Gracejo

Não ria se te conto um segredo.
É um pedaço de mim se revelando.
Não brinque ao descobrir que tenho medo,
e não gargalhe do que estou te mostrando.

Quantas vezes brincando eu disse tudo?
E alguém sorriu e se desfez sem nem notar.
Que, pra cada uma brincadeira que eu fazia,
Outra verdade escapava sem vacilar.

E, se escuta, não deixe passar em vão.
Se atente em ler mais do que é falado.
Pois o que guardo, pelo sim e pelo não,
Fica aqui, selvagem mas trancafiado.

Quantas vezes sorrindo eu quis chorar?
E alguém passou e seguiu sem perceber.
Que, pra cada riso que eu, simples, sorria,
Outra verdade eu prendia sem dizer.

Não ria se te conto minha alma,
E um sentimento que me toma, aprisionando.
Não brinque ao perceber, cedo ou tarde
que os meus versos sou eu me entregando.

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Foto: Raquel Núbia

Raquel Núbia

Relembrando: Sublime

Valendo um exemplar do livro “Verba Volant. Palavras, leve-as o vento” para o primeiro que adivinhar a mensagem subliminar contida na poesia relembrada abaixo 😉 Para ler o post original basta clicar aqui.

Sublime

Bom dia a todos!

Raquel Núbia

Sobre as incoerências do cotidiano

Engraçado (só que não) como a gente às vezes (quase sempre) cala um tanto de coisas e sai carregando conosco uma bagagem de frases não ditas, discussões não finalizadas, problemas e assuntos não resolvidos.
Já perdi a conta de quantas vezes testemunhei a incoerência acontecendo bem diante de mim e nem sempre pude me expressar, quase engasgando. Veja só:
De pessoas que se martirizavam por não poder amar, ouvi que meus olhos são vazios assim como meu coração.
De quem deixa em branco as páginas do que diz amar, ouvi que meus textos também são vazios (reflexo dos meus olhos e coração? Não sei…).
De pessoas que nem sabem o que faço e quais são meus resultados, ouvi que não sou boa profissional.
De pessoas que me cercavam com comentários e elogios enquanto eu me reservava o silêncio simplesmente por não ter nada de verdade a dizer, ouvi que sou traidora.
De pessoas que propagam o amo próprio, auto aceitação, autoestima e que lutam contra sua própria imagem no espelho por motivos alheios a sua própria vontade, já ouvi que pareço velha, feia e gorda (quão baixo o “ser humano” vai não é?).
De pessoas que se inteiram das minhas produções e não olham ao redor exatamente por se acharem o centro de tudo, ouvi que meus escritos e inspirações se baseiam num único tema/pessoa.
E já ouvi também que minha consciência pesada (a que julgam que eu tenho) um dia me adoecerá e cobrará um preço. Recebi esse comentário vindo de pessoas que são capazes de fazer justamente esse tipo de “acusação” (que está mais para um praga…) que não lhe deve sair da memória.
Dentro da cabeça todas essas conversas, discussões e resoluções existem e enquanto não verbalizamos (pela voz ou papel), pelo menos pra mim, continuam lá. Vamos deixando passar uma coisa ou outra, por um motivo ou outro e vamos seguindo e nos submetemos a esse tipo de experiência.
Sigo no aguardo de quantas incoerências mais ainda vão ser jogadas ao vento que me cerca, jogando malabares com o que tenho recebido equilibrando o meu desejo, a satisfação do outro e a loucura alheia.

Rio das Ostas (6)
Foto: Raquel Núbia – Rio das Ostras/RJ

Raquel Núbia

Destempero

No equilíbrio há um lugar sempre vazio.
Que quem escolhe e consegue faz morada.
Se manter lá é quase sempre um desafio,
Para uma vida que segue descontrolada.

Quem nunca chega a encontrar esse lugar,
Na corda bamba leva os dias se apoiando.
De extremo ao outro vai e se deixa levar,
E quando pensa estar indo, vem voltando.

E tão distante desse lugar tão perfeito,
O meio termo passa longe de existir.
É destempero o nome dado a esse jeito,
De quem não coloca limites ao sentir.

E qualquer ser seguindo na destemperança,
Hora ou outra esbarra em quem está ao redor.
Da explosão, logo volta a bonança,
Mas os estilhaços causam dano maior.

Qual a sorte daquele que vive desesperado,
Por não possuir o controle em sua mão?
Que quando nota já se perdeu descontrolado,
Causa mal ao corpo, alma e coração…

Quem dera houvesse um escudo a proteger,
Do destempero dos aflitos, o feliz.
Pois nem sempre há como se proteger,
De toda explosão que sempre deixa cicatriz.

