Sobre o pôr do sol de cada dia

O fim de tarde sempre foi um momento desafiador pra mim, o findar do dia, a cor alaranjada que costuma riscar o céu, o cheiro de rua movimentada no fim da tarde, o transformar gradual da luz, quando cai a noite e nos avisa que mais um dia passou, acabou. Um dia que jamais teremos de volta, seja para o bem ou para o mal.
Quando o vento do outono ainda faz sua participação especial, soprando fresco, por vezes frio, emoldurando essa passagem vespertina, o sentir se torna ainda mais pesado. Talvez eu seja mesmo apegada às estações e me sinta incapaz de desvencilhar minhas memórias dos tons e cheiros que elas me trazem.
O início da noite, atualmente, tem sido apenas um lembrete de que o dia que está por vir se repetirá em sua totalidade, seja cercada pelas paredes de casa ou pela imensidão do trabalho, a certeza é de que pouco ou nada sairá dos eixos e essa repetição torna esse encerramento das horas ainda mais angustiante.
Parece que me sinto implodir em silêncio, pois o que me rodeia não me permite nem mesmo gritar, seja literal ou figurativamente. Me sento de costas para a varanda, fingindo não perceber que o céu já está trocando de cor e mentalizando que são apenas pensamentos que daqui a pouco se vão distraídos pelos afazeres que em minutos preencherão o que o relógio chama de noite.
Nesse recorte solitário, nostálgico e com gotas de tristeza, me deixo desvanecer, pois a força necessária para estar sempre bem, também parece ir embora quando o dia acaba.

Raquel Núbia

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Foto: @raquel__nubia – Muriaé/MG

Dos sentimentos que voltam

Eu não sei.
Tem momentos em que a gente parece que entra num túnel do tempo e volta lá para aqueles dias frios e estranhos que já viveu. Para as horas incertas que passavam de maneira tão inesperada.
Eu não sei.
Tem momentos em que parece que a gente sente falta da falta de sossego e caça com as próprias mãos um motivo para não descansar, para “desaquietar” o coração.
Quando as noites ficam frias e os fins de tarde são banhados pela chuva, parece tão fácil voltar a tantas outras noites gélidas em que a música embalava o caminho e tantas pessoas se misturavam, dificultando o sentir verdadeiro e colocando em cheque os sentimentos mais certeiros.
Eu não sei.
Hoje sinto que preciso recorrer a metáforas e analogias, pois a vontade de falar pra fora apareceu, mas nem sempre querer é poder e, por mais que o desejo seja despejar tantas coisas guardadas, não me permite o coração.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia

 

Palavras da noite

Terminado mais um dia me sinto incapaz de banir os pensamentos que chegam a essa hora da noite… Novo dia nos aguarda amanhã trazendo um pouco mais do mesmo e um pouco menos do que queremos.
Cada dia livre reflete um pouco da prisão que nos contém o correr do tempo e todas as exigências que ele faz… Ao mesmo tempo que olho a volta buscando tantos caminhos, peço ao universo que não me condene pelo crime da ingratidão de não me satisfazer jamais…
Seguimos… Pedindo que os dias corram rápidos mas que, ao mesmo tempo, o tempo passe devagar. Deus, lá de cima, deve estar confuso… Talvez, não mais que eu.
O céu agora escuro em poucas horas vai clarear. Se ao menos também clareasse minhas ideias! Aliás, talvez seja essa a origem do desconforto… Ideias claras demais para um cotidiano tão nublado.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

 

Vento da tarde

Esse vento da tarde
Que lembranças me traz…
Frescor do anoitecer
De um dia que se desfaz.

Esse vento da tarde
Que aperta meu peito…
Memória que dorme
De um tempo perfeito.

Esse vento da tarde
Que só mente pra mim…
Me diz que é passado
O que nunca tem fim.

Esse vento da tarde
Que traz o fim do dia…
Me guarda a angústia
Mais do que deveria.

Esse vento da tarde
De um dia que se desfaz…
Frescor do anoitecer
Que lembranças me traz.

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Imagem: favim.com

 

Raquel Núbia