Sobre os cárceres do dia a dia

A verdade é que muita coisa que se passa na cabeça da gente não chega a sair dela, não verbalizamos ou contamos para alguém. Apenas pensamos, repensamos e pensamos mais uma vez… Vez ou outra esses pensamentos não compartilhados saem em forma de somatização, ansiedade, tristeza, essas coisas que vão sufocando a gente aos poucos.
Às vezes nos sentimos infantis por nos apegar envoltos em sentimentos tão velhos, como se não pudéssemos ser capazes de admitir que algo que já deveria estar enterrado e esquecido ainda nos aborrece. Na prática não faz a menor diferença em nossas vidas, mas penso que essas coisas acabam nos movimentando de uma forma ou de outra.
Por que nos importamos?
Não sei.
Mas quem somos nós afinal, para acharmos que temos tanto valor e que merecemos um lugar constante na memória de terceiros?
Cada um escolhe como compartilha o que sente e todos temos que lidar com as consequências… Vivemos esperando mudanças drásticas e grandiosas acontecerem quando, na verdade, a vida anda empurrada pelas pequenas coisas, pelos sentimentos bons, nem sempre absurdos, apenas estáveis e não fantasiosos.
A vida é tão simples e tudo o que a gente precisa é viver o dia a dia, mas algumas coisas nesse cotidiano nem sempre são justas e fáceis. Às vezes é preciso quebrar a cabeça e o cansaço transcende o corpo. Mas, no geral, a vida é mesmo simples, basta nos ocuparmos de nós mesmos, sem olhar tanto para fora, para o outro.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Tiradentes/MG
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“Ponto&Vírgula” – Post 04

Dos dois lados da mesa

Como profissional da área de saúde mental, é tão comum falar sobre ansiedade… Perco a conta de quantas pessoas me falam que estão se sentindo ansiosas, que seu maior defeito é a ansiedade, etc, etc, etc…
Sendo Psicóloga e conhecendo algumas das teorias que podem explicar essa desordem, é muito claro suas possíveis origens, como se desenvolve, seus sintomas, como pode afetar a vida do sujeito e quais os caminhos para ser superada.
Entretanto, antes da Psicóloga, já existia uma pessoa. E ainda que eu já tenha aprendido a lidar com minhas mazelas, elas não deixaram de existir, apenas se apresentam de maneira mais amena (algumas vezes) e, quando aparecem, fica menos difícil agir sobre elas.
Estando dos dois lados dessa mesa, como Psicóloga e cliente, o que posso dizer é que não é fácil, não é mesmo?
Não é impossível, mas pode ser difícil.
Nossa mente pode ser tão traiçoeira que espanta o que ela pode nos aprontar. Criando teorias, possibilidades, relembrando coisas de um passado distante que nem mesmo conseguimos saber se o que lembramos é realmente algo real ou algo que só existe em nossas memórias.
Mas, como já disse um velho bruxo “Claro que está acontecendo em sua mente (…) mas por que isso significa que não é real?”… Pode ser real sim, e muito.
Essa ansiedade tão insistente pode nos apontar nossos principais defeitos, fraquezas, nos lembrar nossos erros, das pessoas que nos magoaram, as coisas que queríamos dizer mas, de alguma forma, não conseguimos. E isso tudo acontece em forma de avalanche!
Como e possível que exista alguém que possa dizer que essas coisas não existem se eu as sinto latente quando meu coração dispara, mesmo que eu esteja sã e salva no frescor da minha sala com ar condicionado?
E falar em coração acelerando não é uma metáfora… É real, com ausculta médica, com laudo, pedido de exames pra investigar o porque de tal taquicardia. É real, com eletrocardiogramas, com médicos interrogando qual tem sido meu estresse atual em busca de uma razão já que nada fisiológico é capaz de explicar.
E a gente acaba ficando com raiva da gente mesmo, por ser capaz de racionalizar tudo e ainda assim não ser capaz de manter o controle. Por ser capaz de saber a insignificância dos fatos e pessoas e ainda assim se deixar afetar por eles, ainda que momentaneamente. Tantos gatilhos…
Como eu disse anteriormente, não é fácil e em alguns momentos pode ser quase insuportável, mas não é impossível. A gente consegue.
Só precisamos nos lembrar de que nada dura pra sempre. Por pior que seja o momento de ansiedade, ele passa. Por mais que demore, que seja intenso e sufocante, ele passa.
Sempre passa.
Basta aprender a esperar e nos fortalecermos para enfrentá-lo na próxima vez que resolver das as caras.
Seguimos em frente.

Raquel Núbia

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“Ponto&Vírgula” – Post 03

A difícil arte da “escolha”

