Vivo na terra, mas às vezes…

Nunca fui de ter muitos amigos, nem nunca fui de ser o centro das atenções. Nunca fiz questão de reconhecimento público ou demonstrações públicas de afeto. Não gosto de muita “invenção de moda”, nem gosto de gente que faz muito rodeio. Não gosto de pessoas medrosas e muito menos das que colocam medo nos outros. Nunca fui daquelas que usam o amigo para aparecer. Nem conheço as pessoas pelo sobrenome, por sua filiação ou conta bancária. Nunca fui de tirar fotos para mostrar como sou feliz, nem faço questão de ser convidada para ir onde todos estão. Nunca me endividei para poder vestir grife e nem “pendurei” a conta no salão. Nunca viajei para fora do país, e foram poucas as vezes que saí do estado. Mas…
Os poucos amigos que conto em uma mão são aqueles para todas as horas e para a vida toda, para eles sou o mundo assim como eles são para mim. Os carinhos que recebo não precisam de testemunhas porque sinto sua verdade nos gestos do dia a dia. Quando falo é porque tenho certeza e principalmente quando a pessoa que pergunta vale o esforço de verbalizar… e se não quer me ouvir falar, não pergunte minha opinião. Minha presença não é imposta, meu sobrenome é apenas herança da minha família e não um marca que tento impor. Minhas memórias são guardadas no coração e nas palavras que escrevo. Minhas roupas são as que gosto e meu cabelo está ótimo de coque com grampo. Minhas viagens são para os destinos mais maravilhosos do mundo porque não me importa o lugar e sim as pessoas.
Vivo na terra, mas às vezes parece que sou de outro planeta.
Porque para suportar algumas coisas que nos cercam, só mesmo apelando para nosso próprio mundo.

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Raquel Núbia

A falta

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Imagem: favim.com

Tenho mil poesias prontas guardadas num gaveta.
Tenho mil boas ideias, guardadas na minha cabeça.
Tenho mil planos feitos, aguardando para realizar.
Tenho destinos marcados num mapa, prontos para explorar.

Tenho arte e criatividade ao alcance das mãos.
Tenho voz e melodia para qualquer canção.
Tenho caminhos abertos para ir e vir.
Tenho uma estrada pronta para poder seguir.

Guardo fotos de momentos que nunca vivi.
Guardo sentimentos que nunca senti.
Guardo ideias e destinos quem sabe para outro dia.
Faço o mesmo com os planos caminhos e poesias.

Mas me falta uma coisa que há um tempo perdi.
Por ser acostumada sequer percebi.
Essa falta que vem do passado do presente.
E que causa um desamor que só sabe quem sente.

Raquel Núbia

A grama do vizinho

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Existe aquele famoso ditado que diz que “a grama do vizinho é sempre mais verde”…
Temos uma certa tendência em valorizar muito mais o que não nos pertence do que o que realmente possuímos. Comparamos nossas fotos, nossas viagens, nossas amizades, nossas conquistas, nossas rotinas, e tudo do outro é sempre melhor. Quando contamos uma história, enfeitamos os detalhes na esperança de que um simples rascunho se torne um belo quadro, tudo isso para que outros admirem, enquanto isso, deixamos de ver nossos rabiscos e aperfeiçoá-los para nos mesmos…
Quando planejamos algo, comprar algo, criar algo, seja o que for, sempre planejamos para o outro… Quantas vezes já não nos vestimos para uma festa pensando na reação de quem vamos encontrar? Mesmo que não seja alguém com quem realmente nos importamos, ou pior, alguém que realmente se importe conosco.
De todos os males, este é o pior…
Quantas vezes já não ignoramos a opinião ou sentimento de quem nos conhece como a palma da mão e nos quer bem como a si mesmo, apenas para seguir o conceito que vemos quando olhamos para a grama do vizinho, esperando que as nossas fotos, viagens, amizades, conquistas e rotinas, sejam tão brilhantes quanto às dele?
Essa tendência de valorizar o que não temos, nos impede de olhar para o lado e de olhar para dentro. Corremos atrás do vento, buscando sorrisos e a felicidade que vemos estampada nos outros sem jamais nos questionarmos se esse sentimento consegue ir mais fundo do que um flash. Enquanto isso, deixamos de sorrir e amar pelo que vale a pena.
Sempre buscamos o reconhecimento no outro: FATO.
Mas enquanto não nos reconhecermos e sermos fiéis a quem somos, jamais seremos vistos como merecemos. Acredito que é por isso que a grama do vizinho é sempre mais verde… porque estamos ocupados demais para tirar a poeira de nossa própria janela…

