Só sei que nada sei

Que a vida é feita de fases, isso a gente sabe.
Mas sabe uma coisa que a gente não sabe? Quando essas fases vão acontecer, vão mudar.
E hoje, acho que a única coisa que eu sei é que eu não sei de mais nada.
Via de regra, de tempo em tempo, me vejo nessas encruzilhada, nesses pontos de virada, mesmo já farta de passar por eles. O destino deve achar graça e se divertir ao me ver morrer na praia, por tantas vezes…
Ou, talvez, o destino goste do sabor de aventura que tantos vezes sentiu ao me ver renascer depois de morrer tantas vezes.
Porque afinal, no final as coisas se ajeitam.

Raquel Núbia

@raquelnubia

Farsa

Disseram que sou uma farsa.
Pensei: logo eu que não sei disfarçar!
Que de tantas vezes ouvi
Que tanta sinceridade,
Que toda falta de parcialidade
Que a mania de ser de verdade,
Sempre tem o seu preço a cobrar.

Disseram que sou uma farsa.
Pensei: logo eu que preciso avisar
que não me perguntem algo
se não querem resposta
pois, independente de quem gosta
a minha fala é exposta.
Banhada de sinceridade ao falar.

Disseram que sou uma farsa.
Pensei: quem me dera ser capaz de dissimular!
Se soubesse me protegeria
sem nem pensar me afastaria
E me protegeria
De quem me pergunta, mas não
quer escutar.

Disseram que sou uma farsa…
Pensei: logo eu?

Raquel Núbia

Foto: @amandaff

Abraço de um só

O que eu queria?
Um abraço apertado,
um beijo estalado,
um colo do bom
Daquele quentinho,
bem perto, juntinho
coração com coração.

Qual é meu desejo?
Sentir o cuidado,
atenção de bom grado
de estar macompanhado
sem obrigação.
O que que eu penso?
Que se vive sozinho,
é possível o caminho,
mas, como um passarinho,
não quero viver só.

No que eu acredito?
Que querer é possível
mas talvez intangível
nesse sonho incrível
com que há de melhor.
Mas do que me adianta,
se o nó na garganta
Quando deita e levanta
Só faz me mostrar …

Que o tal colo e carinho
que está no meu caminho
São palavras e traços sozinhos
Que a folha em branco vai eternizar.

Raquel Núbia

imagem da Internet

Solidão

Existe a solidão que se vive acompanhado, a solidão que se experimenta sozinho, a solidão dos pensamentos, a solidão do sucesso, a solidão do fracasso, a solidão do corpo, a solidão do reconhecimento… E por elas vamos transitando, pois eu acredito ser impossível não se sentir só em nenhuma dessas situações que citei. Eu não sei qual solidão dói mais, mas sei que todas trazem seu peso e sua medida.
E você, qual solidão tem te feito companhia?

Raquel Núbia

Foto: @raquel__nubia / Muriaé-MG

Esperar esperando x Esperar fazendo

Como é que funciona mesmo esse negócio de “esperar fazendo e não esperou esperando”?
Sabe? Essa coisa de não ficar parado, mesmo que o que desejamos não esteja já em nossas mãos, mesmo que não saibamos quando vamos ter o que queremos, o que buscamos… Essa máxima de ir se dedicando a outras coisas enquanto as COISAS não acontecem.
Tenho tentado ser bem adepta do “fazer o melhor onde estou, como estou e com o que tenho”, mas sinto que tem hora que não dá, tem hora que a espera, em si, é paralisante, limitante e “esperar fazendo” se torna algo possível.
Há ainda aqueles que dizem que o ideal é simplesmente não esperar nada, pois o que tiver que acontecer, acontece quando for a hora, mas o que houve com aquela história de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”?
Eu acredito que só o fato de não esperar nada já é uma espera, afinal, eu espero não esperar mas, no fim, acabo esperando de qualquer forma.
E assim o corpo vai pagando o preço pelas provas que a mente inventa.
Seria simples se não fosse a invenção que fizemos de ter a mania de sentir.

Raquel Núbia

Foto: @eubrunolopez

Abraço de urso

Pensamento recorrente esses dias… Tenho percebido que algumas pessoas preferem um sorriso falso à uma expressão verdadeira: seja simpático, seja agradável, seja leve, ainda que seja mentira – parece que esse é o mantra atual. A falta de honestidade com os sentimentos das pessoas chegou a um nível em que as palavras são ditas sem significar nada. O “conte comigo” se tornou tão banal como o “bom dia”. O “tudo bem?” virou frase automática sem nenhuma intenção de ter resposta. E a gente, que ainda pensa nisso, que ainda dá peso ao que fala, é considerado grosseiro, fechado e etc, apenas pela intenção de respeitar o nosso momento e o momento do outro, pois se eu não puder te ajudar, eu não vou falar “conte comigo”, se eu não puder lidar com sua resposta, eu não vou perguntar se tá tudo bem. Certamente eu vou substituir essas perguntas por outras que não vão criar em você a expectativa de uma presença que não será real. Todo mundo está lutando sua próprias batalhas e cada um sabe o peso de suas vitórias e derrotas. Então tudo bem se voltar pra si mesmo. A falta de honra está na atitude que você toma e que faz parecer que é pelo bem do outro quando, na verdade, é apenas para que você se sinta bem com você mesmo, com a mente tranquila por ter se disponibilizado, quando na verdade você nunca teve a intenção de estar realmente presente.
Você já parou pra pensar nisso? Existem pessoas que nos tem como modelos, como referências e que colocam peso no que dizemos, por isso essa reflexão.
Observe. Observe sempre, pois você pode estar exigindo do outro algo que ele não é capaz de te dar, e essa exigência pode forçar um comportamento mentiroso, apenas para que você fique satisfeito, ainda que às custas do sentimento e fingimento do outro.
Você não precisa ser a salvação do mundo, mas quando se propor a ser o amparo de alguém, SEJA, mas seja genuíno.

