Conto

“Não sei há quanto tempo estou correndo quando paro e olho para trás. A adrenalina corre imponente pelo meu corpo e eu descanso as mãos nos joelhos tentando recuperar o fôlego e controlar minha respiração. Sinto cada parte do meu corpo formigando, exclamando por mais oxigênio para que possa recuperar o domínio sob suas funções.
Continuo o caminho, desta vez com passos mais calmos e lentos afinal, já não faz sentido correr tanto, pois quero acreditar que estou segura, mas como posso estar segura se não há ninguém por perto?
Desvio meu pensamento e tento me convencer de que corri o mais rápido e para o mais distante possível e que nada poderia me alcançar ali senão eu mesmo. Subitamente percebo que a única coisa que tenho feito nos últimos tempos é correr…
Correr dos planos traçados, das pessoas, das oportunidades, de mim, da verdade.
Como não percebi isso antes?
Fecho os olhos e tento imaginar um lugar bonito e calmo, com águas claras e o silêncio de que preciso para escutar minha própria voz, de repente minha música favorita me vem à cabeça e cantando mentalmente percebo como cada verso me dá um tapa na cara me lembrando das verdades em que eu acreditei e hoje finjo acreditar.
Me sinto como se estivesse completamente nua e o fôlego me falta novamente, dessa vez não por causa de um corrida intensa, mas devido a velocidade dos meus pensamentos que agora me sufocam.
Novamente sinto a adrenalina realizando seu trabalho e não evito uma olhada por cima dos ombros, estou com medo. De que? De quem? Será que vão me alcançar?
Me dou conta de que preciso continuar correndo, talvez encontrar alguém, mas quem?
Me questiono quase sem querer se vale a pena tanto esforço quando seria tão mais fácil apenas continuar caminhando já que sempre sou encontrada, até quando não quero. Quem sabe o melhor não seria mesmo continuar com meus passos calmos fingindo que não sei o perigo que corro até que sinta aquele velho toque batendo no meu ombro, me pegando pela mão e me guiando de volta pelos velhos caminhos que eu nunca quis conhecer…
Estou parada sem conseguir chegar a lugar algum.”
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Raquel Núbia

2 respostas para “Conto”

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