em que eu fiquei triste me vem algumas coisas na cabeça. Desconsiderando os momentos em que perdi pessoas queridas, pois todos eles poderiam ser listados como tristes, a primeira lembrança que me ocorreu para responder ao item de hoje foi essa:
Em 2014/2015 tive um problema de saúde, conforme já citei anteriormente, e devido a isso fui passar um tempo com meu irmão mais velho e minha cunhada, que moram em outra cidade. Depois de algumas semanas estava me preparando para retornar para minha cidade, para minha casa. Sabia que precisava retornar mas, ao mesmo tempo queria ficar mais pois aquele período fora, com pessoas e lugares diferentes, estava me fazendo bem. Mesmo assim minha vida estava me aguardando e com ela, as pessoas com as quais convivia e que, eu imaginava, estariam sentido minha falta.
Pois bem, na hora de colocar as malas no carro expressei, sem compromisso, como seria bom ficar mais uns dias e quase imediatamente, a pessoa que me levaria pra casa iniciou um discurso de que realmente eu deveria ficar mais uma semana, que não fazia sentido voltar já que eu não tinha “nada pra fazer” em casa, que não poderia voltar para me buscar no outro fim de semana mas que eu poderia ir de ônibus, etc, etc, etc.
Minhas malas foram retiradas do carro, ganhei um abraço e um beijo e enquanto via o carro ir embora, senti o quanto estava enganada quando achei que minha ausência era sentida. Me senti como um problema que foi passado de uma pessoa para outra, uma sensação de vazio e falta de carinho, me preocupava, sentia saudade, sentia falta e tinha certeza de que também sentiam isso. Mas na verdade, minha ausência era sentida quase como um período de férias e descanso.
Tentei não transparecer nada daquilo para meu irmão e minha cunhada mas, pouco depois fui “pega no flagra” enquanto chorava no quarto… Aquele momento foi muito triste e, posso dizer, que foi como um botão acionado que mudou bastante coisa nos meses que seguiram.
Aquela atitude doeu, mas a que se seguiu foi encantadora, pois percebendo meu desapontamento meu irmão e minha cunhada demonstraram tudo o que eu não havia visto dessa outra pessoa, tiveram toda paciência e carinho ao planejar o resto do dia para me tirar daquele lugar ruim e me levar para um lugar de luz, literalmente. E o programa que fizemos juntos foi inesquecível – poderia tê-lo citado como um dos momentos mais felizes.
Findando aquele período ficou mais forte pra mim a importância da família e de me lembrar sempre que, por mais que as pessoas jurem que te amam, te prometam estar contigo na saúde e na doença, nem sempre as palavras são ditas com intenção de serem cumpridas mas na família, pelo menos na minha, eu tenho um porto seguro. Sempre.

Raquel Núbia

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Foto: Leandro Oliveira – Tiradentes/MG

 

 

Vasca*

O sofrer da impaciência,
que aflige o pensamento.
Apreensão. Inquietude,
que acompanha a todo tempo.

Aflição e agonia.
Tormento e estertor.
É o mal da mente em chamas,
que se tortura com o calor.

Desassossego do poeta
que, no caos, encontra a rima.
Angústia e apreensão.
Ladrão de autoestima.

Receio, estresse, vasca.
O corpo em ebulição.
Escravo do futuro,
Com o presente em sua mão.

Contido ou generalizado,
o transtorno de ser perfeito.
É o remédio que mata
de efeito contrafeito.

Aspiração, avidez.
Esse inimigo interno.
Sofreguidão que acompanha,
até o descansar eterno.

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Foto: Raquel Núbia – Ouro Preto/MG

Raquel Núbia
*Vasca: Ânsia que precede os últimos momentos. Agonia. Momento extremo. Limite.