As pessoas que sofrem de ansiedade, depressão, ciclotimia entre outros transtornos do humor sabem muito bem como é viver com esse sintoma.
O que, para uns, é uma tarefa comum, feita e repetida inúmeras vezes por dia, para aqueles acometidos por estas doenças é um trabalho hercúleo: escolher algo.
E aqui eu não me refiro á escolhas que realmente necessitam de grandes reflexões e análises como por exemplo, mudar de emprego, terminar um relacionamento, fazer uma viagem cara. Aqui eu me refiro a decisões corriqueiras como a roupa que se vai vestir, o que comer e aonde ir com os amigos entre tantos outros exemplos que poderia citar.
Eventualmente todos sentimos essa indecisão, não se preocupe, se você não consegue decidir se vai comer churrasco ou comida japonesa, porque á um grande diferencial entre a dificuldade de escolha considerada “normal” e a considerada sintoma.
Sabe qual é?
O sofrimento.
Na vida de um ansioso, depressivo, a dificuldade de escolher não vem somente da dúvida entre as opções, mas sim de uma infinidade de variáveis que são analisadas na velocidade da luz dentro de uma cabeça que parece que não vai conter tantos pensamentos.
Não se trata apenas de escolher um restaurante para sair em uma sexta a noite, mas sim de percorrer a possibilidade de:
“Será que eu consigo encontrar uma roupa que fique legal, talvez não consiga arrumar meu cabelo, e se chegar no restaurante marcado e não tiver mesa? Para onde poderemos ir? Se for, o que vou comer, afinal estou tentando me alimentar melhor e estar em um local com tantas tentações pode não ser fácil. E se eu tomar uma cervejinha hoje e quiser tomar outra amanhã? Vai prejudicar meu plano alimentar. Será que vai dar tempo de fazer meus exercícios antes de sair? E se não for legal lá e eu quiser vir embora, o pessoal vai ficar chateado… Eu trabalho tanto, quase não fico em casa, mas também quase não saio justamente porque trabalho muito. E tem a questão do dinheiro… Será que esse jantar não vai estourar meu orçamento? Vai que acontece um imprevisto no mês e eu fico sem dinheiro! Melhor ficar em casa. Mas meus amigos querem tanto ir… Como faço pra não ir sem chatear as pessoas? Etc, etc, etc…”

“Simples” assim.
Esse fluxo constante pode impedir que a escolha seja feita e não apenas porque a pessoa é indecisa, mas sim porque ela está realmente incapaz de decidir. E quanto mais ciente ele está deste incapacidade, mais angustiante é a situação, como num ciclo crescente.

Sendo assim, paciência.
Se você é a pessoa que vive esta situação, tente pensar racionalmente sobre todas as dúvidas que passam pela sua cabeça. Tente encontrar soluções racionais para seus questionamentos. Por exemplo: “Se estou com receio de estourar meu orçamento, posso separar a quantia que poderei gastar e, ao chegar no restaurante, garantir que ficarei dentro desse limite. Se eu não conseguir fazer todos os meus exercícios antes de sair, posso compensar na próxima vez em que me exercitar e etc.”
A princípio não será fácil.
Mas isso é uma questão de treino, tentativa, erro e acerto.
O importante e não desistir, apenas descansar quando for preciso.
Agora, se você percebe esse comportamento em alguém próximo, tente estimular aos poucos para que a pessoa consiga tomar pequenas decisões e fazer pequenas escolhas.
Caso perceba que esta pessoa está se sentindo sobrecarregada, tente fazer alguns ajuste para ela.
E saiba que pressionar uma decisão jamais será o melhor caminho.

Abraços,
Raquel Núbia

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Faz de conta

Tem hora
que a gente finge ser adulto,
em que a gente fica gigante,
se finge de gente grande.

Tem hora
que a gente esmaga os problemas
E o que mais aparecer,
que fica fácil resolver.

Tem hora
que a gente comanda toda vida.
que a gente é rei e rainha
e nem vê que ta sozinha.

Mas…

Tem hora
que a gente desaparece
e até se esquece
do adulto que quis ser.

Tem hora
que a gente se desespera
e fica na espera de,
quando tudo passar, crescer.

Raquel Núbia

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Muriaé/MG

 

Destempero

No equilíbrio há um lugar sempre vazio.
Que quem escolhe e consegue faz morada.
Se manter lá é quase sempre um desafio,
Para uma vida que segue descontrolada.

Quem nunca chega a encontrar esse lugar,
Na corda bamba leva os dias se apoiando.
De extremo ao outro vai e se deixa levar,
E quando pensa estar indo, vem voltando.

E tão distante desse lugar tão perfeito,
O meio termo passa longe de existir.
É destempero o nome dado a esse jeito,
De quem não coloca limites ao sentir.

E qualquer ser seguindo na destemperança,
Hora ou outra esbarra em quem está ao redor.
Da explosão, logo volta a bonança,
Mas os estilhaços causam dano maior.

Qual a sorte daquele que vive desesperado,
Por não possuir o controle em sua mão?
Que quando nota já se perdeu descontrolado,
Causa mal ao corpo, alma e coração…

Quem dera houvesse um escudo a proteger,
Do destempero dos aflitos, o feliz.
Pois nem sempre há como se proteger,
De toda explosão que sempre deixa cicatriz.

São Tomé das Letras (8)
Foto: Raquel Núbia – São Tomé das Letras/MG

Raquel Núbia

Vasca*

O sofrer da impaciência,
que aflige o pensamento.
Apreensão. Inquietude,
que acompanha a todo tempo.

Aflição e agonia.
Tormento e estertor.
É o mal da mente em chamas,
que se tortura com o calor.

Desassossego do poeta
que, no caos, encontra a rima.
Angústia e apreensão.
Ladrão de autoestima.

Receio, estresse, vasca.
O corpo em ebulição.
Escravo do futuro,
Com o presente em sua mão.

Contido ou generalizado,
o transtorno de ser perfeito.
É o remédio que mata
de efeito contrafeito.

Aspiração, avidez.
Esse inimigo interno.
Sofreguidão que acompanha,
até o descansar eterno.

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Foto: Raquel Núbia – Ouro Preto/MG

Raquel Núbia
*Vasca: Ânsia que precede os últimos momentos. Agonia. Momento extremo. Limite.

Navegando

Uma foto borrada,
Uma imagem apagada,
Já nem sei mais quem sou.

Uma foto da estrada,
Um caminho no nada,
Já nem sei pra onde vou.

A foto de um sorriso,
De um lugar, um paraíso.
Nem sei onde pertenço.

Uma foto sem aviso,
De algo que eu nem preciso.
Já nem sei o que penso.

navegando

Uma foto, inspiro.
Um desejo, suspiro.
Não sei o que fazer.

Uma foto borrada,
Uma imagem apagada,
Já nem sei mais quem ser.

Raquel Núbia