Dádiva

O vento sopra leve
Uma brisa inesperada.
Que espalha o cheiro doce
De folha e terra molhada.
Num sentimento simples
Vejo raiar um novo dia.
Com gosto de futuro
Com sabor de alegria.
Tamanha a estranheza
De um sentimento raro.
Tão bom e espontâneo
Quase nunca me deparo.
Não sei se é o mundo,
Se sou eu ou se é a vida,
Mas hoje o riso é solto
E a gargalhada é ouvida.
Não sei por quanto tempo,
Qual será a duração,
Então eu regozijo
Do que traz o coração.

Raquel Núbia

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG
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Inspiração

O vento soprando.
Uma folha no chão.
Uma voz falando.
O coração.

Música tocando.
Lembrança esquecida.
Alguém passando.
A vida.

O amor sentido.
A raiva guardada.
O momento vivido.
A chance passada.

A alegria no peito.
A lamúria da alma.
O poema perfeito,
Vindo da calma.

Letras combinadas.
Mensagens escondidas.
Frases embaralhadas.
Pessoas queridas.

Tudo ao redor.
Tudo o que o olho vê.
Necessidade maior.
Prazer.

A escrita do dia.
Constante pulsação.
Real ou fantasia.
Inspiração.

Sem fim.

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Foto: Raquel Núbia – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia

Auto

Li certa vez que “a comparação é o ladrão da alegria” e, nesses tempos, não poderia concordar mais. Quantas vezes a gente se pega perdendo o sorriso, a motivação, até mesmo a inspiração frente às nossas vontades, felicidades e desejos por, simplesmente trazer a memória os resultados de outra pessoa?

“Sou bom nisso, mas alguém é melhor”, “consegui aquilo, mas alguém conseguiu melhor”, “queria fazer isso, mas não vai ser tão bom quanto daquela pessoa”… Pensamentos assim vão, aos poucos, minando nossos sonhos e nossos movimentos… E quando permanecem, nos paralisam.

Às vezes nos pressionamos tanto no caminho para a superação, que perdemos o prazer no que antes fazíamos com tanto gosto, tudo acaba virando um grande negócio, uma grande obrigação. Mas, nem sempre o pior é isso. O pior é que sempre haverá alguém melhor do que nós, e enquanto permitirmos, esse ladrão continuará roubando nossa alegria.

E como não permitir? O assaltante nos pega desprevenidos e, quando nos damos conta: “mãos ao alto”.

Talvez o que reste seja correr atrás para substituir a alegria roubada…

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Foto: Raquel Núbia – Muriaé/MG

Raquel Núbia

Carta para ela

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Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira

Então é isso, você realmente não me deixa… você sempre some por um tempo, se esconde, desaparece e eu quase me esqueço que um dia te conheci… mas aí você volta… E eu nem sei porque faz isso.
Se bem que, parando pra pensar direito, parece que realmente te sinto por perto o tempo todo, se esgueirando entre uma risada e outra, entre um projeto e outro, entre um momento feliz e outro.
Você vem me ensinando ao longo dos anos a desconfiar dos sorrisos, das bonanças e das recompensas que a vida á. Suas lembranças são um sinalizador vitalício de que jamais saberei ou terei controle sobre o que virá ao dobrar a próxima curva, ainda que ninguém saiba, esse não saber é uma tortura.
Talvez, apenas talvez, eu esteja sendo injusta dizendo que é você que me persegue pois, confesso que há momentos em que sinto sua falta. Entregar os pontos às suas exigências por alguns momentos pode ser reconfortante e ir contra você exige, quase sempre, um esforço descomunal e esse esforço exagerado pouco a pouco vai drenando toda energia dedicada a esse combate.
Poxa… você é forte! E persistente! E ainda é persuasiva!
Gostaria de dizer que sou o dobro de tudo isso que você é mas, aparentemente, não é bem assim.
Eu me pergunto e imagino como é levar uma vida sem ter que lidar com você o tempo todo. Observo as pessoas à minha volta e vez ou outra me deparo desejando me encaixar…
Sei que jamais saberei a verdade que as pessoas carregam em si, porque já tive amostras suficientes que me provam que o que vemos dos outros são lampejos de uma vida sonhada que nem sempre corresponde à realidade.
Você influenciou comportamentos meus, acredito, que desde que eu era uma criança… com traços e características que me acompanharam e que me representam até hoje. E como seria se não fosse assim?
Sinceramente acho até que já me acostumei. O que me incomoda em você é justamente o fato de você ir e vir a hora que quer e você sabe que faz isso… E faz com maestria, trazendo uma enxurrada de sentimentos desconcertantes e paralisantes.
É… Você me faz de boba, me dá espaço, me dá corda, me dá esperança, tudo isso para aparecer depois e me desconcertar.
Será que você não entende que não há futuro nisso? Não há um seguimento em que conseguiremos seguir juntas. Simplesmente não há.
Quantas vezes mais eu vou precisar entrar nesse embate pessoal com você?
Você me desgasta e eu sempre te dei tudo o que me pediu, algumas vezes até mais do que podia e ainda hoje cá estou eu dedicando o meu tempo a te suplicar novamente que se decida e que me deixe seguir meu caminho de maneira menos nebulosa e tortuosa.
Depois desse tempo todo, você não tem mais a capacidade de me fazer chorar ou me fazer ficar com raiva, nem mesmo de me fazer sentir tristeza. Mas você consegue me fazer sentir algo ainda pior: nada.
Você anula meus sentimentos de uma forma assustadora, mas não sei ao certo o que significa essa ausência de sentir… será você ficando mais fraca ou ainda mais forte sobre mim?
Sei que não me responderá, pois você nunca responde, nunca me dá solução, apenas me confunde e pesa sobre mim o peso do mundo.
Que mal desnecessário…
Quão desagradável ainda vai ser?
Por quantas vezes ainda vou viver toda essa angústia de sentir você à espreita, rondando e aos poucos tomando um espaço que deveria ser só meu?
E por que permito?
É correto dizer assim? Que eu permito que isso aconteça?
Talvez sim, pois como disse, há momentos em que o meu maior desejo é baixar a guarda e deixar que você assuma de vez os comandos desse sobe e desce que eu tenho chamado de vida. Quem sabe não é pra ser assim? Eu tenho estado mesmo cansada ultimamente e, de certo modo, sua companhia é certa e presente…
Quanta contradição… Saber que certamente poderei contar com o que me causa meus pensamentos mais sombrios e meus dias mais nublados.
Bom, aparentemente você é a única certeza que eu tenho. Mesmo não sabendo como ou quando virá, a vinda é certa, pode ser até que eu te chame sem perceber.
Enfim, depois de tantas palavras não consigo encontrar mais nada a dizer e ainda assim sinto que não disse nada. O tamanho de seu impacto sobre mim é intransferível, realmente só eu posso saber.
Sigo aqui, do melhor jeito ou do jeito que sou capaz de seguir.