Raquel Núbia

Eu quero

Eu quero paredes brancas, eu quero janelas abertas…
Eu quero varanda molhada, eu quero uma vista discreta.
Eu quero vidros limpos e uma vegetação lá fora…
Eu quero uma escrivaninha sem compromisso com a hora.
Eu quero café para dois, com xícaras sobre a mesa.
Eu quero meias nos pés e sonho de sobremesa.
Eu quero o silêncio da chuva…
Quero o prazer da solidão.
Eu quero uma folha em branco e uma caneta na mão.
Eu quero um mural de fotos, com fotos de gente comum.
Eu quero poltronas e mantas.
Eu quero lugar para mais um.
Eu quero um tempo pra mim.
Eu quero chorar e sorrir.
Eu quero encontrar uma forma,
De querer e também conseguir.

Eu quero

Raquel Núbia

O cansaço e o costume

Como é fácil se acostumar com algumas coisas… e como é fácil se cansar de outras…
Nos acostumamos até com o que não devemos. Com o mau humor do outros, com a falta de educação, com os problemas no trabalho, com a falta de amor…
Nos cansamos de acordar cedo, de ir ao trabalho, da rotina de casa, dos problemas dos amigos e dos problemas que nos causam os inimigos…
Às vezes nos acostumamos fácil demais com muito menos do que merecemos, apenas por estarmos cansados de seguir em frente, por estarmos cansados de lutar contra.
Quando isso acontece, parece que caímos em um sono profundo em que não conseguimos reagir às atitudes dos outros nem mudar as nossas próprias… eu não quero mais dormir desse jeito…
Não podemos basear o comportamento dos outros pelo nosso porque somos indivíduos e diferentes por natureza. Entretanto, também não podemos nos acostumar a nos submeter aos prazeres dos outros sem questionar… Até que ponto podemos suportar a bagagem que outras pessoas nos dão para carregar?
Até que ponto devemos suportar?
Devemos suportar?
Posso ser até que o me bata o cansaço, mas vou correr para que o costume não me alcance.

O cansaço e o costume
Imagem: explorelifestyle.com

Raquel Núbia

O escudo e a escada

O escudo e a escada

Em uma classificação de um teste psicólogo que fiz, havia a seguinte frase: “Contatos pessoais mais profundos que numerosos”.
Concordei 100% não somente porque acredito na ferramenta, mas também porque essa frase define muita coisa pra mim…
Em uma sala com tantas pessoas, com tantos sorrisos, comentários, contatos, sinto que não me ocuparia os dedos de uma mão para contar quantos representam uma relação verdadeira… Se me importo?
Não sei o quanto…
Não podemos simplesmente tratar as pessoas de forma cordial, de uma maneira que realmente represente nossos sentimentos?
Me parece que há um exagero infindável de amizade, parceria e amor entre pessoas que utilizam toda a nobreza destes sentimentos como escada e escudo…
As pessoas se deixam usar porque também precisam desse impulso e dessa proteção…
Nesse meio, quem valoriza a qualidade das relações, muitas vezes em detrimento da quantidade, se sente cercado e por consequência, estagnado e desprotegido.
Se considerarmos que em algumas culturas a normalidade está ligada aos comportamentos que ocorrem com maior frequência, o normal então é criar laços que não existem para crescer e permanecer seguro em um ambiente que não é real e ao qual não se pertence?
Ficar são em uma sociedade assim é muito difícil, e ser o louco que se nega a esse esquema de relações vazias e prefere as doçuras e dores dos relacionamentos reais gera a infeliz consequência do isolamento e exclusão.
Mas pra mim, vale mais a pena estar “sozinha” em uma bolha de contatos profundos do que SOZINHA em um mundo de contatos numerosos.