Raquel Núbia

Foto: @raquel__nubia

Poema das iniciais

Tô triste num tanto que tudo é tristeza.
Balanço num bote de banal beleza.
Me movo num mundo que manda em mim
e sinto essa sede de sentir sem fim

Tô triste num tanto que tudo é tinhoso.
Recolho risos rápidos num ritmo horroroso.
Vejo vindo vagando um vislumbre viril,
Dos dias de dor deixados, um ardil.

Tô triste num tanto que tudo é trabalho.
Cansaço, carência, coração em cangalhos.
Navegando na nuvem de névoa e negação.
Deixando as dores da dura decepção.

Tô triste num tanto que tudo é torpor.
Pesando no peito um pesadelo, um pavor.
Fazendo folia pra se fazer de forte.
Sabendo sutilmente que quem sabe é a sorte.

Tô triste um tanto…

Raquel Núbia

Foto: @eubrunolopez

“Ponto&Vírgula” – Post 11

Conviver com um transtorno mental que envolve a oscilação do humor de forma inesperada numa flutuação que envolve a mania (“felicidade”) e a depressão (“tristeza”) é andar permanentemente numa corda bamba, sujeito à situações e sentimentos que nem sempre fazem sentido. É se questionar o porquê de resultados iguais se as ações são diferentes, o porquê das repetições, o porquê das voltas.
Conviver com transtorno mental é sentir que o controle não está nas suas mãos, que as coisas não dependem de você e que, por mais que façamos a nossa parte, em alguns momentos precisamos soltar os remos e deixar o barco seguir o fluxo das águas.
Tudo isso pode soar comum, pode soar cliché e ordinário, as situações assim são conhecidas por tantos, afinal todos na vida desfrutam dos dias de luta e dos dias de glória. A diferença é que o transtorno mental é uma amarra que te torna o responsável pela irresponsabilidade que te assola quando ele te desanima.
E veja só … Eu que sento dos dois lados da cadeira, como paciente, como profissional e me arrisco como escritora, ainda assim me vejo perdido em mais uma tentativa frustrada de relatar o indizível, de expressar em letras e palavras o que é sentir o corpo e o coração pedindo algo e ter que obedecer a mente que incapacita, anula e mantém com ela infinito de culpa, cobrança e punição.
Conviver com um transtorno mental que envolve a oscilação humor de forma inesperada numa flutuação que envolve a mania (“felicidade”) e a depressão ( “tristeza”) é se forçar a entender que num dia somos árvores frondosa, que dá frutos, alimenta, acolhe com sua sombra, dando refrigério aqueles que precisam de abrigo, mas que também podemos ser apenas os galhos secos, que se agarram numa raiz comprometida, sugando o que ainda resta do solo. na esperança de florescer de nova.

Raquel Núbia

Reserva

Quem sou eu senão apenas mais um?
O que sou eu senão um lugar comum?
Como me enxerga aquele que não me vê?
Como me ouve somente quando escuta para esquecer?

Quem sou eu senão quem conserta o futuro?
O que sou eu senão um lugar seguro?
Como me chama quando sou o único nome a dizer?
Como me esquece quando o outro que responder?

Quem sou eu senão o consolo quando há tristeza?
O que sou eu senão os olhos que não veem beleza?
Como me lembra quando a minha voz se cala?
Como me deixa quando a verdade fala?

Quem sou eu quando isso é tudo o que posso ser?
O que sou eu quando sei de tudo o que não vou ter?
Como me afasto do que me mantém vivendo?
Como me impedir se o que me traz vida não sabe que, em vida, estou morrendo?

Raquel Núbia

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Foto: @eubrunolopez

Sobre ser limite

Quantas vezes você já pensou em não ser você mesmo? Já pensou em tudo o que sente vontade e desejo de fazer e que por um motivo ou outro não consegue, não é capaz? Coisas simples, do dia a dia, comuns a tantas pessoas, em tantos lugares, mas que parece sempre tão custoso, tão difícil?
Venho aprendendo e reaprendendo contínuas vezes que a gente só deve depositar nossas expectativas, sentimentos e emoções na gente mesmo. É triste mas necessário lembrar que grande parte das pessoas nos enxergam somente como uma parte de seus jogos e seus interesses, que nos solicitam quando essa conveniência acaba, tudo o que se passou é jogado num limbo até que sejamos necessários novamente.
Às vezes temos sido depósito para que as pessoas despejem sobre nós suas frustrações, preocupações e tristezas se reenergizando para prosseguir com suas vidas junto às pessoas de seu cotidiano, após transferirem suas bagagens.
Mas como culpá-los se as pessoas só depositam em nós aquilo que permitimos?

Raquel Núbia

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Foto: @eubrunolopez