Pandemônio

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Que confusão mental e corporal!
Sair do prumo, sair do habitual.
E se sentir revirada e bagunçada desse jeito.
Que descontrole que controla o que sinto.
Não sei se digo a verdade ou se minto.
Pra fingir que tá tudo correto e perfeito.
É bem me quer, é mal me quer, querer algum.
É a certeza da incerteza de não querer nenhum.
É o frio na barriga que não pode ser desfeito.
E de onde é que vem tanta agonia?
Que mistura angústia, medo, sorte e alegria?
Que congela as minhas mãos e esquenta o meu peito?
Esse efeito rarefeito que é perfeito pro sujeito do qual fujo mas encontro.
Que é feito desse jeito nem correto, nem direito, inacabado e tão pronto!
A mente, já confusa, e o corpo que acusa que a normalidade lá de longe já partiu.
E da lugar a uma loucura e à amarga doçura que só conhece e desconhece quem sentiu.

Raquel Núbia

Poesia

Velha e boa amiga angústia
Que insiste em não me deixar.
Tristeza companheira
Que gosta de me abraçar.

Esse é o caminho
Que eu não consigo aprender.
Essa vida que eu não quero,
É a única pra viver.

Vendo as pessoas e suas personas
Subindo cada degrau.
Me olhando lá de cima
Enquanto eu aqui me sinto tão mal.

Me importando com coisas e gente
Que não queria me importar.
Mas essa é minha essência,
Não posso simplesmente ignorar.

Eu já aprendi quem é bem me quer,
E quem não me quer de jeito nenhum.
Aprendi quem vale a pena
E quem não vale tostão algum.

Mas mesmo frente a tudo isso
Sinto impossível não questionar.
O que faz os outros se moverem
Mas me mantem no mesmo lugar?

Em alguns momentos
Tudo volta ao antigo normal.
Mas basta um olhar em volta
Pra realidade habitual.

O normal agora é passado
E de passado não se vive mais.

O que resta é o presente
Porque o passado ficou pra trás.

E pra trás também fica a memória,
Fica o sentimento e toda lembrança.

E pra frente é a resistência,
Caminhando lado a lado com a esperança.

Esperança, sentimento bobo,
Inútil, sem serventia.
Aliás, serve pra uma coisa,
Serve pro banho de água fria.

Aquele que aparece
Todas as vezes que os olhos brilham.
Por ouvir palavras que encobrem a verdade
Do que sentiam.

Uma coisa é dita
Mas outra coisa se quer dizer.
A mão que afaga
É a mesma que quer bater.

O “bom dia” vem do mesmo lugar
Do sussurro contido.
O sorriso vem da mesma boca
Que fala escondido.

Olhos e ouvidos
Já não sabem como ver e ouvir.
E decifrar mentiras que vem
De onde não deveriam vir.

É infinito o poder
De paralisar.
Quando, na verdade,
O certo seria ensinar a andar.

Vejo com pesar que existem coisas
Que valem a pena a insistência.
Com tristeza, à conclusão
Chega à minha consciência.

O que uma vez foi forte
Hoje está quebrado.
Os pedaços se espalharam
por todo lado.

De tanto remendo
Ficou tudo cheio de marcas.
E agora é tarde,
Muito tarde para apaga-las.

Existem coisas que realmente
Não se recupera.
Por mais que seja o que
O coração espera.

O jeito agora é lamber as feridas
E seguir em frente.
Até porque pra ocupar o lugar,
Tá cheio de gente.

Fica a mágoa do que
Poderia ter sido.
Fica o suspense de tudo
O que foi vivido.

Fecha o ciclo, fecha os olhos
E segue o caminho.
O caminho segue, parado ou andando,
Com gente ou sozinho.

Poesia

Raquel Núbia

No firmamento – Fernando Pessoa

“Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção…
Estou no meu olvido…
Dorme, coração…”

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A volta

O sol escurece,
A noite enegrece,
E a madrugada fica mais fria.

Os segundos se tornam minutos,
Os minutos se tornam horas
E as horas se tornam dias.

Sem ao menos perceber,
É criado um casulo,
De onde não se consegue sair.

Já não há mais amigos,
Família ou inimigos.
Já não há mais querer,
Vontade ou fazer.

Há apenas um vácuo,
Um calor tão frio,
Que preenche de nada
Esse enorme vazio.

Uma luz se ilumina
No inesperado.
Após tantos pedidos,
O resgate é chegado.

E em meio a trevas,
Tormentas e escuridão,
Encontra-se uma boia,
A salvação.

Um cobertor começa a aquecer,
Aos poucos o sangue volta a correr.
Os olhos retomam um fio de brilhar,
A vontade aparece, também o desejar.

As águas revoltas ficam na lembrança,
Se tornam bagagem, memórias, distância.

Passo por passo os laços voltam,
A cada vez sentimentos retornam.
Passo por passo o caminho é refeito.
Bons e ruins, perfeitos, imperfeitos.

A cada dia uma nova chance,
E a decisão de continuar,
Mesmo que a ida seja involuntária,
A melhor parte de ir é voltar…

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Raquel Núbia

Tua Mão

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I

De repente o vento se tornou mais forte,
e a terra me engoliu me mastigando
com todos os seus dentes.
E a cada mordida da terra,
um pedaço meu se esvaía…
e eu nada podia fazer…

De repente o mar se tornou agitado
e suas águas me jogaram pra todos os lados,
e a cada queda eu me afogava,
sendo tragada por aquelas águas salgadas.
E eu nada podia fazer.