Raquel Núbia

Noites de domingo

Ninguém gosta de noites de domingo…
Pergunte a quem quer que seja todos responderão o mesmo.
Sendo o início de uma nova semana, não era para pensarmos em recomeço? Em novas oportunidades de fazer o que ainda não fizemos e, quem sabe, concertar o que fizemos de errado?
Mas não é assim.
Porque junto com a noite aparecem também as angústias das obrigações do dia a dia, dos afazeres que por vezes procrastinamos por motivos vários… junto com a noite vem a sensação de estarmos reiniciando um ciclo que parece não acabar nunca, onde corremos, corremos mas não saímos do lugar… onde não chegamos a lugar algum.
Talvez, as noites de domingo apenas deixem aflorar o que repreendemos durante todos os dias e noites do restante da semana, simplesmente por estarmos ocupados demais com tudo o que nos é exigido, com tudo o que exigimos de nós mesmos.
A correria da semana, muitas vezes nos impede de pensar claramente, e até mesmo de reavaliar o que temos feito dos nossos dias e qual a importância das nossas “realizações”, acredito até que culpar a correria é um dos artifícios que usamos para não olharmos para nós mesmos afinal, quem gosta de enfrentar a realidade daqueles pensamentos que aparecem sorrateiramente nas noites de domingo?
Fazer essa leitura de quem somos não é uma obrigação, se olharmos a nossa volta, veremos que muitas pessoas vivem seus dias em paz, gozando de um ignorância que os protege desses questionamentos e por consequência, da necessidade de se repensar. Não é difícil reconhecer essas pessoas, geralmente são elas que se ocupam dos detalhes mais fúteis e triviais de nossas rotinas, são aquelas que quando cruzam nosso caminho não tem muito que acrescentar, e por vezes deslocam suas angústias, direcionando suas frustrações nos outros…
Já as pessoas que não gostam das noites de domingo, não são tão fáceis de identificar… Por serem diferentes, e por isso conscientes do que não satisfaz em suas vidas, sabem que esses medos e essas angústias não são bem aceitas na sociedade em que vivemos. Dessa maneira se escondem sob uma de suas máscaras sociais mostrando ao mundo somente o que ele quer ver e deixam para “encarar” a outra face de si mesmo, em uma outra noite de domingo.

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Raquel Núbia

 

Ser feliz ou ter dinheiro?

No momento social que vivemos hoje, a questão me parece ser somente essa: ser feliz ou ter dinheiro?
Trabalhamos dia após dia para garantirmos o suprimento de nossas necessidades básicas e trabalhamos mais um pouco buscando suprir outras necessidades nem tão básicas assim… Entretanto, nisso tudo há uma situação contraditória e mais comum do que deveria.
Passamos a maior parte dos nossos dias no trabalho, e quando temos tempo livre para desfrutarmos do que conseguimos com ele, estamos tão exaustos – física e psicologicamente – que não encontramos energia para fazer o que tínhamos planejado enquanto trabalhávamos…
Algumas vezes nos questionamos, outras temos certeza de que o melhor a fazer seria diminuir o ritmo, mudar de área, parar um pouco, mesmo que isso signifique que perderemos o poder de realização de algumas daquelas necessidades supérfulas que falei anteriormente… Mas o medo parece paralisante ao pensarmos nisso:
“E se eu precisar do dinheiro que ganho? E se houver uma emergência? E se eu conseguir um tempinho extra? Daqui uns meses eu tiro férias… Vou tirar uns dias de folga depois que entregar aquele trabalho importante”.
Será que realmente levamos a sério os nossos desejos?
Tudo passa e, por mais que soe clichê, ninguém é insubstituível…
Dessa forma nossos dias estão passando enquanto nos ocupamos cada vez mais hoje, planejando um futuro que não chega nunca. Nos entregamos às rotinas acreditando que somos vitais quando na verdade deixamos de lado coisas e pessoas que jamais nos substituiriam…

Ser feliz ou ter dinheiro
imagem encontrada na internet

Raquel Núbia

Pode-se dizer

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Imagem: favim.com

Pode-se dizer que sou um tanto ansiosa,
e por vezes um tanto detalhista…
Que sou um tanto quanto calma
e um outro tanto pessimista.
Na minha opinião,
se é pra fazer é para agora.
Mas, pode-se dizer que eu faço tudo à minha hora.
Lado oposto, lado errado,
quase nunca tenho lado.
Se é pra ficar eu quero ir,
se é pra ir eu fico aqui.
Se é pra rir eu vou chorar,
se é pra chorar: deixa pra lá.
Pode-se dizer que minha cara é fechada
e um tanto quanto chata,
eu confesso.
Mas meu real jeito de ser
só poderá conhecer
quem ao meu lado sem censura tem acesso…

Raquel Núbia