(!)

Acho que estou desaprendendo a escrever.
Muitas coisas me vêm à cabeça no decorrer do dia, mas quase nada me vem traduzido em palavras, nem faladas, nem escritas. Geralmente tenho muita dificuldade para escrever quando estou me sentindo muito feliz, quando nada me incomoda… Mas não é o caso, porque dentro da minha mente o fluxo de pensamentos, sentimentos e principalmente questionamentos continua em um nível insano.
Talvez seja mesmo por isso que escrever, pura e simplesmente sobre algo específico, esteja sendo custoso… O que geralmente não é.
Além desse fluxo intenso que não deixa minha cabeça parar, sinto que algumas amarras me vem sendo impostas, não por alguém em específico, mas toda uma situação que faz com que eu mesma meça minhas palavras, já pensando em possíveis interpretações dos outros e isso é limitante.
São mordaças que eu mesmo tenho amarrado à minha boca e, mesmo que sejam necessárias e fonte de oportunidade de pensar e repensar antes de falar, algumas vezes impossibilitam de nos expressarmos e para mim, a expressão por forma da escrita é também uma maneira de elaborar o que se passa comigo.
Mas, pensando nisso e algumas outras coisas nesses últimos dias, culminando com algo me dito hoje, acho que essa dificuldade em escrever e por consequência falar, dizer algo, vem também da sensação de que os outros não querem ouvir.
Algumas pessoas têm muita dificuldade em ouvir mas acima de tudo, de compreender os outros e quando escutam ou observam, suas devolutivas são baseadas em suas vontades e necessidades, não de quem fala.
Pode parecer confuso, mas não é.
Se estou de luto e me visto de preto, expresso algo que sinto, presto uma homenagem a alguém. Alguém pode se dirigir a mim e fazer um longo discurso motivacional sobre a importância de se sobrepor o luto e retomar as rotinas de forma habitual, tirar o preto e elaborar a perda de uma forma mais colorida.
Como Psicóloga, sei bem como funciona o processo do luto…

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Mas de quem realmente é a necessidade do luto colorido? O quão legítima é essa preocupação? O quanto foi pensada no próximo? Será que não estamos dirigindo aos outros nossas próprias necessidades e os moldando de forma que os benefícios e melhorias venham para nós mesmos e não para quem precisa?
Sinto muito que quem nos cerca tenha tanta dificuldade em enxergar o outro, os outros, perceber da importância de suas atitudes, decisões, indecisões, escolhas e dúvidas para todos e não para um.
Sinto muito que cada vez mais estejamos nos fechando em um mundo em que nos colocamos no primeiro lugar e nem sequer praticamos hábito da empatia, de se colocar no lugar do outro.
Não sei se estou me conseguindo fazer entender porque, apesar de claro na minha mente, me questiono se consigo explicar isso que sinto. O que sei é que sinto. E por sentir, sinto muito.

Raquel Núbia

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