Eu sentia o sal na minha pele,
muito mais que isso,
havia sal na minha alma.
E o vento bagunçava meus cabelos
e por mais que eu tentasse,
não mais me segurava.

II

Já não havia mais a tua mão,
que me acolhia segurando,
afastando o medo e me retirando
das águas profundas
que me impediam de agir.

A mão que se estendeu em minha frente,
quando acreditei estar sozinha
agora se afasta lentamente,
mesmo quando perto
era ausente e eu não
sabia mais o que fazer.

Deixo que a terra me engula mais uma vez,
e que as águas traguem o que quiserem
para os seus mais profundos lares.
Sem a tua mão a me estender,
entrego-me ao destino
e aos mais profundos mares.

(Essa é uma das minhas poesias favoritas, espero que também seja a de vocês)

Raquel Núbia

Correr

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Correr passos fortes
correr para vida.
Correr pela morte,
Correr perdida.

Correr sozinho,
correr acompanhado.
Correr na frente,
correr lado a lado.

Correr com vontade,
correr sem destino.
Correr sem idade,
correr sem caminho.

Correr no espaço,
espaço tão grande,
tão grande é o laço
e assim mesmo se esconde.

Correr mais depressa,
depressa seguir.
Seguir para frente,
pra frente fluir.

Correr sem saber,
saber não interessa.
Interessa a chegada,
e ao chegar, recomeça.

Rápido,
em frente.
Não pensa,
não sente.
Faça.
Sorria.
É a graça
do dia.

Não olhe nos olhos
ou o profundo se vê.
Se vê o profundo
não há como esconder.

Escolha as perguntas,
perguntas sem ponto.
Sem ponto as pessoas
que aumentam o conto.

O relógio marcando,
apontando a hora.
Não há o que escolher,
a escolha é agora.

Passa o dia
e já nem se vê.
Nem se vê a rotina,
rotina de viver.

Correr de novo.
De novo há direção.
Direção escolhida,
não é opção.

A mente pensa…
E pensa em parar.
Parar já não pode,
pode continuar.

O corpo exclama
e clama a calma.
A calma da mente
que mente pra alma.

Mentira tão clara,
claro que o olho vê.
Olho que finge de bobo
“pro” bobo coração não saber.

E na rapidez
dessa vida diária,
se deixa pra traz
coisas tão necessárias.

A vontade aparece,
parece despertar.
Mas há vozes falando,
falando pra se calar.

Na camisa de força,
da força do pensamento.
Mas não há saída,
não há um alento.

O sol nasce de novo
e de novo espera.
A saída do dia
e de novo uma regra:

Correr.

Raquel Núbia

A falta

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Imagem: favim.com

Tenho mil poesias prontas guardadas num gaveta.
Tenho mil boas ideias, guardadas na minha cabeça.
Tenho mil planos feitos, aguardando para realizar.
Tenho destinos marcados num mapa, prontos para explorar.

Tenho arte e criatividade ao alcance das mãos.
Tenho voz e melodia para qualquer canção.
Tenho caminhos abertos para ir e vir.
Tenho uma estrada pronta para poder seguir.

Guardo fotos de momentos que nunca vivi.
Guardo sentimentos que nunca senti.
Guardo ideias e destinos quem sabe para outro dia.
Faço o mesmo com os planos caminhos e poesias.

Mas me falta uma coisa que há um tempo perdi.
Por ser acostumada sequer percebi.
Essa falta que vem do passado do presente.
E que causa um desamor que só sabe quem sente.

Raquel Núbia

Eu quero

Eu quero paredes brancas, eu quero janelas abertas…
Eu quero varanda molhada, eu quero uma vista discreta.
Eu quero vidros limpos e uma vegetação lá fora…
Eu quero uma escrivaninha sem compromisso com a hora.
Eu quero café para dois, com xícaras sobre a mesa.
Eu quero meias nos pés e sonho de sobremesa.
Eu quero o silêncio da chuva…
Quero o prazer da solidão.
Eu quero uma folha em branco e uma caneta na mão.
Eu quero um mural de fotos, com fotos de gente comum.
Eu quero poltronas e mantas.
Eu quero lugar para mais um.
Eu quero um tempo pra mim.
Eu quero chorar e sorrir.
Eu quero encontrar uma forma,
De querer e também conseguir.

Eu quero

Raquel Núbia

Pode-se dizer

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Imagem: favim.com

Pode-se dizer que sou um tanto ansiosa,
e por vezes um tanto detalhista…
Que sou um tanto quanto calma
e um outro tanto pessimista.
Na minha opinião,
se é pra fazer é para agora.
Mas, pode-se dizer que eu faço tudo à minha hora.
Lado oposto, lado errado,
quase nunca tenho lado.
Se é pra ficar eu quero ir,
se é pra ir eu fico aqui.
Se é pra rir eu vou chorar,
se é pra chorar: deixa pra lá.
Pode-se dizer que minha cara é fechada
e um tanto quanto chata,
eu confesso.
Mas meu real jeito de ser
só poderá conhecer
quem ao meu lado sem censura tem acesso…

Raquel Núbia