São Tomé das Letras (8)
Foto: Raquel Núbia – São Tomé das Letras/MG

Raquel Núbia

Alma

Entrega-te a dor
De vez como sempre quis.
Desiste da loucura incessante
da cura para seus males.

Sente de uma vez o frio
Que queima muito mais do que a pele,
escuta a voz dos anjos
e corre para o seu abrigo

Corre do escuro
ele pode te machucar.
Seu medo vai cortar você
se você não se despedir.

Sai de todo do meu corpo
procura outro estagio pra habitar.
Minha carne podre não te serve,
se solta e me deixe aqui.

Não há como crescer em mim.
Não há como lutar comigo
não há outra chance pra você
não há o que possa ser feito

Alma
Raquel Núbia
03/07/2009

Eu tenho

Tenho mãos que me protegem,
Tenho braços que me cercam,
Tenho um corpo que me aquece,
Tenho olhos que me velam.

Tenho um sol brilhando em mim,
Tenho estrelas e luar,
Tenho um sonho pra viver,
E um motivo pra acordar.

Tenho gozo ao dormir,
Tenho paz ao repousar,
Olhar que reflete a mim,
Melodias no falar.

Corpo e alma em suas mãos,
Coração pulsa ao te ter,
Tenho um lugar só meu,
Conquista por amar você.

Eu tenho

Raquel Núbia

Segredo

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Sempre tive facilidade para guardar segredos…

Depois de concluir minha graduação pude compreender que devia guardar os segredos não somente pela facilidade que tenho, mas, principalmente por sua importância para quem os contam.

Quando compartilhamos um segredo, precisamos ter cuidado… Não apenas para garantir que nosso “fiel do segredo” assim o será, mas para que não deleguemos a outro a responsabilidade que é nossa… Quantas vezes nos contaram segredos apenas para que nos tornássemos cúmplices?

Compartilhar um segredo é revelar um pedaço da alma… Pobre daquele que não sabe acolher uma confissão…

Um segredo – bom ou ruim – é por si só, uma espécie de tesouro que guardamos onde ninguém poderá encontrá-lo e se o confiamos a alguém é para dividir com esta pessoa nossa riqueza ou para que tenhamos ajuda para carregá-lo e deixar em um lugar onde não o encontraremos mais.

Raquel Núbia

Ciclotimia

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Carrego um mundo em mim mesmo.
Um lugar onde nem sempre há equilíbrio.
Um cosmo entre alegria e dor.
Onde, no meio, há um limbo.

Sinto, não há normalidade.
Mas há vezes em que sou feliz.
Eu teria uma vida miserável
Se não escutasse da felicidade o que ela me diz.

Não sinto tristeza o tempo todo.
Se sentisse, enlouqueceria certamente.
Mas sinto esses momentos chegando,
E luta contra, quase sempre, inutilmente.

Percebo as reações diferentes.
Sinto minha percepção mudando.
Vem tudo como o mar em ressaca,
Com suas ondas de uma só vez me inundando.

Desalento que me faz cega, surda e muda.
Uma marionete controlada pelas cordas.
A pessoa que controla em parte sou eu,
Mas comigo essa pessoa nem sempre concorda.

É nessa hora que a mente fica traiçoeira,
E vez ou outra me prega uma peça.
Considera o que contém sua loucura,
A minha sanidade a ela não interessa.

Ciclo da alma em mal funcionamento,
Euforia e distimia, mente em guerra.
Meio termo é que se pede na balança
E o que resta a fazer é a espera.

Raquel Núbia

Outra face

Quão imenso é o sentimento de pena por aqueles que desconhecem o amor. Por aqueles que não conseguem suportar a felicidade do outro. Quão vazio é preciso ser um coração e quão amargurado para procurar e plantar a discórdia entre aqueles que só buscam o amor?
Quão pequena é a alma daqueles que ao ver seu próximo sorrir, não sentem o peito se alegrar? Por que não apenas compartilhar da felicidade que cerca ao invés de procurar motivos e razões, ao invés de se apegar aos detalhes insignificantes da vida?
Então a felicidade do outro só é legítima e merecida se você faz parte dela? Se você é o motivo? Quem pode se achar assim tão importante?
Quão imensa a surpresa ao perceber tamanha dificuldade de compartilhar um novo momento…
São tantos os olhares julgadores que acusam, condenam e sentenciam, quando deveriam, senão aceitar a vida, apenas no mínimo, respeitar as escolhas diferentes que se pode tomar.
Que sejam muitos os espantos e que a pena seja substituída por esperança, pois eu seria tão igualmente fria e vazia se aceitasse a pena que me foi dada.
Respondo à inveja e ao caráter duvidoso que encontrar pelo caminho, com a mais genuína felicidade e com o amor que divido com aqueles que não se importam em receber o bem, vindo ele seja porque e de onde for.

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Imagem: favim.com

Raquel Núbia
13/12/2015