Até breve,
Raquel Núbia.

A noite

A noite

O que guarda a noite
Que a manhã não pode dissipar?
Quantos medos esconde,
Que se perdem ao clarear?

O que guarda a noite
Que não se revela durante o dia?
Quanto choro esconde
Em forma de alegria?

O que guarda a noite
Quando não se vê esperança?
Quanta tristeza leva
Até que chegue a bonança?

O que guarda a noite
Quando a garganta prende o nó?
Qual a angústia daquele
Que, acompanhado, está só?

O que guarda a madrugada
Pelos badalos do sino embalada?
Não desata esse coração
Que já não pulsa uma mesma passada?

E o alvorecer, o que trará?
Talvez um fim para a tempestade…
Que o sol brilhe em sua grandeza,
Antes que seja tarde.

Raquel Núbia

Alegria

Não conheço o que te move
Mas sei quem você é.
Vejo os seus sinais.

Eu não te detenho.
Sei como me esconder.
Mas me tira a paz.

Eu não me aproximo.
Confesso um segredo,
Quero que apareça.

Espero a surpresa
De uma visita
Que um dia aconteça.

Assim, frente a frente
Ou pouco distante,
Talvez, eu sorria.

E nesse sorriso,
Escondo que penso
Em seu nome: alegria

Alegria

Raquel Núbia

Ciclotimia

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Carrego um mundo em mim mesmo.
Um lugar onde nem sempre há equilíbrio.
Um cosmo entre alegria e dor.
Onde, no meio, há um limbo.

Sinto, não há normalidade.
Mas há vezes em que sou feliz.
Eu teria uma vida miserável
Se não escutasse da felicidade o que ela me diz.

Não sinto tristeza o tempo todo.
Se sentisse, enlouqueceria certamente.
Mas sinto esses momentos chegando,
E luta contra, quase sempre, inutilmente.

Percebo as reações diferentes.
Sinto minha percepção mudando.
Vem tudo como o mar em ressaca,
Com suas ondas de uma só vez me inundando.

Desalento que me faz cega, surda e muda.
Uma marionete controlada pelas cordas.
A pessoa que controla em parte sou eu,
Mas comigo essa pessoa nem sempre concorda.

É nessa hora que a mente fica traiçoeira,
E vez ou outra me prega uma peça.
Considera o que contém sua loucura,
A minha sanidade a ela não interessa.

Ciclo da alma em mal funcionamento,
Euforia e distimia, mente em guerra.
Meio termo é que se pede na balança
E o que resta a fazer é a espera.

Raquel Núbia

Despertar

Coisa mais linda despertar tão bem…
Ouvindo a voz de quem tanto quero assim.
Sentir um sorrindo no rosto.
Porque minha criança se lembrou de mim.

Coisa mais linda sorrir de amor…
E no coração sentir essa alegria.
De quem sente saudade mesmo quando perto.
De quem passa a semana contanto os dias.

Quantos dias longe insistem em passar…
E a ausência me puxando pelo braço.
e os pensamentos perseguindo o tempo todo.
Com coisas que tanto quero mas não faço.

Coisa mais linda despertar assim…
Sentindo que alguém logo ao acordar.
Pensou nessa pessoa que não faz mais nada,
A não ser te amar, te amar, te amar…

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imagem: favim.com

Raquel Nubia

Pandemônio

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Que confusão mental e corporal!
Sair do prumo, sair do habitual.
E se sentir revirada e bagunçada desse jeito.
Que descontrole que controla o que sinto.
Não sei se digo a verdade ou se minto.
Pra fingir que tá tudo correto e perfeito.
É bem me quer, é mal me quer, querer algum.
É a certeza da incerteza de não querer nenhum.
É o frio na barriga que não pode ser desfeito.
E de onde é que vem tanta agonia?
Que mistura angústia, medo, sorte e alegria?
Que congela as minhas mãos e esquenta o meu peito?
Esse efeito rarefeito que é perfeito pro sujeito do qual fujo mas encontro.
Que é feito desse jeito nem correto, nem direito, inacabado e tão pronto!
A mente, já confusa, e o corpo que acusa que a normalidade lá de longe já partiu.
E da lugar a uma loucura e à amarga doçura que só conhece e desconhece quem sentiu.

Raquel Núbia