Distraído

Quando foi que nos tornamos assim, tão especiais?
Quando foi que o mundo passou a girar ao nosso redor?
Quando foi que todas as pessoas que conhecemos começaram a agir em nosso favor ou contra nós?
Em algum intervalo de tempo, eu perdi esse momento e, de repente, quando voltei à “realidade” pude ver somente o caminhar das coisas, o reclamar, a busca incessante pela responsabilidade e culpa alheia. De 8 ou 80 o que ouço são pessoas adultas se denominando meninos e meninas, fazendo das paredes, espelhos que só refletem sua própria imagem e assim, tudo o que os cerca, tudo o que acontece está voltado para eles mesmos.
Não, eu não falo de selfies, bons ângulos, filtros, likes…
Eu falo de pessoas se eximindo de suas vidas, colocando no colo do outro as causas para suas mazelas e belezas… Se estou triste, a culpa é do outro que me magoou… Se me olharam, é porque sou demais e irresistível… Se me traíram, é porque outra pessoa roubou meu amor… Se revidei a alguma agressão é porque fui provocada ao máximo por outra pessoa.
Nunca me sinto triste por problemas meus… As pessoas nunca me olham por olhar… Se fui traída, não foi por falta de qualidade minha… Se revidei não é porque perdi o controle…
Há sempre um outro. O outro a quem se pode atribuir as razões para que não se precise olhar no espelho e enxergar além de tudo o que nos faz especiais. E nesse reflexo que vemos, acreditamos. Depois de um tempo nem se sabe mais separar o que é realidade do que é egocentrismo* e nos reforçamos com tanta vontade frente aos outros que nos perdemos.
É difícil… Mas precisamos nos lembrar que, apesar de sermos únicos em nossa essência, não somos os únicos no mundo. Nossos interesses não geram, necessariamente, interesse nos outros. O que os outros fazem, fazem porque querem e não por estarem ligados a algo do nosso cotidiano, a maioria das pessoas que nos causaram algum mal, nem sequer lembram que existimos então, faça-se um favor e repita para si mesmo num desses espelhos invisíveis: “Eu não sou assim, tão especial. O mundo não gira ao meu redor”.
Nem sempre você será digno de um espaço na memória… E se não for, não insista.
Pare de estruturar dias e momentos tão arduamente, siga distraída… É na distração que moram as pessoas e coisas realmente especiais… É na distração que amizades viram amores, que amores viram lembranças e que as lembranças um dia desaparecem.

altocaparao6
Raquel Núbia. Foto: Leandro Oliveira – Alto Caparaó/MG

Raquel Núbia
*O Egocentrismo é a característica que define as personalidades dos que consideram que tudo gira ao seu redor. Remete ao indivíduo que prioriza a si (seus desejos, pensamentos e necessidades) diante da realidade, tornando-se imersos em uma fantasia apropriada a esse padrão de aceitação e não enxergando a realidade da vida social e das necessidades de outros indivíduos em relação as suas.

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