Alma

Entrega-te a dor
De vez como sempre quis.
Desiste da loucura incessante
da cura para seus males.

Sente de uma vez o frio
Que queima muito mais do que a pele,
escuta a voz dos anjos
e corre para o seu abrigo

Corre do escuro
ele pode te machucar.
Seu medo vai cortar você
se você não se despedir.

Sai de todo do meu corpo
procura outro estagio pra habitar.
Minha carne podre não te serve,
se solta e me deixe aqui.

Não há como crescer em mim.
Não há como lutar comigo
não há outra chance pra você
não há o que possa ser feito

Alma
Raquel Núbia
03/07/2009

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Solidão de rotina

Solidão.
Grande solidão.
Alguém andando sozinho na rua debaixo de chuva, se molhando inteiro, vendo todos os outros com seus guarda-chuvas e capotes sem receber uma gota sequer.
Alguém em meio a mais 50 mil “alguéns”, que está calado enquanto todos os outros falam e gritam.
Alguém assentado no banco do ponto de ônibus, escutando deliberadamente a conversa de outras pessoas ao seu lado e pensando sobre como são capazes de se enganar, ou tentar fazer isso.
Alguém que sorri de volta e se comporta. Apenas se comporta, esperando que um outro alguém, qualquer um dos 50 mil, leia no seu rosto que por dentro tem algo doendo, mas os 50 mil “alguéns” estão ocupados demais tentando a prática das pessoas do ponto de ônibus.
Grande solidão.
De alguém que teme falar sobre isso e engole tudo, mesmo sabendo o que isso lhe provocará.
Alguém que de vez enquanto acredita na exceção da pessoa que pergunta o que foi e inocentemente responde.
Alguém que responde somente para sentir a dor do descaso ou da superficialidade das respostas, e das soluções. A dor que aumenta a dor que já existe e reforça ainda mais a sua solidão.
Só alguém que se assenta no sofá de madrugada e sente o peito doendo de um jeito que faz o coração se levantar e exclamar “pelo amor de Deus!”.
Só solidão.
Ninguém por este alguém.
Este alguém que já nem sabe mais se realmente é.
Nem sabe mais o que é.
Alguém assentado no canto, escrevendo uma coisa qualquer.
Que não tem nem mais esperança de que outro alguém lerá, ou por um milagre de qualquer lugar fará com que o que está no papel seja subitamente captado por todos os outros.
Só solidão.
Só alguém.
Só.

city-girl-lights-love-Favim

Raquel Núbia
09/10/2007